Residência Médica - Especialidades com Acesso Direto
Uma criança do sexo feminino, com 1 ano e 2 meses de vida, acometida por anemia falciforme, foi levada ao pronto‑socorro por palidez súbita há 1 hora e letargia. Estava resfriada há 4 dias. Exame físico: descorada 3+/4+; hipoativa; FC 160 bpm; PA 68/30 mmHg; e esplenomegalia.Com base nesse caso clínico hipotético, assinale a opção que apresenta a hipótese diagnóstica e a conduta adequada.
Acrise álgica; administração de morfina
Bcrise aplásica, transfusão de concentrado de hemácias
Ccrise aplásica, imunoglobulina
Dsequestro esplênico, transfusão de concentrado de hemácias
Esequestro esplênico, morfina
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — sequestro esplênico, transfusão de concentrado de hemácias
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Sequestro Esplênico na Anemia Falciforme
Gabarito: letra D. O quadro clínico — palidez súbita, letargia, taquicardia, hipotensão e esplenomegalia em criança pequena com anemia falciforme — é clássico de sequestro esplênico, uma emergência que exige transfusão de concentrado de hemácias para restaurar o volume e a capacidade de transporte de oxigênio. A crise álgica (letra A) não cursa com choque hipovolêmico e esplenomegalia aguda, e a crise aplásica (letras B e C) se caracteriza por queda da hemoglobina sem esplenomegalia importante.
O sequestro esplênico é uma complicação aguda e potencialmente fatal da anemia falciforme, que ocorre principalmente em crianças pequenas, geralmente entre 6 meses e 3 anos de idade, antes da autoesplenectomia funcional. Nessa condição, uma grande quantidade de sangue é repentinamente represada no baço, que aumenta de tamanho de forma aguda, levando a uma queda abrupta da hemoglobina, hipovolemia e choque. A fisiopatologia envolve a obstrução dos sinusoides esplênicos por hemácias falcizadas, com consequente acúmulo sanguíneo no órgão.
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na tríade: esplenomegalia aguda, queda da hemoglobina (geralmente > 2 g/dL abaixo do valor basal) e sinais de hipovolemia/choque (taquicardia, hipotensão, palidez, letargia). No caso apresentado, a criança de 1 ano e 2 meses com anemia falciforme, palidez súbita, letargia, FC 160 bpm, PA 68/30 mmHg e esplenomegalia preenche todos os critérios. A infecção respiratória prévia (resfriado há 4 dias) é um fator precipitante comum, pois infecções aumentam a falcização e o sequestro.
A conduta imediata é a transfusão de concentrado de hemácias, que corrige a anemia aguda e restaura a volemia. A transfusão deve ser feita de forma cautelosa, com alvo de hemoglobina em torno de 8-9 g/dL, para evitar hiperviscosidade. Em casos de choque refratário, pode-se considerar transfusão de troca parcial. A esplenectomia pode ser indicada em casos de sequestros recorrentes ou graves, mas não é a conduta inicial na emergência.
É fundamental distinguir o sequestro esplênico de outras crises da doença falciforme, pois o manejo é completamente diferente. A crise álgica é tratada com analgesia (opioides), hidratação e oxigenação; a crise aplásica, causada geralmente por infecção por parvovírus B19, é tratada com transfusão de hemácias, mas sem o componente de choque hipovolêmico e esplenomegalia aguda; a síndrome torácica aguda exige antibióticos e suporte respiratório. A tabela abaixo resume as principais diferenças:
Critério
Sequestro Esplênico
Crise Álgica
Crise Aplásica
Mecanismo
Represamento de sangue no baço
Vaso-oclusão
Aplasia medular (parvovírus B19)
Esplenomegalia
Aguda e importante
Geralmente ausente
Pode estar ausente
Hemoglobina
Queda abrupta (>2 g/dL)
Estável ou leve queda
Queda progressiva
Reticulócitos
Aumentados
Aumentados
Muito baixos
Choque
Frequente
Raro
Raro
Conduta
Transfusão de hemácias
Analgesia, hidratação
Transfusão de hemácias
A pegadinha desta questão está em diferenciar o sequestro esplênico da crise aplásica. Ambos cursam com queda da hemoglobina e podem necessitar de transfusão, mas o sequestro esplênico é caracterizado pela esplenomegalia aguda e sinais de choque hipovolêmico, enquanto a crise aplásica apresenta reticulocitopenia e geralmente não causa esplenomegalia importante. A presença de esplenomegalia e hipotensão no caso clínico aponta inequivocamente para o sequestro esplênico.
Complicações da anemia falciforme: Sequestro esplênico (Esplenomegalia aguda, Choque hipovolêmico, Conduta: transfusão de hemácias); Crise álgica (Dor intensa, Sem choque, Conduta: analgesia); Crise aplásica (Reticulocitopenia, Sem esplenomegalia importante, Conduta: transfusão)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A crise álgica é uma complicação vaso-oclusiva que causa dor intensa, mas não cursa com esplenomegalia aguda, choque hipovolêmico ou palidez súbita com letargia. A conduta com morfina seria adequada para dor, mas não trata a hipovolemia e a anemia aguda presentes no caso. O quadro clínico descrito é de sequestro esplênico, não de crise álgica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A crise aplásica é causada pela infecção pelo parvovírus B19, que suprime a eritropoiese, levando a queda da hemoglobina com reticulocitopenia. Embora a transfusão de concentrado de hemácias seja uma conduta possível, o quadro clínico com esplenomegalia aguda e choque hipovolêmico é característico de sequestro esplênico, não de crise aplásica. A crise aplásica geralmente não causa esplenomegalia importante nem hipotensão.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A imunoglobulina não é a conduta para crise aplásica na anemia falciforme. A crise aplásica é tratada com transfusão de hemácias e suporte, e a imunoglobulina não tem papel no tratamento dessa complicação. Além disso, o diagnóstico de crise aplásica não se aplica ao caso, que apresenta esplenomegalia e choque, típicos de sequestro esplênico.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O caso clínico é clássico de sequestro esplênico: criança pequena com anemia falciforme, palidez súbita, letargia, taquicardia, hipotensão e esplenomegalia. A conduta imediata é a transfusão de concentrado de hemácias para corrigir a anemia aguda e a hipovolemia. A transfusão deve ser feita com cautela, com alvo de hemoglobina em torno de 8-9 g/dL, para evitar hiperviscosidade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Embora o diagnóstico de sequestro esplênico esteja correto, a conduta com morfina é inadequada. A morfina é indicada para o tratamento da dor na crise álgica, mas não trata a hipovolemia e a anemia aguda do sequestro esplênico. A conduta correta é a transfusão de concentrado de hemácias, não a analgesia com opioides.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre sequestro esplênico e crise aplásica. Ambos cursam com queda da hemoglobina e podem necessitar de transfusão, mas o sequestro esplênico é marcado pela esplenomegalia aguda e choque hipovolêmico, enquanto a crise aplásica apresenta reticulocitopenia e geralmente não causa esplenomegalia importante. A presença de esplenomegalia e hipotensão no caso clínico é o diferencial que aponta para o sequestro esplênico. Fique atento a esses sinais na prova!
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as crises da anemia falciforme, foque nos sinais de choque e esplenomegalia. Se o paciente apresenta esplenomegalia aguda + hipotensão + palidez súbita, pense em sequestro esplênico e trate com transfusão de hemácias. Se o paciente apresenta dor intensa sem choque, pense em crise álgica e trate com analgesia. Se o paciente apresenta queda da hemoglobina com reticulocitopenia, pense em crise aplásica e trate com transfusão.