Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2026
Português›Interpretação de Textos
Código
qg649341
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Aparecida - SP
Ano
2026
Nível
Médio
Cargo
Cuidador de Aluno PCD
Diário de um celular
Vou pedir um tempo ao meu dono. Sinto
que ele fica mais tempo comigo do que com a
família. Às vezes me sinto sufocado.
Agora mesmo, tarde da noite, embora já
de pijama, ele não desgruda. Acho que é o tal do
toque. Se continuar assim, logo terá aquela
doença de LER (lesão por esforço repetitivo).
Seis da manhã. Ele desperta com a mesma
música. Em seguida, com mais um toque, ele me
apaga de novo.
Seguimos com o café. Lá estou eu, em
posição privilegiada. Ele me coloca na mesa,
antes mesmo que a xícara e o pão. Sinto-me
importante. Quase um rei.
No elevador, sou a verdadeira proteção e
salvação dos tímidos. Já entra comigo na mão. Às
vezes disfarça que está navegando.
Momento de pânico. Vou partilhar alguns
minutos no carro, a caminho da escola do filho e
do trabalho. Eles com cinto de segurança, eu
totalmente desprotegido, solto no console do
veículo. O filho também tem celular, mas, como
não liga o “bluetooth”, não partilho as novidades.
Ficamos somente no visual (off line). (...)
Outro dia compreendi melhor qual poderá
ser meu destino. Meu dono resolveu finalmente
descartar uma impressora antiga, daquelas
matriciais. Fomos então a um descarte de lixos
eletrônicos. Que imagem triste! Quantos
celulares desconectados do mundo. Quanta
sucata. Senti uma lágrima no meu visor. Ele
estava realmente emocionado com seu descarte.
Percebi que ali, naquela aparente bobina da
máquina fria, já tinha rolado muito calor humano.
Aquele simples aparelho já tinha impresso muito
sentimento e história.
Voltamos para casa abalados, ainda com
a imagem daquele cenário de modelos
ultrapassados e abandonados. Acessei o Google
e constatei que todos têm direito a um último
desejo. Naveguei pelo Youtube e encontrei uma música do Toquinho e Vinícius: O Caderno. Na
última estrofe da canção, senti meu “chip” mais
apertadinho e decidi qual será meu último
pedido: “Só peço a você um favor, se puder, não
me esqueça num canto qualquer”.
PASINI, Amarildo. Diário de um celular.
Disponível em <https://www.folhadelondrina.com.br/folha2/cronica---diario-de-um-celular948301.html?d=1>.
O narrador do texto “Diário de um celular” é:
Aum celular com atitudes e pensamentos de um ser humano.
Bum ser humano com atitudes e pensamentos de um celular.
Cum adulto que não se desgruda do celular o dia inteiro.
Duma criança que não se desgruda do celular o dia inteiro.
Euma impressora matricial antiga.
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GabaritoA — um celular com atitudes e pensamentos de um ser humano.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Narrador Personagem: A Personificação do Celular
Gabarito: letra A. O narrador do texto é um celular com atitudes e pensamentos de um ser humano, pois o texto é narrado em primeira pessoa por um aparelho que sente, pensa e se emociona — como se lê já na abertura: "Vou pedir um tempo ao meu dono. Sinto que ele fica mais tempo comigo do que com a família". A alternativa correta é a única que captura essa personificação (atribuição de características humanas a um objeto), que é o recurso central do texto.
O comando pede uma compreensão do texto: identificar quem é o narrador. Não se trata de inferir algo nas entrelinhas, mas de reconhecer, a partir das pistas textuais, a voz narrativa. A resposta está na soma de indícios: o narrador se refere a si mesmo como objeto possuído ("meu dono"), descreve ações típicas de um celular ("Ele me coloca na mesa", "me apaga de novo") e, ao mesmo tempo, demonstra emoções humanas ("Sinto-me importante", "Senti uma lágrima no meu visor").
A técnica para resolver é ancorar cada alternativa no texto. A correta (A) é uma paráfrase fiel: o narrador é um celular (elemento concreto) que age e sente como humano (elemento figurado). As demais alternativas ou invertem essa relação (B), ou restringem o narrador a um personagem humano (C e D), ou apontam para um objeto que não é o narrador (E). Vamos ver cada uma.
"Vou pedir um tempo ao meu dono. Sinto que ele fica mais tempo comigo do que com a família."
Este trecho é decisivo: quem fala é o aparelho ("meu dono"), mas quem sente é uma pessoa ("Sinto que ele fica mais tempo comigo"). A fusão entre objeto e ser humano é exatamente o que a alternativa A descreve.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que o narrador é "um celular com atitudes e pensamentos de um ser humano". Isso é comprovado por múltiplas passagens:
O narrador se identifica como objeto: "Vou pedir um tempo ao meu dono" e "Ele me coloca na mesa, antes mesmo que a xícara e o pão".
O narrador tem emoções humanas: "Sinto-me importante. Quase um rei", "Senti uma lágrima no meu visor".
O narrador reflete sobre a própria existência: "Percebi que ali, naquela aparente bobina da máquina fria, já tinha rolado muito calor humano".
A alternativa é uma paráfrase exata do recurso de personificação (ou prosopopeia) que estrutura todo o texto. Não há extrapolação: tudo o que ela afirma está diretamente no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa inverte a relação: "um ser humano com atitudes e pensamentos de um celular". O texto não autoriza essa leitura. O narrador é o celular ("meu dono", "me apaga", "me coloca na mesa"), não um humano que se comporta como máquina. A banca trocou os termos da relação: o sujeito que narra é o objeto, não o humano. Erro de troca de conceito.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa diz que o narrador é "um adulto que não se desgruda do celular o dia inteiro". Isso descreve o dono do celular, não o narrador. O texto fala do dono em terceira pessoa: "ele fica mais tempo comigo do que com a família", "Ele desperta com a mesma música". O narrador é quem observa o dono, não o dono em si. A alternativa tangencia o tema ao confundir o personagem observado com o observador.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o narrador é "uma criança que não se desgruda do celular o dia inteiro". O texto menciona uma criança — "a caminho da escola do filho" — mas o filho não é o narrador. O narrador é o celular que acompanha o pai. Além disso, não há nenhuma indicação de que o dono seja uma criança. A alternativa extrapola ao inventar uma informação (que o narrador é criança) que o texto não sustenta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa aponta para "uma impressora matricial antiga". O texto menciona a impressora apenas como um episódio da narrativa: "Meu dono resolveu finalmente descartar uma impressora antiga". A impressora é um objeto descartado que serve de reflexão para o narrador, mas não é quem narra. A alternativa foge ao tema ao confundir um elemento secundário do enredo com o narrador.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a personificação — recurso em que um objeto ganha voz e sentimentos. As alternativas C e D tentam "humanizar" o narrador, e a E tenta desviar para outro objeto. A correta é a que mantém a dualidade: celular que pensa e sente como gente.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar o narrador, pergunte: "quem está falando?" e "sobre quem se fala?". O narrador é sempre a voz que conduz o relato — no texto, essa voz é do celular, que observa o dono e a própria existência.
Gabarito: letra A — o narrador é um celular personificado, com atitudes e pensamentos humanos, como prova a passagem "Vou pedir um tempo ao meu dono. Sinto que ele fica mais tempo comigo do que com a família".