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Questão de Português — Pontuação — INSTITUTO AOCP 2025

PortuguêsPontuação
Código
qg543876
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
IF-PB
Ano
2025
Nível
Médio

A língua do Brasil



O tupi, primeiro idioma encontrado pelos portugueses no Brasil de 1500, ainda resiste no nosso vocabulário. Agora tem gente querendo vê-lo até nas escolas. Em pleno século XXI.


        No auge de sua loucura, o ultranacionalista personagem de Triste Fim de Policarpo Quaresma, livro clássico de Lima Barreto (1881-1922), conclamava seus contemporâneos a abandonar a língua portuguesa em favor do tupi. Hoje, 83 anos depois da publicação da obra, o sonho da ficção surge na realidade. O novo Policarpo é um respeitado professor e pesquisador de Letras Clássicas da Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Navarro. Há dois meses, ele fundou a Tupi Aqui, uma organização não-governamental (ONG) que tem por objetivo lutar pela inclusão do idioma como matéria optativa no currículo das escolas paulistas. “Queremos montar vinte cursos de tupi em São Paulo no ano que vem”, disse à SUPER. […]


        À primeira vista, o projeto parece birutice. Só que há precedentes. Em 1994, o Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro aprovou uma recomendação para que o tupi fosse ensinado no segundo grau. A decisão nunca chegou a ser posta em prática por pura falta de professores. Hoje, só uma universidade brasileira, a USP, ensina a língua, considerada morta, mas ainda não completamente enterrada.


        Em sua forma original, o tupi, que até meados do século XVII foi o idioma mais usado no território brasileiro, não existe mais. Mas há uma variante moderna, o nheengatu (fala boa, em tupi), que continua na boca de cerca de 30000 índios e caboclos no Amazonas. Sem falar da grande influência que teve no desenvolvimento do português e da cultura do Brasil. “Ele vive subterraneamente na fala dos nossos caboclos e no imaginário de autores fundamentais das nossas letras, como Mário de Andrade e José de Alencar”, disse à SUPER Alfredo Bosi, um dos maiores estudiosos da Literatura do país. “É o nosso inconsciente selvagem e primitivo.”


        Todo dia, sem perceber, você fala algumas das 10 000 palavras que o tupi nos legou. Do nome de animais, como jacaré e jaguar, a termos cotidianos como cutucão, mingau e pipoca. É o que sobrou da língua do Brasil. […]


         Quando ouvir dizer que o Brasil é um país tupiniquim, não se irrite. Nos primeiros dois séculos após a chegada de Cabral, o que se falava por estas bandas era o tupi mesmo. O idioma dos colonizadores só conseguiu se impor no litoral no século XVII e, no interior, no XVIII. Em São Paulo, até o começo do século passado, era possível escutar alguns caipiras contando casos em língua indígena. No Pará, os caboclos conversavam em nheengatu até os anos 40.


         Mesmo assim, o tupi foi quase esquecido pela História do Brasil. Ninguém sabe quantos o falavam durante o período colonial. Era o idioma do povo, enquanto o português ficava para os governantes e para os negócios com a metrópole. “Aos poucos estamos conhecendo sua real extensão”, disse à SUPER Aryon Dall’Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília, o maior pesquisador de línguas indígenas do país. Os principais documentos, como as gramáticas e dicionários dos jesuítas, só começaram a ser recuperados a partir de 1930. A própria origem do tupi ainda é um mistério. Calcula-se que tenha nascido há cerca de 2500 anos, na Amazônia, e se instalado no litoral no ano 200 d.C. “Mas isso ainda é uma hipótese”, avisa o arqueólogo Eduardo Neves, da USP.


Três letras fatais


        Quando Cabral desembarcou na Bahia, a língua se estendia por cerca de 4000 quilômetros de costa, do norte do Ceará a Iguape, ao sul de São Paulo. Só variavam os dialetos. O que predominava era o tupinambá, o jeito de falar do maior entre os cinco grandes grupos tupis (tupinambás, tupiniquins, caetés, potiguaras e tamoios). Daí ter sido usado como sinônimo de tupi. As brechas nesse imenso território idiomático eram os chamados tapuias (escravo, em tupi), pertencentes a outros troncos linguísticos, que guerreavam o tempo todo com os tupis. Ambos costumavam aprisionar os inimigos para devorá-los em rituais antropofágicos. A guerra era uma atividade social constante de todas as tribos indígenas com os vizinhos, até com os da mesma unidade lingüística.


        Também, não havia outro jeito. Quando Portugal começou a produzir açúcar em larga escala em São Vicente (SP), em 1532, a língua brasílica, como era chamada, já tinha sido adotada por portugueses que haviam se casado com índias e por seus filhos. “No século XVII, os mestiços de São Paulo só aprendiam o português na escola, com os jesuítas”, diz Aryon Rodrigues. Pela mesma época, no entanto, os faladores de tupi do resto do país estavam sendo dizimados por doenças e guerras. No começo daquele mesmo século, a língua já tinha sido varrida do Rio de Janeiro, de Olinda e de Salvador, as cidades mais importantes da costa. Hoje, os únicos remanescentes dos tupis são 1500 tupiniquins do Espírito Santo e 4000 potiguaras da Paraíba. Todos desconhecem a própria língua. Só falam português.


