Questão de Medicina — Endocrinologia — Quadrix 2025
Medicina›Endocrinologia
Código
qg602119
Banca
Quadrix
Órgão
FMJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Especialidades com Pré-Requisito em Clínica Médica
Paciente mulher, de 31 anos idade, em acompanhamento ambulatorial devido hipertensão arterial sistêmica. Em uso de anlodipino e losartana, pressão arterial na consulta de 160x90, mantendo níveis semelhantes em domicilio. Possui diagnóstico recente, fazia acompanhamento ambulatorial regular para promoção e prevenção em saúde. Exames laboratoriais com hipocalemia persistente nas últimas semanas, sem mais alterações dignas de nota.Com base nesse caso clínico hipotético, assinale a opção que apresenta a principal hipótese diagnóstica.
Aestenose de artéria renal bilateral
Bhiperaldosteronismo primário
Cfeocromocitoma
Dhipertireoidismo
Ehipotireoidismo
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GabaritoB — hiperaldosteronismo primário
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Gabarito: letra B. A principal hipótese diagnóstica é o hiperaldosteronismo primário, pois a paciente apresenta hipertensão arterial de difícil controle associada a hipocalemia persistente — a tríade clássica da doença (hipertensão, hipopotassemia e alcalose metabólica). A suspeita se fortalece pelo fato de ser mulher jovem (31 anos), faixa etária em que o aldosteronismo primário é mais prevalente, e pela ausência de outras causas secundárias evidentes.
O hiperaldosteronismo primário é uma causa de hipertensão arterial secundária potencialmente curável, caracterizada pela produção autônoma e excessiva de aldosterona pela glândula suprarrenal, independentemente do sistema renina-angiotensina. A aldosterona, principal mineralocorticoide, atua no néfron distal promovendo a reabsorção de sódio e a excreção de potássio e hidrogênio. Esse mecanismo explica as duas principais consequências clínicas: a hipertensão (por expansão volêmica) e a hipocalemia (por perda renal de potássio).
A apresentação clássica inclui hipertensão arterial, hipopotassemia e alcalose metabólica. Na paciente do caso, a hipocalemia persistente é o dado-chave que direciona o raciocínio diagnóstico. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, em sua avaliação complementar mínima, destaca que o potássio plasmático diminuído auxilia no diagnóstico de hiperaldosteronismo primário ou secundário e/ou uso de diurético. Como a paciente não faz uso de diuréticos (usa anlodipino, um bloqueador de canal de cálcio, e losartana, um bloqueador do receptor de angiotensina II), a hipocalemia não pode ser atribuída a essa classe medicamentosa.
A investigação diagnóstica do hiperaldosteronismo primário segue um fluxo bem definido. Inicialmente, deve-se documentar a hipopotassemia em pacientes hipertensos. Em seguida, com o paciente com ingestão adequada de sal e sem uso de diuréticos, mede-se a aldosterona plasmática e a atividade da renina plasmática (ARP). Uma razão aldosterona/ARP superior a 20, com aldosterona sérica acima de 15 ng/dL, sugere o diagnóstico. Exames confirmatórios incluem carga de sódio oral, infusão de solução salina, supressão com fludrocortisona ou estimulação com captopril. Após a confirmação, a tomografia das suprarrenais e o cateterismo venoso seletivo distinguem o adenoma produtor de aldosterona (tratamento cirúrgico) da hiperplasia bilateral (tratamento clínico com antagonistas mineralocorticoides).
A distinção entre as causas de hipertensão secundária é essencial. A estenose de artéria renal, o feocromocitoma e as disfunções tireoidianas apresentam quadros clínicos e fisiopatológicos distintos, que serão analisados em cada alternativa. O ponto central é que a combinação de hipertensão de difícil controle com hipocalemia persistente em mulher jovem aponta fortemente para o hiperaldosteronismo primário, sendo essa a principal hipótese a ser investigada.
Hipertensão + hipocalemia
1Sem uso de diuréticos
Hiperaldosteronismo primário
Aldosterona autônoma
Reabsorve Na⁺, excreta K⁺
Adenoma (cirúrgico)
Hiperplasia bilateral (clínico)
2Com uso de diuréticos
Hipocalemia medicamentosa
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A estenose de artéria renal bilateral é uma causa de hipertensão renovascular, mas não é a principal hipótese neste caso. Embora possa cursar com hipertensão grave e refratária, a hipocalemia não é uma manifestação característica. A estenose de artéria renal leva à ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona, mas o quadro típico inclui sopro abdominal, piora da função renal com uso de IECA/BRA e hipertensão de difícil controle em pacientes mais velhos ou com doença aterosclerótica difusa. A paciente é jovem, sem outros sinais de doença renovascular, e a hipocalemia persistente é o dado que mais se destaca, favorecendo o hiperaldosteronismo primário.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O hiperaldosteronismo primário é a principal hipótese diagnóstica. A paciente apresenta os dois pilares da doença: hipertensão arterial de difícil controle (apesar do uso de duas classes de anti-hipertensivos) e hipocalemia persistente. A faixa etária (31 anos) e o sexo feminino são características epidemiológicas compatíveis, pois a doença é mais comum em mulheres entre 30 e 50 anos. A produção excessiva de aldosterona causa retenção de sódio e excreção de potássio, explicando tanto a hipertensão quanto a hipocalemia. A investigação deve prosseguir com a dosagem de aldosterona e renina plasmática, seguida de exames confirmatórios.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O feocromocitoma é um tumor produtor de catecolaminas que causa hipertensão paroxística, com episódios de cefaleia, palpitações e sudorese. A hipocalemia não é uma manifestação típica dessa condição. O quadro clínico da paciente é de hipertensão sustentada, sem sintomas adrenérgicos, e o achado laboratorial de hipocalemia persistente não se encaixa no perfil do feocromocitoma. Portanto, essa não é a principal hipótese diagnóstica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O hipertireoidismo pode causar hipertensão sistólica (pelo aumento do débito cardíaco), mas não cursa com hipocalemia. Os sintomas típicos incluem perda de peso, taquicardia, intolerância ao calor, tremores e exoftalmia (na doença de Graves). A paciente não apresenta esses sintomas, e o achado de hipocalemia persistente não é explicado pela disfunção tireoidiana. Portanto, o hipertireoidismo não é a principal hipótese diagnóstica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O hipotireoidismo pode causar hipertensão diastólica (pelo aumento da resistência vascular periférica), mas não cursa com hipocalemia. Os sintomas típicos incluem ganho de peso, fadiga, intolerância ao frio, constipação e bradicardia. A paciente não apresenta esses sintomas, e a hipocalemia persistente não é uma manifestação do hipotireoidismo. Portanto, essa não é a principal hipótese diagnóstica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre as causas de hipertensão secundária. O candidato pode ser tentado a escolher a estenose de artéria renal (alternativa A) por ser uma causa comum de hipertensão refratária, mas o dado decisivo é a hipocalemia persistente, que aponta diretamente para o hiperaldosteronismo primário. Lembre-se: hipertensão + hipocalemia = pensar em aldosteronismo primário até prova em contrário.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, ao se deparar com um caso de hipertensão de difícil controle, monte o raciocínio em etapas: 1) verifique se o paciente usa diuréticos (causa comum de hipocalemia); 2) se não usa, pense em causas endócrinas, sendo o hiperaldosteronismo primário a principal; 3) solicite aldosterona e renina plasmática para confirmar. Essa sequência lógica evita erros e agiliza o diagnóstico.