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Questão de Português — Intertextualidade — Quadrix 2025

PortuguêsIntertextualidade
Código
qg603931
Banca
Quadrix
Órgão
SEDF
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Professor de Educação Básica: Língua Portuguesa
As órfãs faziam sinal‑da‑cruz, iam arranjar marido bom ou então uns desdentados, trolocutores surdos, bêbados, lobo nas ovelhas, caminho de espinhos, azemel de estrebaria, mulo namorado, fosse o que fosse, desde que dissesse: Senhora, quereis companhia? Ordenara a rainha que seriam uns gentilhomens. Uma panela de comida num canto, meti as mãos e tirei um pedaço do guisado frio, comi numa ânsia de nunca ter sentido assim, tudo o que se havia preparado para umas mais três bocas, fome é um tipo de fogo que se acende no meio das gentes, que se ateia com tanto ímpeto que até os olhos ardem e resseca tudo por dentro e vai sendo uma faca que revira o dentro como se buscando o fio da vida e em nosso rosto se forma um diabólico labirinto, sonhamos com feiras e que se comeria um rato da lama, é fome feito um monstro que assenta em nosso ventre e nos rasga estripando, com suas garras longas, língua asquerosa de lagarta, se branqueteia de nós, sugando nossa força e nossa razão, que perdemos de arrazoar e fracas estimativas, é como cem anos de inferno, uma dor incomparável, uma coisa tão lastimosa de se sentir que não há homem que a possa dissimular. Por medo da fome, da orfandade, do abandono, quis que tornasse Francisco de Albuquerque. MIRANDA, Ana. Desmundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 

Em “Desmundo”, de Ana Miranda, Oribela, órfã portuguesa enviada ao Brasil em 1555 para se casar com um colono, revela‑se um contexto de violência. A partir dessa informação, em relação ao texto, aos seus aspectos estéticos e aos movimentos literários brasileiros, julgue o iten a seguir.
De acordo com o texto, a narradora, assim como a personagem Aurélia, em “Senhora”, de José de Alencar, pretende se manter casada devido ao medo da orfandade e ao encontro com um amor seguro e eterno que irá afastá‑la da sua condição de fome.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Intertextualidade e a motivação da narradora em Desmundo

Gabarito: E (Errado). A afirmativa está incorreta porque atribui à narradora uma motivação que o texto não sustenta: a busca por um "amor seguro e eterno". O trecho final do texto-base é explícito ao revelar a verdadeira razão da escolha: "Por medo da fome, da orfandade, do abandono, quis que tornasse Francisco de Albuquerque." Não há, em nenhuma passagem, menção a amor ou a um sentimento que afaste a personagem de sua condição — a motivação é puramente material e de sobrevivência.

O comando pede uma compreensão do texto ("De acordo com o texto"), ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que está escrito, sem acréscimos. A banca, no entanto, insere uma informação externa — a comparação com Aurélia, de Senhora, de José de Alencar — e, mais grave, acrescenta a ideia de "amor seguro e eterno", que não encontra respaldo no fragmento. A técnica aqui é simples: grife as palavras-chave da afirmativa e confronte cada uma com o texto. Onde está escrito "amor"? Em lugar nenhum. Onde está escrito "medo da fome"? No último período. A afirmativa mistura uma verdade (o medo) com uma invenção (o amor), e é exatamente essa mistura que a torna errada.

O texto de Ana Miranda descreve a fome de forma visceral e metafórica — "fome é um tipo de fogo que se acende no meio das gentes" — e a decisão da narradora é tomada como fuga de uma condição desumana, não como busca de um ideal romântico. A comparação com Aurélia, de Senhora, é uma tentativa de intertextualidade que, no entanto, não se sustenta: enquanto Aurélia busca um casamento por interesses e vingança, a narradora de Desmundo age por desespero e necessidade. A banca explora exatamente essa confusão entre obras diferentes.

A intertextualidade, como visto no material de apoio, é o diálogo entre textos, mas aqui a banca não está cobrando a identificação de uma referência implícita ou explícita; está cobrando a fidelidade ao texto-base. A afirmativa falha porque acrescenta um elemento (o amor) que não está presente, configurando uma extrapolação — o erro mais comum em questões de compreensão. Para acertar, o candidato deve sempre perguntar: "O texto autoriza esta afirmação?" Se a resposta for "não", a alternativa está errada, mesmo que parte dela seja verdadeira.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura uma informação verdadeira (medo da fome/orfandade) com uma invenção (amor seguro e eterno) e ainda compara com outra obra, tentando fazer o candidato aceitar o que não está no texto.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de palavras como "amor", "eterno", "sempre", "nunca" — elas costumam sinalizar extrapolação. Confronte cada termo com o texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A afirmativa diz que a narradora "pretende se manter casada devido ao medo da orfandade e ao encontro com um amor seguro e eterno". O texto, porém, só menciona o medo: "Por medo da fome, da orfandade, do abandono, quis que tornasse Francisco de Albuquerque." Não há qualquer referência a amor. A alternativa extrapola ao acrescentar um sentimento romântico que não está no texto. Além disso, a comparação com Aurélia, de Senhora, é uma tentativa de intertextualidade que não se sustenta, pois as motivações das personagens são diferentes. Portanto, a afirmativa está errada.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa E nega a afirmativa, e está correta porque o texto não sustenta a ideia de "amor seguro e eterno". A narradora age por medo da fome, da orfandade e do abandono, como se lê no trecho final: "Por medo da fome, da orfandade, do abandono, quis que tornasse Francisco de Albuquerque." Não há menção a amor ou a um sentimento que afaste a personagem de sua condição. A motivação é material e de sobrevivência, não romântica. Portanto, a afirmativa é errada, e a alternativa E é a correta.

Conclusão: a questão cobra compreensão textual e intertextualidade. A afirmativa erra ao acrescentar um elemento (amor) que não está no texto, configurando extrapolação. A alternativa E é a correta, pois nega essa afirmação. Lembre-se: em questões de compreensão, a resposta deve ser uma paráfrase fiel do texto, sem acréscimos.

Gabarito: letra E

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