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Questão de Português — Interpretação de Textos — Quadrix 2025

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qg606536
Banca
Quadrix
Órgão
SEDF
Ano
2025
Nível
Superior
Uma convicção pode ser a mais perversa das prisões. Quando o que sei não pode ser questionado, escuto apenas aquilo que confirma o que acredito. O que é diferente recuso. Quando acredito que tenho toda a razão e o outro, nenhuma, não existe diálogo. Preso às minhas convicções, reduzo a possibilidade de pensar. Não há como aprender sem estar disposto a mudar de ideia, e para mudar de ideia é preciso aceitar que minha convicção pode estar errada.

Polarização é quando duas convicções opostas ocupam todos os espaços do debate político. Quando não há adversário, mas inimigo. As alternativas, aquelas posições que não se encaixam em nenhum dos dois lados, são postergadas ou negadas. O debate se faz impossível. É como se as mensagens transitassem por canais paralelos ou fossem ditas em línguas diferentes. Pior: a língua é a mesma, as palavras são iguais – mas significam coisas diferentes, dependendo de quem diz.

Paramos de escutar, não interessam os argumentos. Deixa de importar o que é dito, importa quem disse: se foi alguém que é da minha posição, vou defender sem questionar. Mas, se for do outro lado, nego e rebato. Trocam‑se palavras de ordem e memes, há menosprezo pelo argumento. Quem não está alinhado com uma das duas posições dominantes não tem voz: o que disser será entendido como apoio ou crítica a um dos dois polos. As ideias se impõem por relação de força – não a força da razão, mas a razão da força. Quem grita mais leva. As posições são sempre muito delimitadas, não existem nuances. É a morte das ideias, o fim da inteligência.

O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: nunca ninguém reclama de ter recebido pouco, disse o filósofo francês René Descartes no início de seu Discurso do método. Com as ideologias ocorre algo semelhante: nunca ninguém se queixa de ter o juízo distorcido pela própria ideologia. O viés ideológico só afeta os outros. Jamais nos questionamos: será que eu também não estou vendo a realidade? E se o que para mim é tão óbvio for produto de uma ideologia que não me permite ver diferente? É tão claro e tão evidente que não há espaço para dúvidas – e isso é muito perigoso. 

BRUZZONI, Andrés. Ciberpopulismo: política e democracia no mundo
digital. São Paulo: Editora Contexto, 2021, p. 9‑11 (com adaptações).
Acerca das ideias do texto e das suas propriedades linguísticas, julgue o item a seguir.Segundo o texto, a morte das ideias acontece quando os argumentos não são ouvidos e deixam de ser importantes, sendo substituídos pela força, pelo grito.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A morte das ideias: quando a força substitui a razão

Gabarito: C (Certo). O item está correto porque o texto afirma explicitamente que, na polarização, os argumentos deixam de ser ouvidos e importantes, sendo substituídos pela força e pelo grito. A passagem que ancora essa leitura é: "As ideias se impõem por relação de força – não a força da razão, mas a razão da força. Quem grita mais leva." O item é uma paráfrase fiel dessa ideia, sem acrescentar ou suprimir nada.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede para julgar o item "acerca das ideias do texto". Isso indica uma questão de compreensão/recorrência: a resposta deve estar explícita no texto, e a alternativa correta será uma paráfrase (reescritura fiel) do que está escrito. Não se trata de deduzir algo das entrelinhas, mas de localizar a informação e verificar se o item a reproduz com fidelidade.

O texto: a tese sobre a polarização

O texto de Andrés Bruzzoni argumenta que a polarização política extrema leva à "morte das ideias". O autor desenvolve essa tese mostrando como, nesse cenário, o debate é substituído pela lógica do inimigo: as pessoas param de escutar, os argumentos perdem valor e o que importa é a posição de quem fala. O clímax desse raciocínio está no trecho que descreve a imposição das ideias pela força:

"As ideias se impõem por relação de força – não a força da razão, mas a razão da força. Quem grita mais leva."

É exatamente essa a passagem que o item parafraseia. O item diz que a morte das ideias acontece quando os argumentos não são ouvidos e deixam de ser importantes, sendo substituídos pela força e pelo grito. Isso corresponde, ponto a ponto, ao que o texto afirma: os argumentos não são ouvidos ("Paramos de escutar, não interessam os argumentos"), deixam de ser importantes ("Deixa de importar o que é dito, importa quem disse") e são substituídos pela força e pelo grito ("As ideias se impõem por relação de força... Quem grita mais leva").

A técnica: paráfrase fiel, sem extrapolação

A armadilha clássica em questões de compreensão é a extrapolação: a alternativa que parece correta, mas acrescenta uma informação que o texto não traz. Neste item, porém, não há extrapolação. Cada elemento do item encontra correspondência direta no texto:

  • "os argumentos não são ouvidos" → "Paramos de escutar, não interessam os argumentos"

  • "deixam de ser importantes" → "Deixa de importar o que é dito, importa quem disse"

  • "sendo substituídos pela força, pelo grito" → "As ideias se impõem por relação de força... Quem grita mais leva"

O item não diz mais do que o texto, nem menos. Ele apenas reorganiza as ideias em uma nova redação, mantendo o sentido original. Isso é exatamente o que se espera de uma paráfrase correta.

A pegadinha: cuidado com a inversão de causa e consequência

NÃO CAIA NESSA!

A banca poderia tentar inverter a relação de causa e consequência, dizendo que a força e o grito são a causa da morte das ideias, quando na verdade são a manifestação dela. Mas o item não cai nessa armadilha: ele descreve a morte das ideias como o resultado do processo em que os argumentos perdem valor e a força assume o lugar.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, teste cada elemento do item contra o texto. Se cada parte encontrar correspondência direta, o item está correto. Se qualquer parte exigir uma dedução que o texto não autoriza, o item está errado.

Conclusão

O item é uma paráfrase fiel do texto, sem extrapolações, restrições ou opiniões embutidas. Ele reproduz exatamente a ideia central do autor sobre a morte das ideias na polarização. Portanto, o item está CERTO.

Gabarito: C (Certo).

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