Questão de Medicina — Neurologia — Avança SP 2026
- Código
- qg654514
- Banca
- Avança SP
- Órgão
- Prefeitura de Vinhedo - SP
- Ano
- 2026
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Neurologista
- ADopamina.
- BSerotonina.
- CGlicina.
- DHipocretina.
- EGABA.
GabaritoD — Hipocretina.
Gabarito: letra D. A doença paroxística descrita — ataques súbitos de perda bilateral do tônus muscular, sem alteração da consciência, desencadeados por emoções — é a cataplexia, manifestação cardinal da narcolepsia tipo 1, cuja fisiopatologia está diretamente ligada à deficiência do neurotransmissor hipocretina (também chamado orexina), produzido no hipotálamo lateral. As demais alternativas (dopamina, serotonina, glicina e GABA) estão associadas a outros distúrbios do movimento ou do humor, não à cataplexia.
A cataplexia é um dos sintomas mais característicos da narcolepsia, um distúrbio do sono de origem neurológica. O termo "cataplexia" vem do grego kataplexis (espanto, prostração) e designa episódios súbitos de fraqueza muscular bilateral, que podem variar de uma leve flacidez facial até a queda ao chão, sempre sem perda de consciência. Esses episódios são tipicamente desencadeados por emoções fortes, como riso, surpresa, raiva ou excitação. A perda do tônus muscular ocorre porque há uma ativação anormal dos mecanismos de inibição motora que normalmente acontecem durante o sono REM — é como se o cérebro "entrasse" em REM parcialmente, paralisando a musculatura, mas mantendo a pessoa acordada.
A hipocretina (ou orexina) é um neuropeptídeo produzido por neurônios localizados no hipotálamo lateral. Esses neurônios projetam-se para diversas regiões do cérebro e têm papel fundamental na regulação do ciclo sono-vigília, no apetite e no tônus muscular. Na narcolepsia tipo 1, há uma destruição autoimune desses neurônios produtores de hipocretina, resultando em níveis muito baixos ou indetectáveis do neuropeptídeo no líquido cefalorraquidiano (LCR). Essa deficiência leva à instabilidade dos estados de sono e vigília, permitindo que fragmentos de sono REM invadam a vigília — o que explica tanto a sonolência diurna excessiva quanto a cataplexia, as alucinações hipnagógicas e a paralisia do sono.
Para entender por que as outras alternativas estão incorretas, é preciso conhecer o papel de cada neurotransmissor:
Dopamina: está envolvida no controle motor fino, na motivação e no sistema de recompensa. Sua deficiência está classicamente associada à doença de Parkinson (tremor, rigidez, bradicinesia), não à cataplexia.
Serotonina: regula humor, apetite, sono e percepção da dor. Está implicada na depressão, ansiedade e enxaqueca, mas não na perda súbita do tônus muscular.
Glicina: é o principal neurotransmissor inibitório da medula espinhal e do tronco encefálico. Sua deficiência ou disfunção está relacionada a quadros de hiperecplexia (espasmos musculares exagerados), não à cataplexia.
GABA: é o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central. Está envolvido na ansiedade, epilepsia e no controle do tônus muscular de forma mais geral, mas não é o elo fisiopatológico central da cataplexia.
A banca explora justamente a confusão entre os neurotransmissores inibitórios (glicina e GABA) e a hipocretina. O candidato que sabe que a cataplexia envolve perda do tônus muscular pode ser tentado a escolher glicina ou GABA, por serem inibidores da motricidade. No entanto, a perda do tônus na cataplexia não é causada por excesso de inibição glicinérgica ou GABAérgica, mas sim pela falta de hipocretina, que normalmente estabiliza os estados de sono e vigília e inibe os episódios de REM durante a vigília. Sem hipocretina, os mecanismos de atonia do REM "vazam" para a vigília, causando a cataplexia.
Na prática clínica, o diagnóstico de narcolepsia tipo 1 é confirmado pela dosagem de hipocretina no LCR (níveis baixos, geralmente < 110 pg/mL) e pela polissonografia com teste de latências múltiplas do sono (TLMS), que mostra latência média de sono < 8 minutos e ≥ 2 episódios de REM no início do sono (SOREMPs). O tratamento inclui modafinil ou estimulantes para a sonolência, e antidepressivos (como venlafaxina) ou oxibato de sódio para a cataplexia.
Guarde a associação direta: cataplexia → narcolepsia tipo 1 → deficiência de hipocretina. É esse o critério que separa a alternativa correta das demais.
A dopamina está relacionada ao controle motor e à via nigroestriatal. Sua deficiência causa doença de Parkinson (tremor, rigidez, bradicinesia), não cataplexia. A banca pode tentar confundir o candidato que associa "perda de tônus muscular" com distúrbios do movimento, mas a cataplexia não é um distúrbio dopaminérgico.
A serotonina está envolvida na regulação do humor, sono e apetite. Sua disfunção está ligada à depressão, ansiedade e enxaqueca, não à perda súbita do tônus muscular. Embora a serotonina participe da regulação do sono, não é o neurotransmissor cuja deficiência causa cataplexia.
A glicina é o principal neurotransmissor inibitório da medula espinhal e do tronco encefálico. Sua disfunção está associada à hiperecplexia (espasmos musculares súbitos), que pode ser confundida com cataplexia, mas a fisiopatologia é diferente: na hiperecplexia há hiperatividade do reflexo de sobressalto, enquanto na cataplexia há perda do tônus por desregulação do REM. A deficiência de glicina não é o mecanismo da cataplexia.
A hipocretina (orexina) é o neurotransmissor cuja deficiência está diretamente implicada na fisiopatologia da cataplexia, sintoma da narcolepsia tipo 1. A destruição dos neurônios hipocretinérgicos do hipotálamo lateral leva à instabilidade do ciclo sono-vigília e à intrusão de REM na vigília, causando a perda súbita do tônus muscular desencadeada por emoções.
O GABA é o principal neurotransmissor inibitório do SNC e está envolvido na ansiedade, epilepsia e no controle geral do tônus muscular. No entanto, a cataplexia não é causada por deficiência de GABA, mas sim pela falta de hipocretina. A banca pode tentar confundir o candidato que pensa em "inibição" como causa da paralisia muscular, mas o mecanismo é outro.
Gabarito: letra D — a hipocretina é o neurotransmissor cuja deficiência está mais diretamente implicada na fisiopatologia da cataplexia, característica da narcolepsia tipo 1.
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