Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2026
Português›Interpretação de Textos
Código
qg650178
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Caçapava - SP
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Professor II (PII) - Português
Leia o texto a seguir para responder à questão abaixo.
Começando pela cozinha
Sugeri, faz tempo, que para entrar numa
escola alunos e professores deveriam passar por
uma cozinha. Os cozinheiros podem dar lições
aos professores. Foi na cozinha que a Babette e a
Tita realizaram suas feitiçarias. Babette e Tita,
feiticeiras, sabiam que os banquetes não se
iniciam com a comida que se serve. Eles se
iniciam com a fome. A verdadeira cozinheira é
aquela que sabe a arte de produzir fome.
Toda experiência de aprendizagem se
inicia com uma experiência afetiva. É a fome que
põe em funcionamento o aparelho pensador. Eu
era menino. Ao lado da pequena casa onde eu
morava havia um pomar enorme que eu devorava
com os olhos. Pois aconteceu que uma árvore
cujos galhos chegavam a dois metros do muro se
cobriu de frutinhas que eu não conhecia. Eram
pequenas, redondas, vermelhas, brilhantes. A
simples visão daquelas pitangas provocou o meu
desejo. Eu queria comê-las. E foi então que,
provocada pelo meu desejo, minha máquina de
pensar se pôs a funcionar.
O pensamento é a ponte que o corpo
constrói a fim de chegar ao objeto do seu desejo.
Se eu não tivesse visto e desejado as ditas
pitangas minha máquina de pensar teria
permanecido parada. Imagine que a vizinha, ao
ver os meus olhos desejantes, com dó de mim,
tivesse me dado um punhado das pitangas. Nesse
caso também minha máquina de pensar não teria
funcionado. Meu desejo teria se realizado por
meio de um atalho sem que eu tivesse tido
necessidade de pensar.
Se o desejo for satisfeito a máquina de
pensar não pensa. A maneira mais fácil de abortar
o pensamento é realizando o desejo. Esse é o
pecado de muitos pais e professores que ensinam
as respostas antes que tivesse havido as
perguntas. (...) Mas o desejo continuou e tratei de
encontrar outra solução: “construa uma
maquineta de roubar pitangas”. (...)
A cabeça não pensa aquilo que o coração
não pede. Conhecimentos que não são nascidos
do desejo são como uma maravilhosa cozinha na
casa de um homem que sofre de anorexia. Homem sem fome: o fogão nunca será aceso. O
banquete nunca será servido. Dizia Miguel de
Unamuno: “saber por saber: isso é inumano…”.
A tarefa do professor é a mesma da cozinheira:
antes de dar a faca e o queijo ao aluno, deve
provocar a fome.
ALVES, Rubem. Começando pela cozinha. Revista
Educação. Disponível em
https://revistaeducacao.com.br/2012/04/30/comecando-pela-cozinha/.
Em relação ao texto “Começando pela cozinha”, é correto afirmar que o autor:
Adesenvolve um raciocínio com o tema principal da educação, com base em comparações e sua experiência pessoal.
Bdesenvolve um raciocínio com o tema principal da culinária, com base em comparações e experiências de outras pessoas.
Cdesenvolve um raciocínio com o tema principal sobre como furtar frutas, com base em sua experiência pessoal.
Ddefende a ideia de que a educação não tem nenhuma relação com a gastronomia, sendo a primeira superior à segunda.
Edefende a ideia de que a educação é capaz de endireitar as pessoas, evitando que elas furtem frutas nas árvores vizinhas.
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GabaritoA — desenvolve um raciocínio com o tema principal da educação, com base em comparações e sua experiência pessoal.
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Tema Central e Estratégia Argumentativa em "Começando pela Cozinha"
Gabarito: letra A. O autor desenvolve um raciocínio cujo tema principal é a educação, utilizando comparações (a cozinha, a fome, o pomar) e sua experiência pessoal (a história das pitangas) como base argumentativa. A alternativa correta é a única que captura o verdadeiro assunto do texto — a aprendizagem — e os recursos usados para defendê-lo, como se prova na passagem: "A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar a faca e o queijo ao aluno, deve provocar a fome".
O Comando: Compreensão Global do Texto
O enunciado pede que se identifique uma afirmação correta sobre o texto como um todo. Isso é uma questão de compreensão (e não de inferência): a resposta deve estar explícita ou ser uma paráfrase fiel do que o autor desenvolve. Não se trata de deduzir algo além do texto, mas de reconhecer o tema central, a tese e os recursos argumentativos utilizados. A banca testa se o candidato consegue distinguir o assunto principal (educação) dos elementos ilustrativos (culinária, frutas) e das distorções (furto, superioridade da educação).
