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Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qg649075
Banca
Avança SP
Órgão
GAMA
Ano
2026
Nível
Médio
Cargo
Encarregado de Seção Pessoal

Leia o texto a seguir para responder à questão.


Meu ideal seria escrever...


Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “ai meu Deus, que história mais engraçada!” E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – “mas essa história é mesmo muito engraçada!”

Que um casal que estivesse em casa malhumorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para a cara do outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor, se comportem, que diabo! eu não gosto de prender ninguém!” E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história. (...)

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.


BRAGA, Rubem. Meu ideal seria escrever... Portal da Crônica Brasileira. Disponível em . 

Em relação ao texto “Meu ideal seria escrever...”, é correto afirmar que o autor desenvolve um(a):
  1. Ametalinguagem, ou seja, um texto tratando sobre um texto de outro autor.
  2. Bmetalinguagem, ou seja, um texto tratando sobre o seu próprio texto idealizado.
  3. Crelato de experiência sobre um outro texto que ele de fato escreveu.
  4. Drelato de experiência sobre um texto escrito de fato por outra pessoa.
  5. Etestemunho a respeito de características que ele não deseja para um texto.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — metalinguagem, ou seja, um texto tratando sobre o seu próprio texto idealizado.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função Metalinguística no Texto de Rubem Braga

Gabarito: letra B. O autor desenvolve um texto metalinguístico porque fala sobre o próprio texto que idealiza escrever, e não sobre um texto de outro autor. A pista decisiva está no trecho final: "E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo", que revela que toda a reflexão é sobre a própria criação — o texto que ele deseja produzir.

O comando pede uma afirmação correta sobre o texto, ou seja, uma questão de compreensão/recorrência: a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que está escrito, sem deduções. O tema é o desejo do autor de escrever uma história que provoque alegria e transforme as pessoas. A tese, implícita, é que a literatura tem poder de cura e conexão humana. O movimento argumentativo é todo construído em torno de um projeto de escrita: o autor imagina os efeitos que sua história ideal causaria em diferentes pessoas — a moça doente, o casal mal-humorado, os presos, os doentes — e só no final revela que essa história ainda não existe, é apenas uma idealização.

A técnica que decide a questão é o reconhecimento da função metalinguística da linguagem: quando o código (a língua) é usado para falar sobre ele mesmo, ou seja, quando o texto fala sobre o próprio texto, sobre o ato de escrever ou sobre a linguagem. Aqui, o autor não apenas escreve; ele reflete sobre o que gostaria de escrever, sobre o efeito que sua escrita ideal teria. Isso é metalinguagem. A pegadinha central está em confundir "metalinguagem" com "intertextualidade" (falar sobre texto de outro autor) ou com "relato de experiência" (narrar algo que de fato aconteceu).

"Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar"

O trecho mostra que o autor está projetando uma história futura, imaginando seus efeitos. Ele não está contando uma história que já escreveu, nem relatando uma experiência vivida. A confirmação final vem no último parágrafo:

"E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente"

A palavra "inventei" e a expressão "esconderia a humilde verdade" deixam claro que a história é uma criação idealizada, não um texto real já produzido. O autor fala sobre o próprio processo de criação — é a linguagem falando sobre a linguagem, é a metalinguagem.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor desenvolve metalinguagem "tratando sobre um texto de outro autor". O texto não menciona nenhum outro autor, nenhuma obra alheia. O autor fala exclusivamente da própria história idealizada. A alternativa extrapola ao introduzir a ideia de "outro autor", que não existe no texto. O erro é de fora_do_escopo: acrescenta informação ausente.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que o autor desenvolve metalinguagem "tratando sobre o seu próprio texto idealizado". Isso é exatamente o que o texto faz: o autor imagina, do início ao fim, os efeitos da história que gostaria de escrever. A palavra "ideal" no título e a revelação final de que "inventei toda a minha história em um só segundo" confirmam que se trata de um texto sobre o próprio texto projetado. É a função metalinguística em sua essência: a linguagem voltada para si mesma.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor faz um "relato de experiência sobre um outro texto que ele de fato escreveu". O texto não relata nenhuma experiência real de escrita; ele projeta uma escrita futura. Além disso, o texto não é "outro" — é o próprio texto idealizado. A alternativa contradiz o texto ao afirmar que o texto "de fato" foi escrito, quando o autor diz que "inventei" a história em um segundo, ou seja, ela é uma idealização, não uma obra concluída.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor faz um "relato de experiência sobre um texto escrito de fato por outra pessoa". Não há nenhuma outra pessoa autora no texto. O autor fala de si mesmo, de sua própria criação. A alternativa extrapola ao inventar a existência de "outra pessoa" que teria escrito o texto. O erro é de fora_do_escopo: introduz um elemento completamente ausente.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor faz um "testemunho a respeito de características que ele não deseja para um texto". O texto é exatamente o oposto: o autor descreve desejos para o texto — que seja engraçado, que faça as pessoas rirem, que traga alegria. Ele quer que o texto tenha essas características. A alternativa contradiz o texto ao inverter o sentido: o autor não fala do que não deseja, mas do que deseja intensamente.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre metalinguagem (texto que fala do próprio texto) e intertextualidade (texto que dialoga com outro texto). As alternativas A, C e D tentam fazer você acreditar que o autor fala de um texto alheio ou já escrito, quando na verdade ele fala do próprio texto idealizado.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a função metalinguística, pergunte: "o texto fala sobre o quê?" Se o objeto do discurso for o próprio ato de escrever, a própria linguagem ou o próprio texto, é metalinguagem. Se for outro texto, é intertextualidade.

Gabarito: letra B. A resposta correta é a única que se sustenta integralmente no texto: o autor desenvolve uma reflexão sobre o próprio texto que idealiza escrever, caracterizando a função metalinguística da linguagem.

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