Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — Quadrix 2025
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
qg602549
Banca
Quadrix
Órgão
Fundação do ABC
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico Generalista
Um homem de 28 anos de idade procurou atendimento com diarreia aguda que persistia há 2 dias, associada a dor abdominal, tenesmo e evacuações com sangue e muco. O paciente negou o uso de antibióticos recentes e não apresentava sinais de desidratação grave.Com base nesse caso clínico hipotético, assinale a opção que apresenta a conduta terapêutica adequada.
Ainício empírico de ciprofloxacino para a disenteria bacteriana
Binício empírico de metronidazol para giardíase
Chidratação venosa e observação, sem antibióticos
Dsolicitação de colonoscopia de urgência
Eadministração de loperamida para o controle dos sintomas
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GabaritoA — início empírico de ciprofloxacino para a disenteria bacteriana
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Diarreia Aguda Inflamatória: Conduta Terapêutica
Gabarito: letra A. O quadro clínico descrito — diarreia aguda com sangue, muco, tenesmo e dor abdominal — caracteriza uma disenteria bacteriana (diarreia inflamatória), e a conduta adequada é o início empírico de antibiótico, sendo o ciprofloxacino uma das opções de primeira linha. Essa conduta é sustentada pelas diretrizes de diarreia infecciosa aguda, que indicam terapia antibiótica empírica em pacientes com diarreia inflamatória e febre alta, com probabilidade de etiologia bacteriana, como Shigella.
A diarreia aguda é definida como um aumento na frequência e na fluidez das evacuações, com duração de até 14 dias. Ela pode ser classificada em dois grandes grupos, com base na fisiopatologia e na apresentação clínica: a diarreia inflamatória (ou disenteria) e a diarreia não inflamatória (ou aquosa). A distinção entre esses dois tipos é crucial, pois orienta a conduta terapêutica, especialmente a decisão de usar antibióticos.
A diarreia inflamatória é causada por bactérias enteroinvasivas, como Shigella, Salmonella, Campylobacter e Yersinia. Essas bactérias invadem a mucosa intestinal, causando inflamação, ulceração e destruição tecidual. Clinicamente, manifesta-se com fezes de pequeno volume, frequentes, com presença de sangue, muco e pus, além de tenesmo (dor à evacuação), dor abdominal intensa e febre. O exame coprológico revela grande quantidade de leucócitos e hemácias. Por outro lado, a diarreia não inflamatória é tipicamente causada por vírus (norovírus, rotavírus) ou toxinas bacterianas, resultando em fezes volumosas e aquosas, sem sangue ou muco, e geralmente sem febre alta.
No caso clínico apresentado, o paciente tem diarreia aguda com sangue e muco, tenesmo e dor abdominal, o que configura claramente uma diarreia inflamatória. A ausência de uso recente de antibióticos afasta a suspeita de colite por Clostridium difficile, e a ausência de sinais de desidratação grave indica que o paciente não necessita de hidratação venosa imediata. A conduta correta, portanto, é iniciar antibioticoterapia empírica, visando cobrir os patógenos bacterianos mais prováveis.
As diretrizes norte-americanas para diarreia infecciosa aguda recomendam o uso de antibióticos empíricos em pacientes imunocompetentes com diarreia inflamatória e febre alta, com probabilidade de Shigella, ou em pacientes que retornam de viagens internacionais com febre > 38,5°C e sinais de sepse. O esquema empírico de primeira linha inclui ciprofloxacino 500 mg VO 12/12h, ou cefalosporinas (cefuroxima, ceftriaxona), ou azitromicina 500 mg 1x/dia por 3 dias. O ciprofloxacino é uma fluoroquinolona com excelente atividade contra a maioria das bactérias enteroinvasivas, sendo a opção mais comumente utilizada.
