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Questão de Português — Sintaxe — Quadrix 2025

PortuguêsSintaxe
Código
qg606530
Banca
Quadrix
Órgão
SEDF
Ano
2025
Nível
Superior
Uma convicção pode ser a mais perversa das prisões. Quando o que sei não pode ser questionado, escuto apenas aquilo que confirma o que acredito. O que é diferente recuso. Quando acredito que tenho toda a razão e o outro, nenhuma, não existe diálogo. Preso às minhas convicções, reduzo a possibilidade de pensar. Não há como aprender sem estar disposto a mudar de ideia, e para mudar de ideia é preciso aceitar que minha convicção pode estar errada.

Polarização é quando duas convicções opostas ocupam todos os espaços do debate político. Quando não há adversário, mas inimigo. As alternativas, aquelas posições que não se encaixam em nenhum dos dois lados, são postergadas ou negadas. O debate se faz impossível. É como se as mensagens transitassem por canais paralelos ou fossem ditas em línguas diferentes. Pior: a língua é a mesma, as palavras são iguais – mas significam coisas diferentes, dependendo de quem diz.

Paramos de escutar, não interessam os argumentos. Deixa de importar o que é dito, importa quem disse: se foi alguém que é da minha posição, vou defender sem questionar. Mas, se for do outro lado, nego e rebato. Trocam‑se palavras de ordem e memes, há menosprezo pelo argumento. Quem não está alinhado com uma das duas posições dominantes não tem voz: o que disser será entendido como apoio ou crítica a um dos dois polos. As ideias se impõem por relação de força – não a força da razão, mas a razão da força. Quem grita mais leva. As posições são sempre muito delimitadas, não existem nuances. É a morte das ideias, o fim da inteligência.

O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: nunca ninguém reclama de ter recebido pouco, disse o filósofo francês René Descartes no início de seu Discurso do método. Com as ideologias ocorre algo semelhante: nunca ninguém se queixa de ter o juízo distorcido pela própria ideologia. O viés ideológico só afeta os outros. Jamais nos questionamos: será que eu também não estou vendo a realidade? E se o que para mim é tão óbvio for produto de uma ideologia que não me permite ver diferente? É tão claro e tão evidente que não há espaço para dúvidas – e isso é muito perigoso. 

BRUZZONI, Andrés. Ciberpopulismo: política e democracia no mundo
digital. São Paulo: Editora Contexto, 2021, p. 9‑11 (com adaptações).
Em relação aos aspectos gramaticais do texto, julgue o item seguinte.Na oração “Trocam‑se palavras de ordem e memes”, a substituição de “Trocam‑se” por Troca‑se é gramaticalmente correta, sendo motivada pela indeterminação do sujeito da oração.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Concordância verbal com partícula apassivadora: por que "Troca-se" é incorreto

Gabarito: E (Errado). A substituição de "Trocam-se" por "Troca-se" é gramaticalmente incorreta, pois o sujeito da oração é composto ("palavras de ordem e memes"), o que exige o verbo no plural. A motivação apresentada no item — "indeterminação do sujeito" — também está equivocada, já que a oração apresenta voz passiva sintética com sujeito paciente explícito, e não sujeito indeterminado.

No trecho do texto, a oração é:

"Trocam‑se palavras de ordem e memes"

O pronome "se" aqui é partícula apassivadora, e não índice de indeterminação do sujeito. Isso fica evidente porque o verbo "trocar" é transitivo direto e o termo "palavras de ordem e memes" funciona como sujeito paciente (aquilo que é trocado). Em construções com partícula apassivadora, o verbo concorda com o sujeito: se o sujeito está no plural, o verbo fica no plural. Por isso, "Trocam-se" está correto, e "Troca-se" estaria errado, pois deixaria o verbo no singular com sujeito composto.

O comando da questão

O item pede um julgamento sobre aspectos gramaticais — especificamente, sobre a possibilidade de substituir "Trocam-se" por "Troca-se" e a justificativa dessa troca. Trata-se de uma questão de concordância verbal e de análise sintática do pronome "se". O candidato precisa identificar a função do "se" na oração e aplicar a regra de concordância correspondente.

A função do "se" na oração

Na oração "Trocam-se palavras de ordem e memes", o "se" é partícula apassivadora (ou pronome apassivador). Isso ocorre porque:

  • O verbo "trocar" é transitivo direto (troca-se algo).

  • O termo "palavras de ordem e memes" é o sujeito paciente — recebe a ação de ser trocado.

  • A oração equivale a "Palavras de ordem e memes são trocadas".

Nesse tipo de construção, o verbo concorda com o sujeito paciente. Como o sujeito é composto ("palavras de ordem e memes"), o verbo deve ficar no plural: "Trocam-se".

Por que "Troca-se" seria incorreto

Se substituíssemos por "Troca-se", teríamos:

"Troca-se palavras de ordem e memes"

Essa forma viola a concordância, pois o verbo no singular não concorda com o sujeito composto no plural. Seria o mesmo que dizer "Troca-se os livros" em vez de "Trocam-se os livros". A forma correta, com sujeito plural, exige verbo no plural.

A motivação apresentada no item também está errada

O item afirma que a substituição seria motivada pela "indeterminação do sujeito". Isso é um equívoco duplo:

  1. Não há sujeito indeterminado na oração. O sujeito é explícito: "palavras de ordem e memes".

  2. A indeterminação do sujeito ocorre com o "se" quando o verbo é intransitivo, transitivo indireto ou de ligação, e não há sujeito explícito. Exemplos: "Precisa-se de funcionários", "Vive-se bem aqui", "Trata-se de assuntos importantes". Nesses casos, o "se" é índice de indeterminação do sujeito e o verbo fica no singular.

A banca tenta confundir o candidato misturando dois usos distintos do "se": a partícula apassivadora (que exige concordância com o sujeito) e o índice de indeterminação (que deixa o verbo no singular). São construções diferentes, com regras diferentes.

Tabela comparativa: partícula apassivadora × índice de indeterminação

Critério

Partícula apassivadora

Índice de indeterminação

Verbo

Transitivo direto (ou direto e indireto)

Intransitivo, transitivo indireto ou de ligação

Sujeito

Explícito (paciente)

Indeterminado (não existe)

Concordância

Verbo concorda com o sujeito

Verbo fica no singular

Exemplo

Trocam-se palavras

Precisa-se de ajuda

Equivalência

Voz passiva sintética

Sem equivalente direto

Conclusão

O item está errado por dois motivos: a substituição é gramaticalmente incorreta (viola a concordância com o sujeito composto) e a justificativa apresentada (indeterminação do sujeito) não se aplica à oração, que tem sujeito explícito e voz passiva sintética.

"Se" com verbo transitivo direto
  • 1Partícula apassivadora
    • Sujeito paciente explícito
    • Verbo concorda com o sujeito
    • Ex.: Trocam-se palavras
  • 2Índice de indeterminação
    • Verbo intransitivo ou transitivo indireto
    • Sujeito inexistente
    • Verbo fica no singular
    • Ex.: Precisa-se de ajuda
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NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura dois usos do "se" — partícula apassivadora (com sujeito explícito, exige concordância) e índice de indeterminação (sem sujeito, verbo no singular). Identifique a transitividade do verbo e a presença de sujeito para não cair nessa armadilha.

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar "se" com verbo transitivo direto, pergunte: "o que é [verbo]?" — se houver resposta, há sujeito paciente e o verbo concorda com ele. Se não houver resposta, o "se" é índice de indeterminação.

Gabarito: letra E (Errado).

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