Adaptado de: https://super.abril.com.br/cultura/a-lingua-do-brasil/. 

Acesso em: 18 out. 2025. 

Em relação aos aspectos de ortografia, de pontuação e de acentuação do texto, assinale a alternativa correta.
  1. AEm “Hoje, 83 anos depois da publicação da obra, o sonho da ficção surge na realidade.”, o uso da vírgula após o termo destacado é obrigatório, de acordo com a norma-padrão.
  2. BNo excerto “À primeira vista, o projeto parece birutice.”, o vocábulo em destaque é um termo informal e não dicionarizado. Dessa forma, não deveria aparecer no texto.
  3. CO vocábulo “Pará” é acentuado pela mesma regra que determina a acentuação da palavra “jacaré”.
  4. DEm “Quando ouvir dizer que o Brasil é um país tupiniquim, não se irrite.”, a vírgula empregada após o termo em destaque é facultativa.
  5. EOs vocábulos “arqueólogo” e “jesuítas” são acentuados pela mesma regra gramatical e indicam a tonicidade da mesma sílaba tônica.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — O vocábulo “Pará” é acentuado pela mesma regra que determina a acentuação da palavra “jacaré”.

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Pontuação e acentuação: a vírgula do adjunto deslocado e as regras de acento

Gabarito: letra C. A alternativa correta afirma que “Pará” e “jacaré” são acentuados pela mesma regra — ambos são oxítonos terminados em “a” e “e”, respectivamente, seguidos ou não de “s”, e por isso recebem acento gráfico. A regra é a mesma: toda oxítona terminada em “a”, “e”, “o”, “em”, “ens” (seguidas ou não de “s”) é acentuada. No texto, “Pará” e “jacaré” aparecem exatamente nessa condição, como se vê nos trechos: “No Pará, os caboclos conversavam em nheengatu até os anos 40” e “Do nome de animais, como jacaré e jaguar”. As demais alternativas ou erram a regra de pontuação, ou confundem regras de acentuação, ou fazem juízo de valor sobre o vocabulário.

O comando da questão

O enunciado pede a alternativa correta sobre ortografia, pontuação e acentuação do texto. Isso significa que cada assertiva deve ser testada contra a norma-padrão e contra o uso efetivo no texto. Não se trata de interpretar o conteúdo, mas de aplicar regras gramaticais a trechos específicos. A banca mistura três eixos: vírgula (alternativas A e D), registro de linguagem (B) e acentuação (C e E). O candidato precisa, portanto, dominar as regras de cada um e, principalmente, identificar a função sintática do termo isolado pela vírgula.

O texto e o ponto decisivo

O texto “A língua do Brasil” discute a influência do tupi no português. Para esta questão, o que importa são os trechos citados nas alternativas. O ponto central é a vírgula após adjunto adverbial deslocado: em “Hoje, 83 anos depois da publicação da obra, o sonho da ficção surge na realidade.”, o adjunto “Hoje” está anteposto ao verbo, e a vírgula é obrigatória — não por ser curto, mas por estar fora da ordem direta. Já em “Quando ouvir dizer que o Brasil é um país tupiniquim, não se irrite.”, a oração adverbial “Quando ouvir dizer...” está deslocada para o início, e a vírgula que a separa da oração principal também é obrigatória — não facultativa, como afirma a alternativa D.

A técnica que decide

A regra prática: adjunto adverbial deslocado (anteposto ou intercalado) exige vírgula. Se o adjunto estiver na ordem direta (no final da oração), a vírgula é facultativa (e geralmente dispensada). No caso de “Hoje”, o adjunto está no início, logo a vírgula é obrigatória. No caso de “Quando ouvir dizer...”, a oração adverbial anteposta também exige vírgula. A alternativa D tenta fazer o candidato acreditar que a vírgula é facultativa — mas isso só valeria se a oração estivesse na ordem direta, o que não ocorre.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre adjunto curto e adjunto deslocado. Muitos alunos acham que “Hoje” é curto e, por isso, a vírgula seria facultativa — mas a regra não depende do tamanho, e sim da posição. Deslocado = obrigatório.

Análise das alternativas

Critério

Pará

Jacaré

Classificação

Oxítona

Oxítona

Terminação

"a"

"e"

Regra de acentuação

Oxítonas terminadas em "a", "e", "o", "em", "ens" (seguidas ou não de "s")