É importante destacar que o uso de antibióticos não é recomendado para todas as diarreias. Na diarreia não inflamatória, de etiologia viral, os antibióticos são ineficazes e podem até prolongar a excreção do patógeno. Além disso, em casos de diarreia sanguinolenta causada por Escherichia coli entero-hemorrágica (EHEC), o uso de antibióticos é contraindicado, pois pode aumentar o risco de síndrome hemolítico-urêmica (SHU). A EHEC, no entanto, geralmente não causa tenesmo e costuma cursar sem febre, o que ajuda a diferenciá-la da disenteria bacteriana clássica.
A loperamida, um agente antimotilidade, é contraindicada em casos de diarreia inflamatória, pois pode piorar o quadro ao retardar a eliminação do patógeno e aumentar o risco de complicações, como megacólon tóxico. A hidratação é sempre importante, mas, na ausência de desidratação grave, a via oral é suficiente. A colonoscopia de urgência não é indicada para diarreia aguda, sendo reservada para casos de suspeita de doença inflamatória intestinal ou outras causas específicas.
Guarde a fronteira entre diarreia inflamatória e não inflamatória: é exatamente nela que as alternativas se dividem. A presença de sangue, muco e tenesmo aponta para disenteria bacteriana, que exige antibiótico empírico.
Diarreia aguda
1Inflamatória (disenteria)
Bactérias enteroinvasivas (Shigella, Salmonella)
Sangue, muco, pus, tenesmo
Antibiótico empírico (ciprofloxacino)
Loperamida (risco de megacólon tóxico)
2Não inflamatória (aquosa)
Vírus ou toxinas
Fezes volumosas, sem sangue
Antibióticos (ineficazes)
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O quadro clínico é de disenteria bacteriana (diarreia inflamatória), e o início empírico de ciprofloxacino é a conduta adequada. As diretrizes recomendam antibióticos empíricos para pacientes com diarreia inflamatória e febre alta, com probabilidade de etiologia bacteriana, e o ciprofloxacino é uma das opções de primeira linha. O paciente não tem contraindicação ao uso de antibióticos, pois negou uso recente e não apresenta sinais de desidratação grave.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O metronidazol é utilizado para o tratamento de giardíase e amebíase, que são parasitoses intestinais. A giardíase, em sua forma aguda, causa diarreia aquosa, fezes malcheirosas, distensão abdominal e flatulência, mas raramente causa diarreia mucossanguinolenta. O quadro clínico do paciente, com sangue e muco nas fezes e tenesmo, é mais sugestivo de disenteria bacteriana, não de giardíase. Portanto, o metronidazol não é a escolha adequada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A hidratação venosa e observação, sem antibióticos, não é a conduta adequada para um paciente com disenteria bacteriana. Embora a hidratação seja sempre importante, o paciente não apresenta sinais de desidratação grave, e a presença de sangue, muco e tenesmo indica a necessidade de antibioticoterapia empírica. A observação sem antibióticos pode levar à progressão da doença e a complicações.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A colonoscopia de urgência não é indicada para o diagnóstico ou tratamento de diarreia aguda. Esse exame é reservado para casos de suspeita de doença inflamatória intestinal, sangramento gastrointestinal de origem desconhecida ou outras condições específicas. Na diarreia aguda, a avaliação clínica e, se necessário, exames laboratoriais (coproparasitológico, cultura de fezes) são suficientes para guiar a conduta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A loperamida é um agente antimotilidade que reduz a motilidade intestinal, sendo útil em casos de diarreia não inflamatória leve. No entanto, é contraindicada em casos de diarreia inflamatória, pois pode piorar o quadro ao retardar a eliminação do patógeno e aumentar o risco de complicações, como megacólon tóxico. No paciente com disenteria bacteriana, o uso de loperamida é inadequado.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre diarreia inflamatória e não inflamatória. O candidato pode ser tentado a escolher a hidratação (C) ou a loperamida (E), mas a presença de sangue, muco e tenesmo é o sinal de alarme que indica a necessidade de antibiótico. Lembre-se: diarreia com sangue + tenesmo = disenteria bacteriana = antibiótico empírico.