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Questão de Português — Travessão — Quadrix 2025

PortuguêsTravessão
Código
qg603945
Banca
Quadrix
Órgão
SEDF
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Professor de Educação Básica: Língua Portuguesa
Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete e andava arrecadando opiniões. Suspeitei que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando minha defesa. Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Verissimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática). A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas.

Claro que eu não disse tudo isso para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas – isso eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato‑as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas.

VERISSIMO, Luís Fernando. O gigolô das palavras. In: Luís Fernando Verissimo. Para gostar de ler; Luís Fernando Verissimo: o nariz e outras crônicas. 10a . ed. São Paulo: Ática, 2002. p. 77 (com adaptações).

Com base nos aspectos gramaticais do texto apresentado, julgue o item seguinte. 
No trecho “Mas – isso eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo”, o papel do duplo travessão é o de delimitar uma oração que funciona como aposto.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Travessão intercalado: aposto ou oração intercalada?

Gabarito: E (Errado). O duplo travessão em “Mas – isso eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo” não delimita uma oração que funciona como aposto. O trecho “isso eu disse” é uma oração intercalada (também chamada de interferente ou comentário do autor), e não um aposto. A banca tenta confundir o candidato ao associar o travessão a uma função que ele não exerce aqui, pois o travessão pode isolar apostos, mas, neste caso, isola uma oração que traz uma observação do narrador.

O comando

A questão pede que se julgue a afirmação sobre o papel do duplo travessão no trecho. Não se trata de interpretação de texto, mas de análise sintática e de pontuação: é preciso identificar a função do termo isolado pelos travessões. O verbo “delimitar” indica que devemos observar o que está entre os travessões e classificá-lo sintaticamente.

O texto

No trecho, o narrador (Verissimo) interrompe a própria fala para acrescentar um comentário: “isso eu disse”. Essa interrupção é uma oração intercalada, pois funciona como uma observação do autor inserida no meio do discurso, sem se subordinar a nenhum termo da oração principal. Veja o trecho:

“Mas – isso eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo”

A oração principal é “vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo”. O trecho “isso eu disse” é uma interferência do narrador, que poderia ser retirada sem prejuízo sintático, como em: “Mas vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo”.

A técnica

O aposto é um termo acessório que explica, enumera, resume ou especifica outro termo da oração, com o qual estabelece relação de identidade. Exemplo: “Messi, o artilheiro, é um gênio” — “o artilheiro” é aposto de “Messi”. Já a oração intercalada é uma oração que se insere no meio de outra, sem função sintática em relação a ela, servindo para comentar, explicar ou citar a fala de alguém. Exemplo: “Ele, segundo os argentinos, é o melhor da história” — “segundo os argentinos” é uma oração intercalada.

No trecho, “isso eu disse” não explica nem especifica nenhum termo anterior; é uma observação do narrador sobre o próprio ato de dizer. Portanto, é uma oração intercalada, e não um aposto.

Duplo travessão
  • 1Pode isolar
    • Aposto
    • Oração intercalada
    • Vocativo
  • 2No trecho: “isso eu disse”
    • Oração intercalada
    • Comentário do narrador
    • Sem função sintática
    • Não é aposto
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Alternativa C — ❌ Incorreta

A afirmação de que o duplo travessão delimita uma oração que funciona como aposto está errada. O trecho “isso eu disse” não é aposto, pois não estabelece relação de identidade com nenhum termo da oração principal. Ele é uma oração intercalada, que traz um comentário do narrador. A banca tenta confundir o candidato ao associar o travessão a uma função que ele não exerce aqui, pois o travessão pode isolar apostos, mas, neste caso, isola uma oração que traz uma observação do narrador.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a associação automática entre travessão e aposto. O travessão pode isolar apostos, mas também isola orações intercaladas, vocativos e outros termos. A dica é sempre perguntar: o que está entre os travessões explica um termo anterior (aposto) ou é uma observação à parte (intercalada)?

PEGA ESSA DICA!

Para testar se é aposto, tente substituir o trecho por um termo simples. Se não houver um termo anterior que ele explique, não é aposto. No caso, “isso eu disse” não explica nada; é um comentário do autor.

Conclusão: a afirmação está errada, pois o duplo travessão isola uma oração intercalada, e não um aposto. O gabarito é a letra E.

Gabarito: letra E

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