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Questão de Português — Interpretação de Textos — Quadrix 2025

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qg595214
Banca
Quadrix
Órgão
CONRERP 2ª Região
Ano
2025
Nível
Médio
Cargo
Assistente Administrativo
        Sala em casa do juiz de paz. Mesa no meio com papéis, cadeiras.

        Entra o juiz de paz vestido de calça branca, sobrecasaca de riscado, chinelas verde e sem gravata.

      – Vamo‑nos preparando para dar audiência. (ARRANJA OS PAPÉIS.) O escrivão já tarda; sem dúvida, está na venda do Manuel do Coqueiro... O último recruta que se fez já vai‑me fazendo peso. Nada, não gosto de presos em casa. Podem fugir, e depois dizem que o juiz recebeu algum presente.

        (BATEM À PORTA) – Quem é? Pode entrar.

        (ENTRA UM ESCRAVO COM UM CACHO DE BANANAS E UMA CARTA, QUE ENTREGA AO JUIZ. O JUIZ, LENDO A CARTA:) “Ilmº Sr. Muito me alegro de dizer a V. Sª que a minha intenção, ao fazer desta, é boa, e que a mesma desejo para V. Sª pelos circunlóquios com que lhe venero”. (DEIXANDO DE LER:) – Circunlóquios... Que nome em breve! O que quererá ele dizer? Continuemos. (LENDO:) “Tomo a liberdade de mandar a V. Sª um cacho de bananas‑maçãs para V. Sª comer com a sua boca e dar também a comer à Srª Juíza e aos Srs. Juizinhos. V. Sª há‑de reparar na insignificância do presente; porém, Ilmº Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. Sª fará o favor de aceitar as ditas bananas, que diz minha Teresa serem muito boas. No mais, receba as ordens de quem é seu venerador e tem a honra de ser ‘Manuel André de Sapiruruca’.”

        – Bom, tenho bananas para a sobremesa. Ó pai, leva estas bananas para dentro e as entrega à senhora. Toma lá um vintém para teu tabaco. (SAI O ESCRAVO). O certo é que é bem bom ser juiz de paz cá pela roça. De vez em quando, temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos, etc., etc.

        (BATEM À PORTA) – Quem é?

        Escrivão (DENTRO): – Sou eu.

        Juiz: – Ah, é o escrivão. Pode entrar.

PENA, Martins. O juiz de paz na roça. Cena IX. 1838.
In: Lydinéa Gasman. Documentos históricos brasileiros.
Rio de Janeiro, Fename, 1976, p. 181 e 182 (com adaptações).
Depreende‑se do fragmento em análise que o autor apresenta
  1. Ao juiz de paz como um profissional íntegro, ético e imparcial, que se comporta, na vida privada, em conformidade com a legislação e as resoluções aplicáveis às condutas de um magistrado.
  2. Ba contradição na conduta do juiz de paz, que se mostra preocupado com o fato de manter um preso em sua casa, pois poderia ser acusado de suborno em caso de fuga, mas recebe, de bom grado, o presente de Manuel.
  3. Cuma situação em que o juiz de paz, por atuar em sua residência, pode ter relações ou manter interesses com membros específicos da comunidade, sem que isso afete sua imparcialidade.
  4. Do caráter jurisdicional da função exercida pelo juiz de paz na zona rural, que garante a confiança da comunidade local no sistema judiciário e assegura a lisura em suas decisões e a transparência dos processos sob sua jurisdição.
  5. Ea integridade presente na ação do juiz de paz como um valor essencial para qualquer profissional da justiça, que deve agir de acordo com os princípios de justiça, sem corrupção ou influência indevida.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — a contradição na conduta do juiz de paz, que se mostra preocupado com o fato de manter um preso em sua casa, pois poderia ser acusado de suborno em caso de fuga, mas recebe, de bom grado, o presente de Manuel.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A contradição na conduta do juiz de paz

Gabarito: letra B. O fragmento revela uma contradição na conduta do juiz de paz: ele se mostra preocupado com a possibilidade de ser acusado de suborno se um preso fugir de sua casa, mas, logo em seguida, recebe com satisfação o presente de bananas enviado por Manuel. A passagem que ancora essa leitura é a fala do juiz:

"Nada, não gosto de presos em casa. Podem fugir, e depois dizem que o juiz recebeu algum presente."

