Questão de Português — Interpretação de Textos — Quadrix 2025
- Código
- qg603926
- Banca
- Quadrix
- Órgão
- SEDF
- Ano
- 2025
- Nível
- Superior
- Cargo
- Professor de Educação Básica: Língua Portuguesa
- CCerto
- EErrado
GabaritoC — Certo
Gabarito: C (Certo). O item está correto porque a descrição do nascimento de Macunaíma, com a escolha de vocábulos indígenas e a expressão “Era preto retinto e filho do medo da noite”, sustenta a leitura da miscigenação como elemento formador do povo brasileiro, em sintonia com a proposta modernista de Mário de Andrade. A passagem que ancora essa leitura é o trecho inicial da obra, que apresenta o herói como fruto de uma índia e o descreve com características que remetem a múltiplas matrizes étnicas.
“No fundo do mato‑virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite.”
O comando pede um julgamento (Certo/Errado) sobre uma afirmação interpretativa que relaciona o texto, seus aspectos estéticos, o autor e os movimentos literários. Não se trata de localizar uma informação literal, mas de verificar se a leitura proposta é coerente com as pistas textuais e com o contexto modernista. A banca não pergunta se o texto afirma explicitamente a miscigenação; pergunta se a descrição permite afirmar essa leitura. Isso exige do candidato mobilizar conhecimentos sobre o Modernismo e sobre a obra, mas sempre ancorado no que o texto apresenta.
O texto-base é a abertura de Macunaíma (1928), rapsódia modernista de Mário de Andrade. O trecho já concentra os elementos centrais da obra: o herói nasce “no fundo do mato‑virgem”, filho de uma “índia tapanhumas” — vocábulo de origem tupi que remete à matriz indígena. A expressão “Era preto retinto” remete à matriz africana. E o nome “Macunaíma”, também de origem tupi, reforça a presença indígena. A junção dessas referências — indígena e africana — no nascimento do “herói de nossa gente” é a materialização textual da miscigenação que o Modernismo brasileiro, e Mário de Andrade em particular, elegeu como símbolo da identidade nacional. O item, portanto, não extrapola: ele lê o que o texto oferece e o conecta ao projeto estético do autor.
A técnica para resolver é testar se a afirmação do item encontra respaldo no texto e no contexto literário, sem exigir que o texto diga literalmente “a miscigenação forma o povo brasileiro”. A leitura é legítima porque as pistas estão lá: a mãe é índia, o filho é “preto retinto”, e ele é apresentado como “herói de nossa gente”. A miscigenação não é dita, mas é construída pela escolha lexical — exatamente o que o item aponta.
A afirmação é correta por três razões que se somam:
A escolha lexical indígena: “tapanhumas” e “Macunaíma” são vocábulos de origem tupi, presentes no trecho. O item afirma que a descrição usa “vocábulos indígenas” — e isso é verificável no texto.
A expressão “Era preto retinto e filho do medo da noite”: o item a cita como evidência da miscigenação. A expressão descreve o herói como “preto retinto” (matriz africana) e “filho do medo da noite” (expressão poética que remete ao imaginário indígena e à origem mítica). A junção dessas referências no nascimento do herói constrói a imagem da mistura étnica.
O contexto modernista: Mário de Andrade, em Macunaíma, propõe um herói nacional mestiço, síntese das três matrizes formadoras do povo brasileiro (indígena, africana e europeia). O item dialoga com essa proposta estética, e o texto-base a confirma ao apresentar um herói nascido de índia e descrito como “preto retinto”.
Em questões de julgamento sobre interpretação, pergunte-se: “essa leitura é autorizada pelo texto, ou exige acrescentar algo que ele não diz?”. Aqui, a leitura é autorizada pelas pistas lexicais — não é uma opinião solta do examinador.
Conclusão: o item está Certo porque a descrição do nascimento de Macunaíma, com a escolha de vocábulos indígenas e a expressão “Era preto retinto e filho do medo da noite”, sustenta a leitura da miscigenação como elemento formador do povo brasileiro, em sintonia com o projeto modernista de Mário de Andrade. A resposta é uma paráfrase interpretativa legítima do texto, não uma extrapolação.
Gabarito: C (Certo).
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