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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — Quadrix 2025

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
qg603923
Banca
Quadrix
Órgão
SEDF
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Professor de Educação Básica: Língua Portuguesa
Estávamos pintados como se fôssemos para a guerra. Várias bocas, dentes e sorrisos, mas um coração pulsava na esperança por avanços para a garantia dos direitos dos povos indígenas. Olhavam‑nos como se fôssemos seres de outro planeta, certos de desconhecer seu próprio país. Os olhos brilhavam como as estrelas e essa emoção se misturava ao cheiro do café, na cantina ao lado, aos desenhos indígenas e ao cheiro de pintura de jenipapo na cara, ao cheiro do óleo da castanha‑do‑pará e ao cheiro do vermelho urucum dos Kaiapó.

POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. Lorena: DM Projetos Especiais, 2018. Eliana Potiguara é escritora indígena contemporânea.

A partir dessa informação e no que diz respeito ao texto e aos seus aspectos estéticos, julgue o item a seguir.
Por meio da linguagem e dos elementos da narrativa presentes no trecho, observa‑se que o tempo da narrativa e do narrador são diferentes e que há uma perspectiva etnocêntrica por parte dos indígenas.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Etnocentrismo e tempo narrativo no texto de Eliane Potiguara

Gabarito: ERRADO (letra E). A afirmação de que há "uma perspectiva etnocêntrica por parte dos indígenas" contradiz o texto: quem olha os indígenas "como se fôssemos seres de outro planeta" são os outros (a sociedade não indígena), não os próprios indígenas. O texto, ao contrário, parte da perspectiva indígena (narradora em 1ª pessoa do plural) e registra o estranhamento sofrido por eles, não praticado por eles. Quanto ao tempo, a assertiva também falha: o tempo da narrativa e o do narrador coincidem — ambos no presente, com o narrador descrevendo a cena enquanto ela ocorre.

O comando pede um julgamento (Certo/Errado) sobre uma interpretação do trecho — ou seja, exige que se depreenda do texto uma relação entre elementos narrativos (tempo, narrador, perspectiva). Não basta localizar uma informação literal; é preciso verificar se a leitura proposta pela assertiva é sustentada pelas pistas textuais. E aqui a assertiva falha duplamente: erra o sujeito da perspectiva etnocêntrica e erra a relação temporal entre narrador e narrativa.

O que o texto realmente diz

O trecho é uma narrativa em 1ª pessoa do plural ("Estávamos pintados", "Olhavam-nos", "nossa"), o que já indica que o narrador é personagem e participa da cena. A passagem decisiva é:

"Olhavam‑nos como se fôssemos seres de outro planeta, certos de desconhecer seu próprio país."

O sujeito de "Olhavam" é elíptico — mas o contexto deixa claro que se trata de outras pessoas, não dos indígenas. São eles (os não indígenas) que olham os indígenas como extraterrestres, revelando um estranhamento etnocêntrico — a visão de que o outro é exótico, "de outro planeta". Os indígenas, por sua vez, são o objeto desse olhar, não o sujeito. Portanto, a assertiva inverte a direção da perspectiva: atribui aos indígenas um etnocentrismo que, no texto, é praticado contra eles.

O tempo da narrativa e do narrador

A assertiva também afirma que "o tempo da narrativa e do narrador são diferentes". Isso é falso no trecho. Vejamos:

  • Tempo da narrativa: os verbos estão no presente do indicativo ("Estávamos" é pretérito imperfeito, mas o conjunto "pulsava", "Olhavam", "brilhavam", "misturava" — todos no pretérito imperfeito — descreve uma cena simultânea ao ato de narrar, como uma descrição do momento vivido).

  • Tempo do narrador: o narrador descreve a cena enquanto ela acontece, sem distanciamento temporal. Não há "flashback" nem "flashforward"; o narrador está imerso no momento.

Na verdade, o texto é predominantemente descritivo-narrativo, com verbos no pretérito imperfeito que indicam simultaneidade entre o narrar e o narrado. O narrador não conta um fato passado e concluído; ele pinta a cena presente. Logo, tempo da narrativa e tempo do narrador coincidem.

A pegadinha da banca

NÃO CAIA NESSA!

A banca inverte o sujeito da perspectiva etnocêntrica. O candidato que lê rápido pode achar que "os indígenas têm uma visão etnocêntrica" porque o texto fala de "olhares" e "estranhamento" — mas o texto mostra exatamente o contrário: os indígenas é que são vistos como estranhos. Além disso, a assertiva inventa uma diferença temporal que não existe no trecho.

Análise da assertiva
  • 1Tempo da narrativa × narrador
    • Diferentes (assertiva)
    • Coincidem (presente/pretérito imperfeito)
  • 2Perspectiva etnocêntrica
    • Por parte dos indígenas (assertiva)
    • Dos não indígenas sobre os indígenas
  • 3Conclusão
    • Item errado
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Análise da assertiva

A assertiva é composta — ela faz duas afirmações:

  1. "o tempo da narrativa e do narrador são diferentes" — FALSO: ambos coincidem no presente/pretérito imperfeito descritivo.

  2. "há uma perspectiva etnocêntrica por parte dos indígenas" — FALSO: o etnocentrismo parte dos não indígenas, que olham os indígenas como "seres de outro planeta".

Como a assertiva é uma conjunção (afirma A e B), basta uma das partes ser falsa para o item inteiro ser ERRADO. Aqui, as duas são falsas.

Conclusão

A assertiva contradiz o texto em dois pontos: inverte o sujeito do olhar etnocêntrico e inventa uma distinção temporal inexistente. O texto, ao contrário, apresenta a perspectiva indígena como centro e descreve o estranhamento sofrido por eles. Portanto, o item é ERRADO.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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