E, após ler a carta, ele comenta:

"O certo é que é bem bom ser juiz de paz cá pela roça. De vez em quando, temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos, etc., etc."

A alternativa B é a única que capta essa ironia e contradição entre o discurso e a prática do personagem.

O comando: "depreende-se"

O verbo "depreender" indica que a questão pede uma inferência — ou seja, uma conclusão que não está literalmente escrita, mas que é obrigatoriamente sustentada por pistas do texto. Não se trata de repetir uma frase, mas de perceber o que o autor sugere pela sequência de ações e falas. A resposta correta precisa ser uma dedução ancorada no fragmento, não uma opinião externa.

O texto: tema e movimento argumentativo

O fragmento é uma cena teatral de Martins Pena, comédia de costumes do século XIX. O juiz de paz, em sua casa, reclama do escrivão atrasado e demonstra preocupação com o preso que mantém em casa: teme que, se o preso fugir, digam que ele "recebeu algum presente" (suborno). Em seguida, recebe um cacho de bananas de um tal Manuel André, com uma carta repleta de reverências e justificativas. O juiz aceita o presente com naturalidade e até comenta que "é bem bom ser juiz de paz cá pela roça" por causa dos presentes. A contradição é evidente: ele teme a aparência de suborno, mas não vê problema em aceitar presentes.

A técnica: inferência legítima × extrapolação

A inferência legítima se apoia em pressupostos deixados pelo texto. Aqui, a pista é a justaposição das duas falas: a preocupação com a acusação de suborno e a aceitação alegre do presente. O leitor é levado a concluir que o juiz é hipócrita ou, no mínimo, contraditório. As alternativas A, C, D e E extrapolam ao atribuir ao personagem qualidades como integridade, imparcialidade ou lisura, que o texto não sustenta — pelo contrário, a aceitação de presentes sugere o oposto.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o juiz é "íntegro, ético e imparcial". O texto contradiz isso: ele aceita presentes de um jurisdicionado, o que compromete a imparcialidade. A fala "O certo é que é bem bom ser juiz de paz cá pela roça. De vez em quando, temos nossos presentes" mostra que ele não se comporta de acordo com a ética esperada de um magistrado. Erro: contradiz o texto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa B descreve exatamente a contradição que o texto evidencia: o juiz teme ser acusado de suborno se o preso fugir, mas recebe "de bom grado" o presente de Manuel. As passagens citadas na abertura comprovam isso. É a única que se sustenta integralmente no fragmento.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que o juiz "pode ter relações ou manter interesses com membros específicos da comunidade, sem que isso afete sua imparcialidade". O texto não diz que a imparcialidade é preservada; pelo contrário, a aceitação de presentes sugere comprometimento da imparcialidade. Erro: extrapola e contradiz a sugestão do texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D fala em "caráter jurisdicional" e "lisura" das decisões. O texto não aborda a função jurisdicional em si, nem garante lisura ou transparência. É uma fuga ao tema — o fragmento trata da conduta pessoal do juiz, não do funcionamento do sistema judiciário. Erro: tangencia o tema.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que o juiz age com "integridade" e "sem corrupção ou influência indevida". Isso contradiz o texto, que mostra o juiz aceitando presentes. A palavra "integridade" é um juízo de valor que o autor não emite; pelo contrário, a cena é irônica e crítica. Erro: contradiz o texto e acrescenta opinião.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato acreditar que o juiz é um profissional exemplar, quando o texto mostra exatamente o contrário. A ironia está na contradição entre o discurso (medo de suborno) e a prática (aceitar presentes).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, desconfie de alternativas que elogiam o personagem sem base no texto. Procure a contradição ou a ironia — é o que o autor quer destacar.

Conclusão: a resposta correta é a letra B, pois é a única que capta a contradição entre a preocupação do juiz com a aparência de suborno e sua aceitação natural de presentes. As demais alternativas ou contradizem o texto, ou extrapolam informações, ou tangenciam o tema.

Gabarito: letra B

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