Questão de Português — Interpretação de Textos — Quadrix 2025
Português›Interpretação de Textos
Código
qg605041
Banca
Quadrix
Órgão
CORE-SP
Ano
2025
Nível
Superior
Instruções para dar corda no relógio
Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo.
Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o
pino da corda, puxe‑o suavemente. Agora se abre outro
prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm
regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si
mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de
uma mulher, o perfume do pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre‑o depressa
a seu pulso, deixe‑o bater em liberdade, imite‑o anelante.
O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser
alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do
relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis.
E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos
antes e compreendemos que já não tem importância.
CORTÁZAR, Júlio. Histórias de Cronópios e de famas. São Paulo:
Editora Civilização Brasileira, 1994, p. 33‑34 (com adaptações).
“e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.”Nesse trecho do texto, predomina a figura de linguagem denominada
Aanacoluto, pois há certa descontinuidade na ideia da frase.
Bsinestesia, pois as palavras aguçam os sentidos.
Cquiasmo, pois há uma espécie de gradação que vai e vem.
Ddisfemismo, pois a escolha das palavras é dura, insensível.
Ecatacrese, pois foi empregada uma metáfora cujo valor original já se perdeu.
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GabaritoB — sinestesia, pois as palavras aguçam os sentidos.
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Sinestesia no trecho de Cortázar
Gabarito: letra B. No trecho, predomina a sinestesia, pois o autor mistura sensações de diferentes sentidos — visão, olfato, tato — em uma mesma imagem poética. A passagem que comprova é:
"e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão."
Aqui, "sombra" (visual), "brisas" (tátil), "perfume" (olfativo) e "pão" (gustativo) se fundem, criando uma experiência sensorial múltipla, típica da sinestesia.
O comando
A questão pede para identificar a figura de linguagem predominante no trecho. Isso exige reconhecer o recurso expressivo que organiza a imagem, não apenas o sentido literal. É uma questão de interpretação de texto com foco em figuras de linguagem.
O texto
O poema de Cortázar descreve o ato de dar corda no relógio como um renascimento do tempo. No trecho citado, o tempo "se enche de si mesmo" e dele brotam elementos da natureza e da vida cotidiana. A construção é essencialmente sensorial: o autor evoca percepções que vão além do visual, envolvendo o leitor em uma experiência multissensorial.
A técnica
Sinestesia é a figura de linguagem que consiste na mistura de sensações de diferentes sentidos em uma mesma expressão. Por exemplo, "perfume do pão" combina olfato (perfume) com paladar (pão); "brisas da terra" mistura tato (brisa) com visão (terra). O efeito é criar uma imagem mais viva e completa, apelando a vários sentidos ao mesmo tempo.
As demais figuras citadas nas alternativas são:
Anacoluto: quebra da estrutura sintática, deixando um termo sem função na frase. Não ocorre aqui, pois a frase é sintaticamente correta.
Quiasmo: disposição cruzada de termos paralelos (ABBA). Não há esse padrão no trecho.
Disfemismo: uso de palavras duras ou grosseiras para causar choque. O trecho é poético e suave, não há dureza.
Catacrese: metáfora já desgastada pelo uso, como "pé da mesa". Aqui as imagens são originais e criativas, não cristalizadas.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Anacoluto é a quebra da estrutura lógico-sintática, deixando um termo sem função sintática. No trecho, a frase é completa e bem estruturada: "dele brotam o ar, as brisas..." — não há termo solto. A alternativa extrapola ao sugerir descontinuidade que não existe.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A sinestesia está presente na fusão de sensações: "sombra" (visão), "brisas" (tato), "perfume" (olfato), "pão" (paladar). O autor mistura os sentidos para criar uma imagem poética rica. É a figura predominante no trecho.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Quiasmo é a disposição cruzada de termos paralelos (ex.: "não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país"). No trecho, não há essa estrutura cruzada. A alternativa tangencia o tema, pois fala de gradação, que não é o recurso central.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Disfemismo é o uso de palavras duras, grosseiras ou chocantes. O trecho é lírico e delicado, com imagens agradáveis ("perfume do pão", "sombra de uma mulher"). Não há dureza ou insensibilidade. A alternativa contradiz o tom do texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Catacrese é uma metáfora já desgastada, como "pé da mesa" ou "braço da cadeira". As imagens do trecho são originais e criativas, não cristalizadas pelo uso. A alternativa confunde metáfora viva com catacrese.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece figuras de sintaxe (anacoluto, quiasmo) e de pensamento (disfemismo) para desviar a atenção da figura de palavra (sinestesia). Fique atento à definição de cada uma.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar sinestesia, procure a mistura de sentidos em uma mesma expressão. Pergunte: "quais sentidos estão sendo evocados?" Se houver mais de um, é sinestesia.