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Questão de Português — Figuras de Linguagem — Avança SP 2026

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
qg650177
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Caçapava - SP
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Professor II (PII) - Português
Leia o texto a seguir para responder à questão abaixo.

Começando pela cozinha

        Sugeri, faz tempo, que para entrar numa escola alunos e professores deveriam passar por uma cozinha. Os cozinheiros podem dar lições aos professores. Foi na cozinha que a Babette e a Tita realizaram suas feitiçarias. Babette e Tita, feiticeiras, sabiam que os banquetes não se iniciam com a comida que se serve. Eles se iniciam com a fome. A verdadeira cozinheira é aquela que sabe a arte de produzir fome.

        Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Eu era menino. Ao lado da pequena casa onde eu morava havia um pomar enorme que eu devorava com os olhos. Pois aconteceu que uma árvore cujos galhos chegavam a dois metros do muro se cobriu de frutinhas que eu não conhecia. Eram pequenas, redondas, vermelhas, brilhantes. A simples visão daquelas pitangas provocou o meu desejo. Eu queria comê-las. E foi então que, provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar se pôs a funcionar.

        O pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objeto do seu desejo. Se eu não tivesse visto e desejado as ditas pitangas minha máquina de pensar teria permanecido parada. Imagine que a vizinha, ao ver os meus olhos desejantes, com dó de mim, tivesse me dado um punhado das pitangas. Nesse caso também minha máquina de pensar não teria funcionado. Meu desejo teria se realizado por meio de um atalho sem que eu tivesse tido necessidade de pensar.

        Se o desejo for satisfeito a máquina de pensar não pensa. A maneira mais fácil de abortar o pensamento é realizando o desejo. Esse é o pecado de muitos pais e professores que ensinam as respostas antes que tivesse havido as perguntas. (...) Mas o desejo continuou e tratei de encontrar outra solução: “construa uma maquineta de roubar pitangas”. (...)

        A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede. Conhecimentos que não são nascidos do desejo são como uma maravilhosa cozinha na casa de um homem que sofre de anorexia. Homem sem fome: o fogão nunca será aceso. O banquete nunca será servido. Dizia Miguel de Unamuno: “saber por saber: isso é inumano…”. A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar a faca e o queijo ao aluno, deve provocar a fome.

ALVES, Rubem. Começando pela cozinha. Revista Educação. Disponível em https://revistaeducacao.com.br/2012/04/30/comecando-pela-cozinha/.
“O pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objeto do seu desejo.”

Assinale a alternativa que apresenta a figura de linguagem sob a qual é empregada a palavra destacada no trecho acima.
  1. AProsopopeia
  2. BMetonímia
  3. CMetáfora
  4. DCatacrese
  5. EPleonasmo
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Metáfora

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Metáfora no Trecho "O pensamento é a ponte"

Gabarito: letra C. A palavra "ponte" é empregada em sentido metafórico, pois o autor estabelece uma comparação implícita entre o pensamento e uma ponte, sem usar conectivo comparativo (como, tal qual). No texto, o pensamento é apresentado como o meio que liga o corpo ao objeto do desejo, assim como uma ponte liga dois pontos. A passagem que ancora essa leitura é: "O pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objeto do seu desejo."

O Comando e a Tarefa

A questão pede que se identifique a figura de linguagem presente na palavra destacada ("ponte"). Isso exige do candidato o conhecimento das figuras de palavras e a capacidade de reconhecer o sentido conotativo (figurado) no contexto. Não se trata de interpretar o texto, mas de classificar o recurso expressivo usado pelo autor.

O Texto e a Construção da Metáfora

Rubem Alves constrói uma analogia central: o pensamento funciona como uma ponte que liga o corpo (o desejo) ao objeto desejado. A palavra "ponte" não é usada em seu sentido literal (construção física para transpor um vão), mas sim para transferir a ideia de "ligação", "passagem" e "conexão" para o campo abstrato do pensamento. Essa transferência de sentido, baseada em uma comparação implícita (pensamento é como uma ponte), é a essência da metáfora.

