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Questão de Português — Coesão e coerência — Quadrix 2025

PortuguêsCoesão e coerência
Código
qg606529
Banca
Quadrix
Órgão
SEDF
Ano
2025
Nível
Superior
Uma convicção pode ser a mais perversa das prisões. Quando o que sei não pode ser questionado, escuto apenas aquilo que confirma o que acredito. O que é diferente recuso. Quando acredito que tenho toda a razão e o outro, nenhuma, não existe diálogo. Preso às minhas convicções, reduzo a possibilidade de pensar. Não há como aprender sem estar disposto a mudar de ideia, e para mudar de ideia é preciso aceitar que minha convicção pode estar errada.

Polarização é quando duas convicções opostas ocupam todos os espaços do debate político. Quando não há adversário, mas inimigo. As alternativas, aquelas posições que não se encaixam em nenhum dos dois lados, são postergadas ou negadas. O debate se faz impossível. É como se as mensagens transitassem por canais paralelos ou fossem ditas em línguas diferentes. Pior: a língua é a mesma, as palavras são iguais – mas significam coisas diferentes, dependendo de quem diz.

Paramos de escutar, não interessam os argumentos. Deixa de importar o que é dito, importa quem disse: se foi alguém que é da minha posição, vou defender sem questionar. Mas, se for do outro lado, nego e rebato. Trocam‑se palavras de ordem e memes, há menosprezo pelo argumento. Quem não está alinhado com uma das duas posições dominantes não tem voz: o que disser será entendido como apoio ou crítica a um dos dois polos. As ideias se impõem por relação de força – não a força da razão, mas a razão da força. Quem grita mais leva. As posições são sempre muito delimitadas, não existem nuances. É a morte das ideias, o fim da inteligência.

O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: nunca ninguém reclama de ter recebido pouco, disse o filósofo francês René Descartes no início de seu Discurso do método. Com as ideologias ocorre algo semelhante: nunca ninguém se queixa de ter o juízo distorcido pela própria ideologia. O viés ideológico só afeta os outros. Jamais nos questionamos: será que eu também não estou vendo a realidade? E se o que para mim é tão óbvio for produto de uma ideologia que não me permite ver diferente? É tão claro e tão evidente que não há espaço para dúvidas – e isso é muito perigoso. 

BRUZZONI, Andrés. Ciberpopulismo: política e democracia no mundo
digital. São Paulo: Editora Contexto, 2021, p. 9‑11 (com adaptações).
Em relação aos aspectos gramaticais do texto, julgue o item seguinte.O pronome “isso”, em “e isso é muito perigoso”, atua como um elemento de coesão referencial, uma vez que resume todo o conteúdo do parágrafo.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Coesão referencial: o alcance do pronome "isso"

Gabarito: E (Errado). O pronome "isso", em "e isso é muito perigoso", não resume todo o conteúdo do parágrafo; ele retoma, por anáfora, apenas a ideia expressa na oração imediatamente anterior: "É tão claro e tão evidente que não há espaço para dúvidas". A afirmação do item restringe indevidamente o alcance do pronome, atribuindo-lhe um referente mais amplo do que o texto autoriza.

O comando

A questão pede um julgamento sobre aspectos gramaticais — especificamente sobre o mecanismo de coesão referencial empregado pelo pronome "isso". Não se trata de interpretar o texto, mas de identificar o referente do pronome e o tipo de coesão que ele estabelece. Para resolver, é preciso localizar o trecho e verificar o que exatamente o pronome retoma.

O texto e o referente

No último parágrafo, o autor discute o perigo da certeza ideológica. O trecho final é:

"É tão claro e tão evidente que não há espaço para dúvidas – e isso é muito perigoso."

O pronome "isso" retoma a oração anterior inteira: "É tão claro e tão evidente que não há espaço para dúvidas". Ou seja, o que é perigoso é essa ausência de dúvida, essa certeza absoluta. O pronome não resume o parágrafo todo, que também trata do viés ideológico, da falta de autocrítica etc. Ele se liga apenas à ideia imediatamente precedente.

A técnica: anáfora e referente

Coesão referencial é o mecanismo que liga um elemento a outro já mencionado (anáfora) ou que será mencionado (catáfora). O pronome "isso" é um pronome demonstrativo com função anafórica: ele aponta para trás, retomando um conteúdo. A questão é qual conteúdo. Para saber, basta substituir o pronome pelo trecho que ele supostamente retoma e verificar se o sentido se mantém:

  • Se "isso" retomasse todo o parágrafo, a frase seria: "[todo o parágrafo] é muito perigoso" — o que não faz sentido, pois o parágrafo fala de várias coisas, nem todas perigosas.

  • Se "isso" retoma a oração anterior, a frase fica: "[É tão claro e tão evidente que não há espaço para dúvidas] é muito perigoso" — perfeito, é exatamente o que o autor quer dizer.

Portanto, o item está errado porque restringe o referente do pronome, afirmando que ele resume o parágrafo inteiro quando, na verdade, resume apenas a oração imediatamente anterior.

Análise do item

O item afirma: "O pronome 'isso' atua como um elemento de coesão referencial, uma vez que resume todo o conteúdo do parágrafo."

  • Primeira parte: "atua como elemento de coesão referencial" — correto. O pronome é um mecanismo de coesão referencial anafórica.

  • Segunda parte: "uma vez que resume todo o conteúdo do parágrafo" — incorreto. O pronome não resume o parágrafo inteiro, apenas a oração anterior.

Como a segunda parte é falsa, o item como um todo é errado.

Conclusão

A banca explora a confusão entre retomar uma ideia e resumir um parágrafo. O pronome "isso" é, sim, um elemento de coesão referencial, mas seu referente é pontual — a oração "É tão claro e tão evidente que não há espaço para dúvidas" — e não o parágrafo inteiro. Ao afirmar que ele resume todo o parágrafo, o item extrapola o alcance do pronome.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre coesão referencial, identifique o referente exato do pronome. Pergunte: "o que exatamente ele retoma?" e teste substituindo o pronome pelo trecho que você acha que ele retoma. Se a substituição gerar sentido, é esse o referente.

Gabarito: letra E (Errado).

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