Questão de Português — Interpretação de Textos — Quadrix 2025
Português›Interpretação de Textos
Código
qg604982
Banca
Quadrix
Órgão
CORE-RS
Ano
2025
Nível
Médio
Texto para a questão.
Instruções para chorar
Deixando de lado os motivos, atenhamo‑nos à
maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro
que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso
com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio
ou comum consiste numa contração geral do rosto e um
som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este
no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se
assoa energicamente.
Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo,
e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de
acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de
formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães nos
quais não entra ninguém, nunca.
Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com
delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para
dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco
na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração
média do choro, três minutos.
CORTÁZAR, Júlio. Instruções para chorar. In: Histórias de cronópios
e de famas. São Paulo: Editora Best Seller, 2013.
Do segundo parágrafo em diante, predomina no texto um traço que foge às características de um texto narrativo comum. Assinale a opção que apresenta essa característica.
AO emprego de verbos de ação no pretérito.
BA presença do discurso direto.
CA intertextualidade com um poema épico bastante conhecido.
DA clara presença de opiniões e teses, característica do texto dissertativo‑argumentativo.
EA presença de instruções e conselhos que se assemelham ao gênero injuntivo.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — A presença de instruções e conselhos que se assemelham ao gênero injuntivo.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Tipologia textual: o traço injuntivo em "Instruções para chorar"
Gabarito: letra E. Do segundo parágrafo em diante, o texto de Cortázar abandona a mera descrição do choro e passa a dar instruções e conselhos ao leitor — traço típico do gênero injuntivo (ou instrucional/prescritivo), que foge à narrativa comum. A pista decisiva está nos verbos no imperativo e nas orientações diretas: "dirija a imaginação a você mesmo", "pense num pato coberto de formigas", "você cobrirá o rosto com delicadeza". O texto não conta uma história; ele prescreve um procedimento, como se fosse um manual de como chorar corretamente.
O comando: identificar o traço que foge à narrativa
A questão pede que você reconheça, a partir do segundo parágrafo, uma característica que não é comum a um texto narrativo. Isso exige, primeiro, saber o que define a narração: presença de personagens, enredo, progressão temporal, verbos de ação no pretérito. Depois, exige comparar essas marcas com o que o texto efetivamente faz. O comando não pede uma inferência sutil — pede a identificação de um traço tipológico que está explícito na superfície do texto, marcado pela forma verbal e pela intenção comunicativa.
O texto: de descrição a instrução
O primeiro parágrafo descreve o "choro médio ou comum" — uma caracterização quase técnica. A partir do segundo, o autor muda de postura: em vez de descrever, ele orienta o leitor sobre como chorar. Veja a sequência de comandos:
"Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo"
"pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães"
"você cobrirá o rosto com delicadeza"
"As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara"
Esses verbos — "dirija", "pense", "cobrirá", "chorarão" — não narram fatos ocorridos; eles prescrevem ações que o leitor deve executar. O imperativo ("dirija", "pense") e o futuro com valor de recomendação ("cobrirá", "chorarão") são marcas clássicas do texto injuntivo, cuja finalidade é instruir, orientar, aconselhar. É exatamente isso que a alternativa E aponta.
A técnica: tipologia pela intenção, não pela forma
A tipologia textual se define pela intenção comunicativa predominante, não pela aparência. O texto injuntivo visa a dar instruções, ordens, conselhos ou prescrever procedimentos — como bulas, receitas, manuais e editais. Aqui, o título já anuncia: "Instruções para chorar". O autor não quer contar uma história; quer ensinar um método. A ironia está em tratar algo natural (chorar) como se fosse uma técnica a ser aprendida — mas isso não muda o tipo textual: a intenção é instrucional.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta atrair o candidato para a alternativa D ("opiniões e teses"), que parece plausível porque o texto tem um tom irônico e reflexivo. Mas não há tese defendida com argumentos — há procedimentos a seguir. O texto não persuade; instrui.
Análise das alternativas
Critério
Texto narrativo comum
Texto injuntivo (presente no 2º parágrafo)
Intenção comunicativa
Contar uma história (fatos, enredo)
Dar instruções, conselhos ou prescrever procedimentos
Marca verbal predominante
Verbos de ação no pretérito (narração de eventos passados)
Imperativo ("dirija", "pense") e futuro com valor de recomendação ("cobrirá", "chorarão")
Papel do leitor
Expectador da história
Executor das orientações (leitor é interpelado diretamente)
Estrutura típica
Sequência cronológica de eventos
Sequência de comandos ou passos a seguir
Alternativa A — ❌ Incorreta
O texto não emprega verbos de ação no pretérito para narrar eventos. Os verbos estão no presente do indicativo ("consiste", "acaba"), no imperativo ("dirija", "pense") e no futuro do presente ("cobrirá", "chorarão"). Não há sequência de fatos passados — marca da narração. A alternativa contradiz o texto e, além disso, apontaria um traço narrativo, não um que foge à narrativa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Não há discurso direto no texto — não há travessões, aspas ou verbos de elocução ("disse", "perguntou") introduzindo falas de personagens. O texto é todo em discurso do narrador, dirigindo-se diretamente ao leitor. A alternativa extrapola: inventa um recurso que não existe no texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Não há intertextualidade com um poema épico. O texto faz referências a "pato coberto de formigas" e "golfos do estreito de Magalhães", mas isso é imaginação proposta ao leitor, não diálogo com uma obra épica conhecida. A alternativa tangencia o tema: fala de um recurso intertextual que não está presente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O texto tem um tom irônico e reflexivo, mas não apresenta tese nem argumentos para convencer o leitor de algo. Não há uma opinião defendida com raciocínio lógico — há uma sequência de orientações práticas. A alternativa acrescenta opinião: atribui ao texto uma característica dissertativo-argumentativa que ele não tem. O autor não quer persuadir; quer instruir (ironicamente).
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa identifica com precisão o traço que foge à narrativa: a presença de instruções e conselhos, típica do gênero injuntivo. Os verbos no imperativo ("dirija", "pense") e no futuro com valor de recomendação ("cobrirá", "chorarão") transformam o texto em um manual de procedimentos. O título já anuncia: "Instruções para chorar". O texto não narra; ensina como fazer.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de identificar a intenção comunicativa do texto. A narração conta fatos; a injunção orienta ações. Quando o autor passa a dar comandos ao leitor ("dirija", "pense", "cobrirá"), ele abandona o relato e assume a função instrucional. Gabarito: letra E.
PEGA ESSA DICA!
Para distinguir tipos textuais, pergunte: "o texto conta uma história?" (narrativo), "descreve características?" (descritivo), "defende uma tese?" (dissertativo-argumentativo) ou "dá instruções?" (injuntivo). A resposta está na intenção, não na forma.