Morfologia e sintaxe: o 'se' reflexivo e as armadilhas de classe, tempo e colocação
Gabarito: letra D. A alternativa correta é a D, pois no trecho "incluindo o potencial para se viciar" o termo "se" é pronome reflexivo, indicando que a ação de "viciar" recai sobre o próprio sujeito — ou seja, trata-se de voz reflexiva. As demais alternativas falham por motivos específicos: a A erra ao trocar "por que" por "porque" (mudaria o sentido e a grafia); a B afirma que "massificaram" e "banalizaram" estão no mesmo tempo, o que é verdade, mas a alternativa diz que estão em tempos diferentes (na verdade, ambos estão no pretérito perfeito do indicativo); a C inverte as classes: "psicotrópicos" é adjetivo e "medicamentos" é substantivo, mas a alternativa diz o contrário; a E propõe deslocar o pronome "nos" para depois do verbo, o que violaria a regra do infinitivo impessoal (não se usa ênclise com infinitivo impessoal precedido de preposição).
O comando e a técnica
A questão pede para analisar aspectos linguísticos de trechos do texto, ou seja, exige conhecimento de morfologia (classes de palavras, flexão verbal) e sintaxe (colocação pronominal, voz verbal). Não se trata de interpretação de texto, mas de aplicação de regras gramaticais a trechos específicos. A técnica é: para cada alternativa, verifique se a afirmação sobre o trecho está correta do ponto de vista gramatical e se o trecho realmente contém o que a alternativa afirma.
O texto e o que ele ensina
O texto trata da dopamina e de como a busca por estímulos pode gerar insatisfação. Para a questão, o que importa são os trechos citados e a análise gramatical que cada alternativa propõe. Não precisamos interpretar o texto, mas sim aplicar regras de morfologia e sintaxe aos trechos destacados. A banca testa se o candidato domina:
Uso dos porquês (por que, porque, porquê, por quê);
Flexão verbal (tempo e modo);
Classes de palavras (substantivo, adjetivo, pronome);
Colocação pronominal (próclise, ênclise, mesóclise).
A regra que decide a questão
A alternativa D está correta porque o "se" em "para se viciar" é um pronome reflexivo. Na voz reflexiva, o sujeito pratica e recebe a ação ao mesmo tempo. No trecho, o sujeito (implícito) é quem se vicia — a ação de "viciar" recai sobre o próprio sujeito. Isso é típico de verbos pronominais, como "viciar-se", "arrepender-se", "queixar-se".
"incluindo o potencial para se viciar"
Aqui, "se" é parte integrante do verbo pronominal "viciar-se", mas a alternativa o classifica como reflexivo, o que é aceitável porque a ação recai sobre o sujeito. A banca considera correta essa análise.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "por que" poderia ser substituído por "porque" no título. Isso é incorreto. No título "Dopamina: por que busca desenfreada por estímulos pode tirar satisfação da vida", o "por que" é usado em uma pergunta indireta (equivale a "por qual motivo"). Se trocarmos por "porque", a frase perde o sentido interrogativo e fica gramaticalmente inadequada. A regra:
Por que (separado, sem acento): usado em perguntas diretas ou indiretas, ou quando equivale a "por qual motivo" ou "pelo qual".
Porque (junto, sem acento): usado em respostas ou explicações, equivalendo a "pois" ou "uma vez que".
No título, a pergunta é indireta: "por que busca... pode tirar satisfação". Portanto, "porque" não pode substituir sem prejuízo. A alternativa erra ao propor a troca.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "massificaram" e "banalizaram" estão no mesmo tempo verbal. Isso é verdadeiro — ambos estão no pretérito perfeito do indicativo (3ª pessoa do plural). No entanto, a alternativa diz que estão em tempos diferentes, o que é falso. A banca inverte a informação: o correto seria afirmar que estão no mesmo tempo. Portanto, a alternativa está incorreta.
"massificaram e banalizaram a dinâmica dos disparos"
Ambos os verbos estão no pretérito perfeito, indicando ações concluídas no passado. A alternativa erra ao dizer que são tempos distintos.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "medicamentos" e "psicotrópicos" pertencem a classes distintas: o primeiro caracteriza (adjetivo) e o segundo nomeia (substantivo). Isso está invertido. Na verdade:
"medicamentos psicotrópicos"
A ordem é substantivo + adjetivo. A alternativa erra ao inverter as classes.
Alternativa D — ✅ Correta
A alternativa afirma que "se" em "para se viciar" é pronome reflexivo, pois a ação recai sobre o próprio sujeito. Isso está correto. O verbo "viciar-se" é pronominal, e o "se" indica que a ação é praticada e sofrida pelo sujeito. No contexto, o potencial de viciar-se é algo que recai sobre a pessoa. A alternativa está correta.
"incluindo o potencial para se viciar"
Aqui, "se" é reflexivo, pois o sujeito (implícito) pratica a ação de viciar e a recebe. A alternativa acerta ao classificar o termo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o pronome "nos" em "que nos tornam humanos" poderia ser posicionado após o verbo "tornar", sem prejuízo gramatical. Isso é incorreto. No trecho, "nos" é um pronome oblíquo átono que funciona como objeto direto. A colocação correta é a próclise (antes do verbo) porque há um fator de atração: o pronome relativo "que".
"sentir as intensas emoções que nos tornam humanos"
O pronome relativo "que" atrai o pronome para antes do verbo. Se deslocarmos para depois ("tornam-nos"), a frase ficaria gramaticalmente incorreta, pois a ênclise não é permitida com pronome relativo. A alternativa erra ao propor o deslocamento.
Conclusão
A única alternativa correta é a D, pois o "se" em "para se viciar" é pronome reflexivo. As demais falham por: A troca indevida de "por que" por "porque"; B inverte a informação sobre o tempo verbal; C inverte as classes de palavras; E propõe colocação pronominal inadequada. A banca testa o domínio de regras gramaticais específicas, e a alternativa D é a única que aplica corretamente o conceito de voz reflexiva.
Gabarito: letra D