Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos — Quadrix 2025

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qg603947
Banca
Quadrix
Órgão
SEDF
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Professor de Educação Básica: Língua Portuguesa
Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete e andava arrecadando opiniões. Suspeitei que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando minha defesa. Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Verissimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática). A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas.

Claro que eu não disse tudo isso para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas – isso eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato‑as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas.

VERISSIMO, Luís Fernando. O gigolô das palavras. In: Luís Fernando Verissimo. Para gostar de ler; Luís Fernando Verissimo: o nariz e outras crônicas. 10a . ed. São Paulo: Ática, 2002. p. 77 (com adaptações).

Com base nos aspectos gramaticais do texto apresentado, julgue o item seguinte. 
Para a construção do período “Por exemplo: dizer ‘escrever claro’ não é certo, mas é claro, certo?”, o autor vale‑se de diferentes significados e classificações das palavras “claro” e “certo”.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Polissemia de "claro" e "certo" no período

Gabarito: C (Certo). O autor realmente explora diferentes significados e classificações das palavras "claro" e "certo" no período citado. A prova está na própria construção: "dizer 'escrever claro' não é certo, mas é claro, certo?" — aqui, "certo" aparece primeiro como adjetivo (sinônimo de "correto", "adequado à norma") e depois como advérbio (sinônimo de "não é verdade?", marcador de confirmação); "claro" aparece como advérbio (sinônimo de "de modo compreensível") e depois como adjetivo (sinônimo de "compreensível", "inteligível").

O comando pede uma análise semântica e morfológica de um trecho específico: o candidato deve verificar se o autor se vale de diferentes sentidos e classes gramaticais para as mesmas palavras. Isso não é uma questão de compreensão global do texto, mas de observação do uso contextual das palavras — exatamente o que a banca descreve no enunciado.

No texto, o autor defende que "escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo". O período em análise é a exemplificação dessa tese:

"Por exemplo: dizer 'escrever claro' não é certo, mas é claro, certo?"

Vamos decompor:

  • "escrever claro": aqui, "claro" é advérbio (equivale a "claramente"), modificando o verbo "escrever". É uma construção coloquial, que a gramática normativa condenaria (o correto seria "escrever claramente").

  • "não é certo": "certo" é adjetivo (sinônimo de "correto", "de acordo com a norma"). O autor admite que a expressão "escrever claro" é gramaticalmente incorreta.

  • "mas é claro": "claro" agora é adjetivo (sinônimo de "compreensível", "inteligível"). O autor afirma que, apesar de incorreta, a expressão é compreensível.

  • "certo?": "certo" agora é advérbio (marcador discursivo de confirmação, equivalente a "não é verdade?"). O autor busca a concordância do interlocutor.

Assim, a mesma palavra "claro" aparece como advérbio e adjetivo; a mesma palavra "certo" aparece como adjetivo e advérbio. Há, portanto, uma alternância de classes gramaticais e de sentidos — o que confirma a afirmação do enunciado.

A banca explora a polissemia (múltiplos sentidos de uma palavra) e a mudança de classe gramatical conforme o contexto. A pegadinha seria o candidato achar que "claro" e "certo" são sempre adjetivos, ignorando o uso adverbial e o marcador discursivo.

claro
certo
Adjetivo
escrever claro (modo)
certo? (confirmação)
Advérbio
é claro (compreensível)
não é certo (correto)
LEVEL · soulevel.com.br

Item — ✅ Correto ⟵ GABARITO

A afirmação está correta. O autor se vale de diferentes significados e classificações das palavras "claro" e "certo" no período. Como demonstrado:

  • "claro" em "escrever claro" = advérbio (modo);

  • "claro" em "é claro" = adjetivo (predicativo);

  • "certo" em "não é certo" = adjetivo (predicativo, sentido de correto);

  • "certo" em "certo?" = advérbio (marcador de confirmação).

A passagem "dizer 'escrever claro' não é certo, mas é claro, certo?" é a evidência textual direta: as mesmas palavras aparecem com funções e sentidos distintos, o que valida integralmente o enunciado.

NÃO CAIA NESSA!

A banca testa se o candidato percebe a mudança de classe gramatical das palavras no contexto. Muitos veem "claro" e "certo" apenas como adjetivos e não notam o uso adverbial de "claro" (em "escrever claro") e o uso de "certo" como marcador discursivo (em "certo?").

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar palavras em contexto, pergunte: qual a função sintática? modifica verbo (advérbio) ou substantivo (adjetivo)? É um marcador de interação? Essa pergunta resolve a questão.

Conclusão: a questão exige percepção de que as palavras "claro" e "certo" são usadas com sentidos e classes gramaticais diferentes no mesmo período. O texto comprova isso, tornando o item Certo.

Gabarito: C (Certo).

Link permanente: /questoes/qg603947