Análise da inferência sobre "Encontro de memórias"
Gabarito: letra B. A única alternativa que expressa uma inferência semanticamente legítima, coerente com a macroestrutura do texto e com a perspectiva do narrador, é a B. Ela capta como a expressão "os dois dias em que a terra parou" articula simbolicamente um episódio íntimo (infância com o pai e Raul Seixas) e uma experiência coletiva (pandemia), tendo a memória musical como fio condutor subjetivo. Isso é comprovado pelos trechos:
"Existem dois dias em que, para mim, a terra parou. O primeiro aconteceu quando eu tinha cerca de sete anos... a voz de Raul Seixas criava um refúgio íntimo" "O segundo dia em que a terra parou veio doze anos depois... a rotina inteira foi suspensa por algo que parou o planeta" "Assim como no primeiro dia, Raul também estava presente."
A música de Raul Seixas aparece nos dois momentos, ligando o individual ao coletivo e funcionando como eixo de continuidade afetiva.
Alternativa | Análise da Inferência | Coerência com a Macroestrutura | Perspectiva Enunciativa do Narrador | Conclusão |
|---|
A | Afirma que o título se refere exclusivamente à rememoração do pai. | Incorreta: o título abrange o encontro de duas memórias (infância com o pai e pandemia), não apenas a figura paterna. | Incorreta: o narrador articula ambos os momentos, não apenas um. | ❌ Incorreta |
B | A expressão "os dois dias em que a terra parou" articula o íntimo e o coletivo, com a música como fio condutor. | Correta: a expressão é o eixo estrutural que liga os dois momentos-chave do texto. | Correta: a perspectiva subjetiva do narrador é mantida, usando a memória musical como continuidade afetiva. | ✅ Gabarito |
C | Afirma que o texto é linear, objetivo e cronológico, sem subjetivações. | Incorreta: o texto é repleto de subjetivações ("para mim", "meu mundo interno"). | Incorreta: a perspectiva é subjetiva, não objetiva. | ❌ Incorreta |
D | A evocação do passado é apenas compensatória e sem valor narrativo além do simbolismo afetivo. | Incorreta: a memória tem valor narrativo estrutural, ligando os dois momentos. | Incorreta: o narrador usa a memória como eixo de continuidade, não como mera compensação. | ❌ Incorreta |
E | A repetição de "Raul Seixas" é anáfora epifórica sem correlação semântica relevante. | Incorreta: a repetição estabelece correlação direta entre os dois momentos centrais. | Incorreta: o referente é semanticamente relevante para a continuidade subjetiva. | ❌ Incorreta |
Alternativa A — ❌ Incorreta
A afirmação de que o título "Encontro de memórias" faz referência exclusiva à rememoração do pai é uma restrição indevida. O narrador evoca tanto a memória com o pai (primeiro dia) quanto a memória da pandemia (segundo dia), e ambas são centrais. O título abrange o encontro dessas duas lembranças, não apenas a figura paterna. Portanto, a alternativa extrapola ao limitar o alcance semântico do título.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve exatamente a função simbólica da expressão "os dois dias em que a terra parou": ela articula o íntimo (infância) e o coletivo (pandemia) e é o fio condutor da narrativa, com a música de Raul Seixas como eixo de continuidade subjetiva. Isso é corroborado pelos trechos citados e pela estrutura do texto, que retorna ao primeiro dia sempre que ouve a música. Nenhuma informação é acrescentada de fora; a inferência é legitimamente extraída das pistas textuais.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O texto não apresenta sequência linear e objetiva. Pelo contrário, é repleto de subjetivações — usa expressões como "para mim, a terra parou", "meu mundo interno decidiu guardar", "memória afetiva". A narrativa não é cronológica pura: começa com o primeiro dia, depois pula doze anos para o segundo, e no terceiro parágrafo volta ao tempo presente com reflexões. A alternativa contradiz o texto ao negar a subjetividade evidente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa sugere que a evocação do passado funciona como "estratégia compensatória" da experiência pandêmica, mas o texto não afirma nem sugere compensação. O narrador apenas descreve as memórias e sua permanência afetiva; não há juízo de valor sobre o efeito terapêutico ou compensatório. Trata-se de uma extrapolação (acréscimo de opinião não autorizada pelo texto). Além disso, dizer que a memória "não possui valor narrativo para além do seu simbolismo afetivo restrito" é falso, pois a memória estrutura a narrativa inteira.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A repetição de "Raul Seixas" estabelece correlação semântica relevante com os dois momentos centrais: no primeiro dia, ele é tocado pelo pai; no segundo, "Raul também estava presente". A alternativa nega essa correlação, contradizendo o texto explicitamente. O termo "anáfora epifórica" (que se refere a algo fora do texto) é irrelevante para a análise; o importante é que o referente está diretamente ligado a ambos os episódios.
Gabarito: letra B