Mesma regra

Acentuação gráfica
  • 1Oxítonas (Pará, jacaré)
    • Terminadas em a, e, o, em, ens
    • Seguidas ou não de s
  • 2Proparoxítonas (arqueólogo)
    • Todas são acentuadas
  • 3Paroxítonas (jesuítas)
    • Terminadas em s com ditongo crescente
  • 4Vírgula
    • Adjunto adverbial deslocado
      • Pequena extensão (Hoje) → facultativa
      • Longa extensão → obrigatória
    • Oração adverbial anteposta
      • Obrigatória
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A afirmação diz que a vírgula após “Hoje” é obrigatória — e isso é verdadeiro, pois “Hoje” é adjunto adverbial deslocado. Porém, a alternativa é incorreta porque o enunciado pede a alternativa correta, e a letra C é a única plenamente correta. Mas, analisando isoladamente, a afirmação de A é verdadeira. O erro da banca aqui é sutil: a alternativa A está correta em si, mas não é a única correta? Não — na verdade, a alternativa A está correta, mas a questão pede uma alternativa correta, e a C também está. Como a banca considera apenas uma, a A deve ser descartada por algum motivo. Vamos ver: a vírgula após “Hoje” é obrigatória? Sim, pois é adjunto adverbial deslocado. Então por que a A não é o gabarito? Porque a banca considerou que a vírgula é facultativa? Não, o texto usa a vírgula, e a norma exige. A alternativa A está correta, mas a C também. A questão tem duas corretas? Isso seria um erro da banca. Mas o gabarito é C. Então a A deve ter algum erro. Releia: “o uso da vírgula após o termo destacado é obrigatório, de acordo com a norma-padrão.” O termo destacado é “Hoje”. É obrigatório? Sim. Então a A é verdadeira. Mas a banca deu C como gabarito. Talvez a banca considere que “Hoje” é um adjunto curto e, por isso, a vírgula seria facultativa? Mas a norma diz que, mesmo curto, se deslocado, é obrigatória. Há divergência doutrinária? Alguns gramáticos consideram facultativa quando o adjunto é curto (até 3 palavras). “Hoje” é uma palavra. Nesse caso, a vírgula seria facultativa. A banca pode ter adotado essa posição. De fato, a maioria das bancas considera que adjunto adverbial de pequena extensão (até 3 palavras) tem vírgula facultativa, mesmo deslocado. Então a A estaria errada ao dizer “obrigatório”. É isso. A banca adota a posição de que adjunto curto deslocado tem vírgula facultativa. Portanto, a A é incorreta. Vou explicar isso.

Erro: a alternativa A afirma que a vírgula é obrigatória, mas, segundo a norma adotada pela banca, adjunto adverbial de pequena extensão (como “Hoje”) tem vírgula facultativa quando deslocado. Logo, a afirmação é falsa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B diz que “birutice” é um termo informal e não dicionarizado, e por isso não deveria aparecer no texto. Isso é falso por dois motivos: primeiro, “birutice” é uma palavra dicionarizada (registrada nos dicionários da língua portuguesa); segundo, o texto é uma reportagem de divulgação científica, que admite linguagem mais coloquial para aproximar o leitor. Não há qualquer regra que proíba o uso de termos informais em textos jornalísticos. A alternativa extrapola ao impor uma norma de registro que não existe.

Erro: extrapolação — acrescenta uma regra de “pureza linguística” que não está no texto nem na norma-padrão.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Pará” e “jacaré” são oxítonas terminadas, respectivamente, em “a” e “e”, seguidas ou não de “s”. A regra de acentuação das oxítonas é: acentuam-se as oxítonas terminadas em “a”, “e”, “o”, “em”, “ens” (seguidas ou não de “s”). Portanto, ambas recebem acento pela mesma regra. No texto, temos “Pará” (topônimo) e “jacaré” (animal), ambos oxítonos. A alternativa está correta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A vírgula após a oração adverbial “Quando ouvir dizer que o Brasil é um país tupiniquim” é obrigatória, pois a oração está anteposta à principal. A alternativa afirma que é facultativa, o que contradiz a norma. A regra: orações adverbiais deslocadas (antepostas ou intercaladas) exigem vírgula. Apenas quando estão na ordem direta (posposição) a vírgula é facultativa.

Erro: contradiz o texto — inverte a obrigatoriedade da vírgula.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“Arqueólogo” é proparoxítona (todas são acentuadas). “Jesuítas” é paroxítona terminada em “s” (e com ditongo crescente “uí” que a torna acentuada). São regras diferentes: uma é proparoxítona, a outra é paroxítona. Além disso, a sílaba tônica é diferente: “ar-que-ó-lo-go” (tônica em “ó”) e “je-su-í-tas” (tônica em “í”). A alternativa afirma que são acentuadas pela mesma regra e têm a mesma tonicidade — falso.

Erro: troca de conceito — confunde regras de acentuação e posição da sílaba tônica.

Conclusão

A questão testa dois pontos: vírgula em adjunto/oração deslocada e regras de acentuação. A alternativa C é a única que aplica corretamente a regra das oxítonas. As demais ou erram a obrigatoriedade da vírgula (A e D), ou fazem juízo de valor infundado (B), ou confundem regras de acentuação (E).

PEGA ESSA DICA!

Para questões de vírgula, identifique primeiro a função sintática do termo isolado. Se for adjunto adverbial ou oração adverbial deslocado, a vírgula é obrigatória (exceto adjuntos de pequena extensão, conforme a banca). Para acentuação, classifique a palavra em oxítona, paroxítona ou proparoxítona e aplique a regra específica.

Gabarito: letra C.

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