Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Funções morfossintáticas da palavra QUE — INSTITUTO AOCP 2025

PortuguêsFunções morfossintáticas da palavra QUE
Código
qg544223
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SANESUL
Ano
2025
Nível
Superior
Dopamina: por que busca desenfreada por estímulos pode tirar satisfação da vida


Shin Suzuki


    [...] Para a psiquiatra norte-americana Anna Lembke, seja em redes sociais, seja em jogos ou em compras online, por exemplo – instantes usando o celular vêm permeando a vida moderna de um modo excessivo e contribuindo para uma constante sensação de insatisfação, em que picos de empolgação ficam cada vez mais raros. [...]

    A dopamina, mensageiro químico do cérebro, é conhecido erroneamente como “hormônio do prazer”. Na realidade, suas características estão ligadas à motivação ou estímulo reforçador, com destacada atuação no sistema de recompensa cerebral. A sensação de prazer tem outros componentes químicos envolvidos. A dopamina, no entanto, é uma molécula fundamental em um processo maturado durante milhões de anos de evolução: o corpo instintivamente evita a dor. Procura o oposto. “Quando a dopamina é liberada e seus níveis sobem em resposta a algo que ingerimos ou fizemos, o corpo sente prazer, recompensa, euforia. E, então, claro, nós sempre estamos buscando recriar essa sensação”, diz Lembke em entrevista à BBC News Brasil.

    [...] Mas o nosso organismo sempre tenta restabelecer um equilíbrio interno, chamado de homeostase. Ou seja, se o nível de dopamina foi para as alturas, o corpo tenta compensar o outro lado da balança. “É aquela ‘descida’ após qualquer experiência prazerosa. Às vezes essa descida ocorre de forma óbvia, como a ressaca depois de uma bebedeira, mas outras vezes é muito mais sutil”, diz a psiquiatra. “Essencialmente, é a dopamina em queda livre, que não volta apenas a níveis basais, mas cai para abaixo deles. Então, para cada prazer, há um custo. E o custo é uma sensação temporária da abstinência de uma substância. Algo universalmente traduzido em ansiedade, irritabilidade, depressão e fissura pela droga de preferência”.

    [...] Lembke trata na clínica em Stanford casos graves de abusos de substâncias ou de dependência em sexo ou apostas, mas observa que os atrativos surgidos com a internet e a tecnologia digital massificaram e banalizaram a dinâmica dos disparos de dopamina e da compulsão. Ela acredita que todos nós podemos aprender com casos graves de dependência, “versões extremas do que todos nós somos capazes”. “A riqueza, a abundância e a tecnologia da nossa época fazem com que quase toda experiência humana tenha o potencial de vício, de uma droga. As mídias sociais são conexão humana em forma de droga. O que torna algo viciante? Algo que dispara dopamina no sistema de recompensa do cérebro de forma rápida”, diz ela. “E nós temos acesso fácil, quantidade ilimitada, grande potência e novidades ilimitadas. A dopamina responde a todas essas condições”.

    [...] A psiquiatra da Universidade Stanford acredita que a ideia de eliminar a dor a qualquer custo como paradigma trouxe desvantagens para a sociedade. Lembke se refere tanto à fuga automática de desconfortos como o tédio e a monotonia quanto ao uso indiscriminado de medicamentos para combater a dor – algo que teve grande papel na crise dos opioides, que vitimou centenas de milhares de norte-americanos nas últimas décadas.

    “Evitar a dor nos priva de experiências que constroem os calos mentais para encarar desafios futuros. E eu falo de dor de uma forma ampla: emocional, espiritual, todos os diferentes tipos de sofrimento físico e psicológico”.

    Lembke explica que a retomada do contato com o desconforto é exemplificada por algo frugal: a terapia do banho gelado (e, de fato, pesquisas sugerem benefícios da água fria não só para melhorar a circulação, mas também para aliviar depressão).

    [...] Mas uma pergunta paira: não será justamente a vida moderna, com toda a sua pressão e desafios, que impõe peso sobre todos que a habitam e dessa forma precisamos de algo para sanar essas dores? 

    Ela responde: “Eu concordo que nós vivemos em um mundo muito estranho e em uma época muito estranha, e que a vida em tempos modernos é difícil por razões paradoxais”.

    “Acho que medicamentos psicotrópicos têm representado uma maneira para nos adaptar a um mundo para o qual a nossa evolução ainda não chegou. Mas, em geral, eu acho que esses remédios são prescritos de forma excessiva, sem o reconhecimento de seus lados negativos, incluindo o potencial para se viciar ou nos privar de sentir as intensas emoções que nos tornam humanos." "A sugestão é que, em vez de usar medicamentos para nos adaptar a esse novo mundo, tentemos mudar as nossas experiências nele”.


