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Questão de Português — Morfologia — Quadrix 2025

PortuguêsMorfologia
Código
qg603942
Banca
Quadrix
Órgão
SEDF
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Professor de Educação Básica: Língua Portuguesa
Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete e andava arrecadando opiniões. Suspeitei que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando minha defesa. Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Verissimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática). A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas.

Claro que eu não disse tudo isso para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas – isso eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato‑as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas.

VERISSIMO, Luís Fernando. O gigolô das palavras. In: Luís Fernando Verissimo. Para gostar de ler; Luís Fernando Verissimo: o nariz e outras crônicas. 10a . ed. São Paulo: Ática, 2002. p. 77 (com adaptações).

Com base nos aspectos gramaticais do texto apresentado, julgue o item seguinte. 
Na oração “as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras”, a palavra “desconhecidas” apresenta a seguinte composição morfológica: radical “desconhec‑“, vogal temática verbal ‑i, afixo de particípio ‑d, desinência de gênero ‑a, desinência de número ‑s.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Análise morfológica de "desconhecidas"

Gabarito: letra E (Errado). A composição morfológica apresentada no enunciado está incorreta porque atribui à palavra "desconhecidas" uma estrutura de particípio verbal (com vogal temática verbal e afixo de particípio), quando, no contexto, trata-se de um adjetivo formado por derivação prefixal e sufixal, com estrutura nominal. A análise correta é: des- (prefixo) + conhec- (radical) + -i- (vogal temática nominal) + -d- (sufixo formador de adjetivo) + -a- (desinência de gênero) + -s (desinência de número).

O comando da questão

A questão pede que se julgue a correção da análise morfológica apresentada para a palavra "desconhecidas" no trecho "as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras". Trata-se de uma questão de morfologia — mais especificamente, de estrutura das palavras —, e não de interpretação de texto. O comando "julgue o item" indica que devemos verificar se cada elemento apontado (radical, vogal temática, afixo, desinências) corresponde, de fato, à estrutura da palavra no contexto em que aparece.

A estrutura real de "desconhecidas"

No trecho, "desconhecidas" funciona como adjetivo (ou substantivo adjetivado), referindo-se a "as palavras desconhecidas". Sua estrutura morfológica é a seguinte:

  • des-: prefixo (negação), formador de palavra por derivação prefixal;

  • conhec-: radical (do verbo conhecer);

  • -i-: vogal temática nominal (não verbal), que liga o radical ao sufixo;

  • -d-: sufixo formador de adjetivo (a partir do particípio), não "afixo de particípio" no sentido verbal;

  • -a-: desinência de gênero (feminino);

  • -s: desinência de número (plural).

O erro do enunciado está em classificar o -i- como "vogal temática verbal" e o -d- como "afixo de particípio". Embora a palavra derive historicamente do particípio do verbo conhecer (conhecido), no contexto ela é um adjetivo, e sua vogal temática é nominal, não verbal. Além disso, o -d- não é um afixo de particípio ativo, mas um sufixo que forma adjetivos a partir de verbos (como em amado, temido), integrando a derivação sufixal.

A pegadinha da banca

A banca tenta confundir o candidato ao misturar a análise de uma forma verbal (particípio) com a de um adjetivo. A palavra "desconhecidas" parece um particípio (porque termina em -idas), mas, no texto, funciona como adjetivo, e sua estrutura morfológica é nominal. O candidato que não percebe a classe gramatical no contexto acaba aceitando a análise verbal proposta.

1des-
prefixo (negação)
2conhec-
radical
3-i-
vogal temática nominal
4-d-
sufixo formador de adjetivo
5-a-
desinência de gênero (feminino)
6-s
desinência de número (plural)
"desconhecidas" (adjetivo)
LEVELsoulevel.com.br
"desconhecidas" (adjetivo): des- (prefixo (negação)); conhec- (radical); -i- (vogal temática nominal); -d- (sufixo formador de adjetivo); -a- (desinência de gênero (feminino)); -s (desinência de número (plural))
PEGA ESSA DICA!

Antes de analisar a estrutura de uma palavra, identifique sua classe gramatical no contexto. A mesma forma pode ser verbo (particípio) em um contexto e adjetivo em outro — a análise morfológica muda conforme a função.

Conclusão

A afirmação do enunciado está errada porque classifica erroneamente a vogal temática e o afixo de "desconhecidas". A palavra é um adjetivo com vogal temática nominal e sufixo formador de adjetivo, não um particípio verbal. Portanto, o item deve ser marcado como Errado.

Gabarito: letra E (Errado).

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