O Texto: Tema, Tese e Movimento Argumentativo
O texto de Rubem Alves é uma dissertação argumentativa disfarçada de crônica. O autor parte de uma sugestão metafórica — "passar por uma cozinha" — para defender uma tese sobre o ensino: a aprendizagem só acontece quando há desejo (fome). O movimento é claro:
Introdução: propõe a metáfora da cozinha e da fome como ponto de partida para a aprendizagem.
Desenvolvimento: narra a experiência pessoal com as pitangas para ilustrar como o desejo aciona o pensamento.
Conclusão: aplica a metáfora à educação, afirmando que o professor deve "provocar a fome" antes de ensinar.
A tese está explícita no último parágrafo: "A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar a faca e o queijo ao aluno, deve provocar a fome". Essa frase amarra todo o raciocínio: o tema é a educação, e a comparação com a cozinha é apenas um recurso argumentativo.
A Técnica: Identificar o Tema Central e os Recursos Argumentativos
Para resolver questões de tema central, pergunte: sobre o que o texto fala do início ao fim? O tema é o assunto geral, enquanto a tese é a opinião do autor sobre esse assunto. Aqui, o tema é a educação (a aprendizagem), e a tese é que ela depende do desejo. Os elementos de culinária e frutas são comparações (metáforas) que ilustram a tese, não o tema em si.
A experiência pessoal é outro recurso: o autor narra sua infância com as pitangas para dar concretude ao argumento. Isso é típico de textos argumentativos que usam exemplos pessoais como estratégia de persuasão.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece alternativas que focam em elementos periféricos (culinária, furto) ou distorcem a tese, testando se o candidato identifica o verdadeiro tema (educação) e os recursos usados.
PEGA ESSA DICA!
Ao ler o texto, sublinhe a frase que resume a opinião do autor (geralmente na introdução ou conclusão). Ela revela o tema e a tese.
Tema central
1Educação (aprendizagem)
2Tese: depende do desejo ("provocar a fome")
3Recursos argumentativos
Comparações (cozinha, fome, banquete)
Experiência pessoal (pitangas)
4Estrutura
Introdução: metáfora da cozinha
Desenvolvimento: narrativa pessoal
Conclusão: aplicação à educação
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que o autor "desenvolve um raciocínio com o tema principal da educação, com base em comparações e sua experiência pessoal". Isso é exatamente o que o texto faz:
Tema principal da educação: a tese sobre aprendizagem e desejo.
Comparações: a cozinha, a fome, o banquete, a anorexia.
Experiência pessoal: a história das pitangas.
A passagem que prova é a conclusão: "A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar a faca e o queijo ao aluno, deve provocar a fome". O autor compara o professor à cozinheira e usa sua experiência (as pitangas) para defender a tese. Nenhuma outra alternativa captura esses três elementos simultaneamente.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: troca de tema (tangenciamento). A alternativa diz que o tema principal é a culinária. Embora o texto comece falando de cozinha, isso é apenas uma metáfora para falar de educação. O autor não está ensinando a cozinhar; está usando a cozinha como comparação. Além disso, a alternativa diz "experiências de outras pessoas", mas o texto usa a experiência pessoal do autor (as pitangas). A passagem "Eu era menino" mostra que é uma experiência própria.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação e troca de tema. A alternativa afirma que o tema é "como furtar frutas". O texto narra o desejo de comer pitangas, mas não ensina a furtá-las. O autor até menciona "construa uma maquineta de roubar pitangas", mas isso é uma solução imaginada, não o tema central. O foco é o pensamento que o desejo desperta, não o ato de furtar. A alternativa extrapola ao transformar um exemplo em tema.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que "a educação não tem nenhuma relação com a gastronomia, sendo a primeira superior à segunda". O texto faz exatamente o oposto: usa a gastronomia como metáfora para a educação, estabelecendo uma relação de analogia, não de superioridade. A passagem "A tarefa do professor é a mesma da cozinheira" mostra que o autor vê uma semelhança entre as duas, não uma hierarquia.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação e opinião embutida. A alternativa afirma que "a educação é capaz de endireitar as pessoas, evitando que elas furtem frutas nas árvores vizinhas". O texto não menciona "endireitar" pessoas nem discute furto como problema moral. A história das pitangas é usada para ilustrar o desejo e o pensamento, não para falar de correção de caráter. A alternativa extrapola ao acrescentar uma ideia que não está no texto.
Conclusão
A questão testa a habilidade de identificar o tema central e os recursos argumentativos. A alternativa A é a única que sintetiza corretamente o assunto (educação) e os meios usados (comparações e experiência pessoal). As demais ou trocam o tema, ou extrapolam, ou contradizem o texto.