A Técnica: Metáfora vs. Outras Figuras

A metáfora é uma comparação implícita, sem conectivo, em que um termo é usado em lugar de outro por uma relação de semelhança. A comparação (símile) usa conectivos (como, tal qual). A catacrese é uma metáfora já cristalizada no uso cotidiano (ex.: "braço da cadeira"). A metonímia substitui um termo por outro com relação de proximidade lógica (ex.: "li Machado de Assis" = a obra). A prosopopeia atribui características humanas a seres inanimados. O pleonasmo é a repetição de ideias.

No trecho, "ponte" não é um termo cristalizado (catacrese), não há relação de contiguidade (metonímia), não há atribuição de características humanas (prosopopeia) e não há repetição de ideia (pleonasmo). Há, sim, uma comparação implícita entre dois elementos de universos distintos (pensamento e ponte), o que caracteriza a metáfora.

Análise das Alternativas

1Metáfora
Comparação implícita
Sem conectivo
Sentido criativo/contextual
2Catacrese
Metáfora cristalizada
Uso cotidiano (pé da mesa)
3Metonímia
Substituição por proximidade
Autor pela obra
4Prosopopeia
Atribui características humanas
A seres inanimados
Figuras de palavra
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Figuras de palavra: Metáfora (Comparação implícita, Sem conectivo, Sentido criativo/contextual); Catacrese (Metáfora cristalizada, Uso cotidiano (pé da mesa)); Metonímia (Substituição por proximidade, Autor pela obra); Prosopopeia (Atribui características humanas, A seres inanimados)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A prosopopeia (ou personificação) atribui características humanas a seres inanimados ou irracionais. No trecho, "ponte" não recebe características humanas; ela é usada como termo de comparação. O texto não diz que a ponte "pensa" ou "sente", apenas que o pensamento a constrói. A alternativa extrapola o sentido do texto, confundindo a figura de palavra com a figura de pensamento.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A metonímia é a substituição de um termo por outro com relação de proximidade ou contiguidade (parte pelo todo, autor pela obra, etc.). No trecho, "ponte" não substitui um termo por outro com relação lógica de proximidade; ela é usada para comparar o pensamento a uma ponte. A alternativa troca o conceito, pois a relação entre os termos é de semelhança, não de contiguidade.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A metáfora é a comparação implícita, sem conectivo, em que um termo é usado em lugar de outro por uma relação de semelhança. No trecho, "ponte" é usada para comparar o pensamento a uma construção que liga dois pontos, transferindo o sentido de "ligação" para o campo abstrato. A passagem "O pensamento é a ponte que o corpo constrói" estabelece essa comparação de forma implícita, sem usar "como" ou "tal qual", caracterizando a metáfora.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A catacrese é uma metáfora cristalizada no uso cotidiano, em que o sentido figurado já é percebido como literal (ex.: "pé da mesa", "braço da cadeira"). No trecho, "ponte" não é um termo cristalizado; é uma comparação criativa e contextual, que depende do texto para ser compreendida. A alternativa restringe o sentido da palavra, tratando-a como um termo fixo da língua.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O pleonasmo é a repetição de uma ideia com palavras diferentes (ex.: "subir para cima"). No trecho, não há repetição de ideia; há uma comparação implícita entre o pensamento e uma ponte. A alternativa tangencia o tema, pois o pleonasmo é uma figura de construção, não de palavra, e não se aplica ao trecho.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece figuras de palavras que podem confundir o candidato, como a catacrese (metáfora cristalizada) e a metonímia (substituição por proximidade). A chave é identificar que "ponte" é uma comparação implícita e criativa, não um termo fixo ou uma substituição por contiguidade.

PEGA ESSA DICA!

Para diferenciar metáfora de catacrese, pergunte: "essa comparação é criativa e depende do contexto, ou é um termo já incorporado ao uso cotidiano?". Se for criativa, é metáfora; se for cristalizada, é catacrese.

Gabarito: letra C. A palavra "ponte" é empregada em sentido metafórico, pois o autor compara implicitamente o pensamento a uma ponte, sem usar conectivo comparativo, transferindo o sentido de "ligação" para o campo abstrato.

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