Adaptado de: https://www.bbc.com/portuguese/internacional61303597. Acesso em: 17 fev. 2025.
Assinale a alternativa cujo termo em destaque NÃO pertença à mesma classe de palavras a que pertence o conectivo destacado em “A sugestão é que, em vez de usar medicamentos para nos adaptar a esse novo mundo, tentemos mudar as nossas experiências nele”.
  1. A“[...] observa que os atrativos [...] massificaram e banalizaram a dinâmica dos disparos de dopamina e da compulsão.”
  2. B“A psiquiatra da Universidade Stanford acredita que a ideia de eliminar a dor [...] trouxe desvantagens para a sociedade.”
  3. C“Eu concordo que nós vivemos em um mundo muito estranho e em uma época muito estranha [...]”.
  4. D“Mas, em geral, eu acho que esses remédios são prescritos de forma excessiva.”
  5. E“[...] incluindo o potencial para se viciar ou nos privar de sentir as intensas emoções que nos tornam humanos.”
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — “[...] incluindo o potencial para se viciar ou nos privar de sentir as intensas emoções que nos tornam humanos.”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Funções do "que": conjunção integrante × pronome relativo

Gabarito: letra E. O "que" destacado em "as intensas emoções que nos tornam humanos" é pronome relativo (retoma "emoções" e introduz oração adjetiva), enquanto o "que" do enunciado — "A sugestão é que..." — é conjunção subordinativa integrante (introduz oração substantiva subjetiva). Como a banca pede a alternativa cujo "que" NÃO pertence à mesma classe, a resposta é a letra E.

O comando é de classificação morfossintática: você precisa identificar a classe gramatical do "que" em cada ocorrência e compará-la com a do trecho-base. Não se trata de interpretar o conteúdo do texto, mas de aplicar a distinção entre os usos da partícula "que". A pegadinha clássica é confundir conjunção integrante (que liga orações substantivas, sem função sintática própria) com pronome relativo (que retoma um antecedente e exerce função sintática na oração adjetiva).

No trecho-base, "A sugestão é que..." — o "que" introduz a oração "que tentemos mudar as nossas experiências nele", que funciona como sujeito ou predicativo do sujeito "a sugestão". Trata-se de oração subordinada substantiva, e o "que" é conjunção subordinativa integrante: apenas conecta, não retoma termo anterior nem exerce função sintática. Esse é o padrão que você deve buscar nas alternativas A, B, C e D.

A técnica decisiva: troque o "que" por "isso" — se a frase continuar fazendo sentido, é conjunção integrante (ex.: "A sugestão é isso"); se precisar de um termo como "as quais" ou "o qual", é pronome relativo (ex.: "as emoções as quais nos tornam humanos"). Aplicando esse teste, as letras A, B, C e D têm "que" integrante; apenas a E tem pronome relativo.

"Que" (partícula)
  • 1Conjunção integrante
    • Introduz oração substantiva
    • Sem função sintática
    • Teste: trocar por "isso"
    • Ex.: "A sugestão é que..."
  • 2Pronome relativo
    • Retoma antecedente
    • Exerce função sintática
    • Introduz oração adjetiva
    • Teste: trocar por "o qual"
    • Ex.: "emoções que nos tornam humanos"
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

"[...] observa que os atrativos [...] massificaram e banalizaram a dinâmica dos disparos de dopamina e da compulsão."

O "que" introduz a oração "que os atrativos massificaram...", objeto direto do verbo "observa" — oração subordinada substantiva objetiva direta. É conjunção subordinativa integrante, mesma classe do trecho-base. Erro: troca de conceito — a alternativa é correta em relação ao pedido, mas não é a resposta porque pertence à mesma classe.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"A psiquiatra da Universidade Stanford acredita que a ideia de eliminar a dor [...] trouxe desvantagens para a sociedade."

Aqui o "que" introduz a oração "que a ideia... trouxe desvantagens", objeto direto de "acredita" — oração subordinada substantiva objetiva direta. Conjunção subordinativa integrante, mesma classe do enunciado. Erro: troca de conceito — não é a resposta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Eu concordo que nós vivemos em um mundo muito estranho e em uma época muito estranha [...]".

O "que" introduz a oração "que nós vivemos...", que completa o sentido de "concordo" — oração subordinada substantiva objetiva direta. Conjunção subordinativa integrante, mesma classe. Erro: troca de conceito — não é a resposta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Mas, em geral, eu acho que esses remédios são prescritos de forma excessiva."

O "que" introduz a oração "que esses remédios são prescritos", objeto direto de "acho" — oração subordinada substantiva objetiva direta. Conjunção subordinativa integrante, mesma classe. Erro: troca de conceito — não é a resposta.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"[...] incluindo o potencial para se viciar ou nos privar de sentir as intensas emoções que nos tornam humanos."

Aqui o "que" retoma o antecedente "emoções" e exerce função sintática de sujeito do verbo "tornam" (as emoções nos tornam humanos). Introduz oração subordinada adjetiva restritiva — é pronome relativo, classe diferente da conjunção integrante do enunciado. Por isso, é a única alternativa que NÃO pertence à mesma classe pedida.

NÃO CAIA NESSA!

A banca coloca quatro ocorrências de "que" como conjunção integrante e uma como pronome relativo, testando se você reconhece a diferença pela retomada do antecedente. O teste do "isso" resolve na hora.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver "que" após verbos de dizer/pensar (observa, acredita, concordo, acho), desconfie de conjunção integrante; ao ver "que" após um substantivo (emoções, livro, pessoa), desconfie de pronome relativo.

Gabarito: letra E — a única em que o "que" é pronome relativo, e não conjunção subordinativa integrante.

Link permanente: /questoes/qg544223