Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos — Quadrix 2025

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qg603933
Banca
Quadrix
Órgão
SEDF
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Professor de Educação Básica: Língua Portuguesa
As órfãs faziam sinal‑da‑cruz, iam arranjar marido bom ou então uns desdentados, trolocutores surdos, bêbados, lobo nas ovelhas, caminho de espinhos, azemel de estrebaria, mulo namorado, fosse o que fosse, desde que dissesse: Senhora, quereis companhia? Ordenara a rainha que seriam uns gentilhomens. Uma panela de comida num canto, meti as mãos e tirei um pedaço do guisado frio, comi numa ânsia de nunca ter sentido assim, tudo o que se havia preparado para umas mais três bocas, fome é um tipo de fogo que se acende no meio das gentes, que se ateia com tanto ímpeto que até os olhos ardem e resseca tudo por dentro e vai sendo uma faca que revira o dentro como se buscando o fio da vida e em nosso rosto se forma um diabólico labirinto, sonhamos com feiras e que se comeria um rato da lama, é fome feito um monstro que assenta em nosso ventre e nos rasga estripando, com suas garras longas, língua asquerosa de lagarta, se branqueteia de nós, sugando nossa força e nossa razão, que perdemos de arrazoar e fracas estimativas, é como cem anos de inferno, uma dor incomparável, uma coisa tão lastimosa de se sentir que não há homem que a possa dissimular. Por medo da fome, da orfandade, do abandono, quis que tornasse Francisco de Albuquerque. MIRANDA, Ana. Desmundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 

Em “Desmundo”, de Ana Miranda, Oribela, órfã portuguesa enviada ao Brasil em 1555 para se casar com um colono, revela‑se um contexto de violência. A partir dessa informação, em relação ao texto, aos seus aspectos estéticos e aos movimentos literários brasileiros, julgue o iten a seguir.
A complexidade da formação cultural no Brasil, em que há uma visão crítica do eurocentrismo, é tema de Ana Miranda, em “Desmundo”, mas também de muitos escritores brasileiros, como Joaquim Manuel de Macedo, em “A Moreninha”, Aluísio Azevedo, em “O Mulato”, e Euclides da Cunha, em “Os Sertões”.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A questão mistura obras e autores de períodos distintos, atribuindo-lhes uma unidade temática que o texto não sustenta

Gabarito: E (Errado). A afirmação está errada porque generaliza indevidamente: atribui a Ana Miranda, em “Desmundo”, e a outros escritores (Macedo, Aluísio Azevedo, Euclides da Cunha) uma “visão crítica do eurocentrismo” que não é o tema central do trecho apresentado, nem se aplica uniformemente às obras citadas. O texto de Ana Miranda, como se lê no fragmento, trata da fome, da orfandade e do desespero de uma órfã enviada ao Brasil, e não de uma crítica ao eurocentrismo.

O comando: o que a banca pede

A questão pede que você julgue (certo/errado) uma afirmação sobre o texto e sobre a literatura brasileira. Não é uma questão de compreensão literal, mas de interpretação crítica: você deve verificar se a afirmação é fiel ao texto e se as relações estabelecidas (entre obras, autores e temas) são procedentes. O comando exige que você confronte a generalização com o que o texto realmente diz e com o que se sabe sobre as obras citadas.

O texto: tema e tese

O fragmento de “Desmundo” narra a experiência de uma órfã que, diante da fome e do abandono, aceita casar-se com um homem qualquer (“quis que tornasse Francisco de Albuquerque”). O trecho é predominantemente descritivo e narrativo, com forte carga sensorial e emocional: a fome é descrita como “um tipo de fogo”, “um monstro”, “cem anos de inferno”. O tema central é a violência da fome e da orfandade, não uma reflexão sobre o eurocentrismo. Não há, no trecho, nenhuma menção a crítica cultural ou à formação da identidade brasileira.

A técnica: como testar a afirmação

A afirmação comete o erro clássico de extrapolar: ela pega um dado externo (a obra “Desmundo” trata da colonização) e o transforma em “visão crítica do eurocentrismo”, o que não está no texto. Além disso, ela generaliza ao incluir obras de períodos e estilos muito diferentes: “A Moreninha” (romantismo), “O Mulato” (realismo/naturalismo) e “Os Sertões” (pré-modernismo) não compartilham, necessariamente, essa mesma temática. A banca quer que você perceba que a afirmação é ampla demais e não se sustenta nem no texto nem na história literária.

Alternativa C — ❌ Incorreta (mas não é o gabarito, pois a banca pede o item ERRADO)

A alternativa C afirma que a afirmação está certa. Isso é incorreto porque a afirmação é falsa frente ao texto e à literatura. O texto de Ana Miranda não aborda o eurocentrismo; ele aborda a fome e a orfandade. Além disso, as obras citadas não têm, todas, essa “visão crítica do eurocentrismo”. Portanto, a alternativa C está errada.

Alternativa E — ✅ Correta (gabarito)

A alternativa E afirma que a afirmação está errada. Isso está correto. A afirmação é falsa porque:

  • No texto: não há crítica ao eurocentrismo; o trecho foca na fome e no desespero da órfã.

  • Na literatura: as obras citadas pertencem a movimentos distintos e não compartilham, necessariamente, essa temática. “A Moreninha” é um romance romântico, “O Mulato” é naturalista, “Os Sertões” é pré-modernista; cada uma tem suas próprias preocupações.

Portanto, a alternativa E é a correta.

Conclusão

A questão ensina que, em interpretação, toda generalização deve ser testada no texto. A banca adora criar afirmações que misturam obras e autores para ver se você percebe a falta de base textual. Gabarito: letra E.

Link permanente: /questoes/qg603933