Doença de Kawasaki: diagnóstico clínico na infância
Gabarito: letra E. O quadro descrito — febre persistente por 5 dias, hiperemia conjuntival bilateral não exsudativa, exantema máculo-papular difuso, fissuras labiais, edema de mãos e adenomegalia cervical — preenche os critérios clínicos clássicos da doença de Kawasaki, uma vasculite aguda que acomete principalmente crianças entre 1 e 4 anos. O diagnóstico é essencialmente clínico, e a associação de febre alta com as alterações de mucosa e extremidades é o achado que a distingue das demais alternativas.
A doença de Kawasaki é uma vasculite sistêmica de etiologia desconhecida, que afeta predominantemente crianças pequenas, com pico de incidência entre 1 e 4 anos — exatamente a faixa etária do paciente do caso. O quadro clínico é marcado por febre alta e persistente (geralmente acima de 39°C, por mais de 5 dias), acompanhada de irritabilidade intensa, que é um sintoma muito característico nessa faixa etária. A hiperemia conjuntival bilateral, não exsudativa, é um dos sinais mais precoces e típicos, assim como as alterações de mucosa oral (lábios hiperemiados, fissurados e com descamação) e o edema de extremidades com hiperemia palmoplantar. O exantema é polimórfico, podendo ser máculo-papular, escarlatiniforme ou até purpúrico, com início no tronco e posterior disseminação. A adenomegalia cervical, geralmente unilateral e maior que 1,5 cm, completa o quadro clássico.
O diagnóstico é clínico e baseia-se na presença de febre por pelo menos 5 dias associada a pelo menos 4 dos 5 critérios principais: (1) hiperemia conjuntival bilateral não exsudativa; (2) alterações de mucosa oral (lábios fissurados, hiperemia de orofaringe, língua em framboesa); (3) alterações de extremidades (edema de mãos e pés, hiperemia palmoplantar, descamação periungueal); (4) exantema polimórfico; e (5) adenomegalia cervical. No caso apresentado, o paciente tem febre há 5 dias e apresenta 4 desses critérios (hiperemia conjuntival, fissuras labiais, edema de mãos e adenomegalia cervical), além do exantema — o que fecha o diagnóstico. A importância de reconhecer precocemente essa condição está na sua principal complicação: o aneurisma de coronárias, que ocorre em cerca de 20% dos casos não tratados e pode levar a infarto do miocárdio na infância. O tratamento com imunoglobulina intravenosa e ácido acetilsalicílico, quando iniciado precocemente, reduz drasticamente o risco de complicações cardiovasculares.
A distinção entre a doença de Kawasaki e as demais alternativas é fundamental. A escarlatina, causada pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A, apresenta febre, exantama escarlatiniforme (áspero, em lixa) e língua em framboesa, mas não cursa com hiperemia conjuntival bilateral não exsudativa nem com edema de extremidades — e o exantama tem início no tronco com poupança da região perioral. O sarampo, doença viral altamente contagiosa, apresenta pródromos com tosse, coriza e conjuntivite (exsudativa, com fotofobia), além do sinal de Koplik (manchas esbranquiçadas na mucosa oral) e exantama maculopapular que inicia na face e região retroauricular, com progressão craniocaudal — diferente do padrão da Kawasaki, que inicia no tronco. A poliarterite nodosa é uma vasculite sistêmica rara em crianças, que pode cursar com febre e acometimento de múltiplos órgãos, mas não apresenta o padrão característico de envolvimento de mucosas e extremidades da Kawasaki. A doença de Behçet, por sua vez, é uma vasculite que cursa com úlceras orais e genitais recorrentes, uveíte e lesões cutâneas — não se manifesta com o quadro febril agudo e os critérios clínicos descritos.
A pegadinha desta questão está em reconhecer que o quadro clínico apresentado é um clássico da doença de Kawasaki, e não uma doença infecciosa exantemática comum. O candidato que não domina os critérios diagnósticos pode se confundir com o sarampo ou a escarlatina, que também cursam com febre e exantema. No entanto, a combinação de hiperemia conjuntival não exsudativa, fissuras labiais e edema de mãos é praticamente patognomônica da Kawasaki — esses achados não estão presentes nas doenças exantemáticas virais ou bacterianas típicas. Além disso, a faixa etária (3 anos e 6 meses) e a irritabilidade intensa reforçam o diagnóstico. Guarde a tríade que decide a questão: febre persistente + hiperemia conjuntival não exsudativa + alterações de extremidades (edema/fissuras) = doença de Kawasaki até que se prove o contrário.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A poliarterite nodosa (PAN) é uma vasculite necrosante de médias artérias que pode ocorrer em crianças, mas seu quadro clínico é diferente: cursa com febre, perda de peso, mialgias, artralgias, hipertensão arterial, neuropatia periférica e lesões cutâneas (livedo reticular, nódulos). Não apresenta o padrão característico de hiperemia conjuntival não exsudativa, fissuras labiais e edema de mãos que define a doença de Kawasaki. Além disso, a PAN é uma condição muito mais rara que a Kawasaki na faixa etária pediátrica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A escarlatina é causada pela toxina eritrogênica do estreptococo beta-hemolítico do grupo A. Apresenta febre, faringite, exantama escarlatiniforme (áspero, em lixa, com início no tronco e poupança perioral) e língua em framboesa. No entanto, não cursa com hiperemia conjuntival bilateral não exsudativa nem com edema de extremidades — achados centrais no caso. A escarlatina também costuma ter bom resposta ao tratamento com antibióticos, enquanto a Kawasaki não.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A doença de Behçet é uma vasculite crônica que se manifesta com úlceras orais e genitais recorrentes, uveíte, lesões cutâneas (eritema nodoso, pseudofoliculite) e, em casos graves, acometimento neurológico e vascular. Não se apresenta como um quadro febril agudo com exantema, hiperemia conjuntival e edema de extremidades em uma criança pequena. O quadro descrito no enunciado não se encaixa no perfil clínico da doença de Behçet.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa que cursa com pródromos de tosse, coriza e conjuntivite (geralmente exsudativa, com fotofobia), seguidos de exantama maculopapular que inicia na face e região retroauricular, com progressão craniocaudal. O sinal de Koplik (manchas esbranquiçadas na mucosa oral) é patognomônico. No caso, a hiperemia conjuntival é não exsudativa, o exantama inicia no tronco e há edema de extremidades — padrão que não corresponde ao sarampo. Além disso, a criança é previamente hígida e não há relato de contato com casos de sarampo.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A doença de Kawasaki é a principal hipótese diagnóstica. O paciente apresenta febre há 5 dias, hiperemia conjuntival bilateral não exsudativa, exantema máculo-papular difuso com início no tronco, fissuras labiais, edema de mãos e adenomegalia cervical — preenchendo os critérios clínicos clássicos da doença. A faixa etária (3 anos e 6 meses) é a mais acometida, e a irritabilidade é um sintoma característico. O diagnóstico é clínico, e o reconhecimento precoce é essencial para prevenir complicações cardiovasculares, como aneurisma de coronárias.
Gabarito: letra E