Questão de Medicina — Pneumologia — Avança SP 2026
Medicina›Pneumologia
Código
qg654615
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Vinhedo - SP
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico Pneumologista
Assinale a alternativa correta sobre anatomia funcional das vias aéreas e sua relação com a fisiologia do fluxo respiratório:
AA maior parcela da resistência ao fluxo em repouso concentra-se nas vias aéreas periféricas (<2 mm), pela elevada área de secção total e baixo calibre individual.
BA cartilagem traqueobrônquica mantém patência até bronquíolos terminais, reduzindo colapso dinâmico durante expiração forçada.
CO epitélio pseudoestratificado ciliado com células caliciformes predomina até bronquíolos respiratórios, sustentando depuração mucociliar distal.
DA musculatura lisa brônquica tem maior impacto sobre o tônus das vias de médio calibre, modulando resistência especialmente em condições obstrutivas.
EA ventilação alveolar depende primariamente de variações de volume no espaço morto anatômico, com efeito direto na PaCO₂.
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GabaritoD — A musculatura lisa brônquica tem maior impacto sobre o tônus das vias de médio calibre, modulando resistência especialmente em condições obstrutivas.
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Anatomia funcional das vias aéreas e fisiologia do fluxo respiratório
Gabarito: letra D. A musculatura lisa brônquica, presente em maior quantidade nas vias de médio calibre (brônquios segmentares e subsegmentares), é o principal modulador do tônus dessas vias, e sua contração (broncoconstrição) aumenta a resistência ao fluxo aéreo, especialmente em condições obstrutivas como asma e DPOC. As demais alternativas contêm erros conceituais: a maior resistência em repouso está nas vias centrais, a cartilagem não chega aos bronquíolos terminais, o epitélio ciliado não predomina até os bronquíolos respiratórios, e a ventilação alveolar não depende primariamente do espaço morto anatômico.
Para entender a questão, é preciso dominar a relação entre a estrutura das vias aéreas e a resistência ao fluxo. A árvore brônquica é um sistema de tubos que se ramificam dicotomicamente, dividido em zona de condução (da traqueia aos bronquíolos terminais, cerca de 15 gerações) e zona respiratória (bronquíolos respiratórios, ductos alveolares e alvéolos). A resistência ao fluxo aéreo é determinada principalmente pelo raio das vias, mas, surpreendentemente, a maior resistência em repouso não está nas pequenas vias periféricas, e sim nas vias centrais. Isso ocorre porque, embora cada bronquíolo periférico seja estreito, o número enorme dessas vias em paralelo cria uma área de secção transversal total muito maior que a da traqueia (2,5 cm² na traqueia versus cerca de 300 cm² nos ductos alveolares). Por isso, cerca de 80% da resistência ao fluxo em repouso concentra-se nas primeiras sete gerações de brônquios, e as vias periféricas (<2 mm) contribuem com apenas 20%.
A musculatura lisa brônquica é um componente-chave da parede das vias aéreas. Ela está presente desde a traqueia até os bronquíolos terminais, mas é particularmente desenvolvida nos brônquios de médio calibre (segmentares e subsegmentares). Essa musculatura, ao se contrair, reduz o diâmetro da via e aumenta a resistência ao fluxo. Em condições obstrutivas, como asma, a broncoconstrição é um dos principais mecanismos de aumento da resistência, juntamente com edema de mucosa e hipersecreção de muco. A alternativa D captura exatamente esse papel: a musculatura lisa tem maior impacto sobre o tônus das vias de médio calibre, modulando a resistência especialmente em condições obstrutivas.
A cartilagem, por sua vez, tem função de manter a patência das vias aéreas, mas sua distribuição não se estende até os bronquíolos terminais. Ela está presente na traqueia (em formato de U), nos brônquios principais (anéis circunferenciais) e vai se tornando mais escassa e fragmentada à medida que as vias se ramificam, desaparecendo completamente ao nível dos bronquíolos. Nos bronquíolos, a patência é mantida principalmente pela tração elástica do parênquima pulmonar circundante, e não por cartilagem. Essa ausência de cartilagem nos bronquíolos torna essas vias mais suscetíveis ao colapso dinâmico durante a expiração forçada, especialmente em doenças como DPOC, onde há perda de retração elástica.
O epitélio das vias aéreas também tem distribuição específica. O epitélio pseudoestratificado ciliado com células caliciformes (produtoras de muco) reveste a traqueia e os brônquios, mas vai se tornando mais simples à medida que as vias se ramificam. Nos bronquíolos, o epitélio é colunar simples ou cúbico, com células de Clara (que secretam substâncias surfactantes e têm função de reparo), e as células caliciformes desaparecem. Nos bronquíolos respiratórios, o epitélio é ainda mais fino, e a depuração mucociliar é menos eficiente. Portanto, a afirmação de que o epitélio pseudoestratificado ciliado predomina até os bronquíolos respiratórios está incorreta.
Por fim, a ventilação alveolar (VA) é o volume de ar que chega aos alvéolos por minuto e participa das trocas gasosas. Ela é calculada como a diferença entre a ventilação minuto (volume corrente × frequência respiratória) e a ventilação do espaço morto (volume de espaço morto × frequência respiratória). A relação entre VA e PaCO₂ é inversa: quanto maior a VA, menor a PaCO₂, conforme a equação PaCO₂ = (VCO₂/VA) × K. O espaço morto anatômico é o volume das vias de condução que não participa das trocas, mas a ventilação alveolar não depende primariamente de variações no espaço morto; ela depende do volume corrente e da frequência respiratória, e o espaço morto é um fator que reduz a eficiência da ventilação. A alternativa E inverte essa relação.
A pegadinha central desta questão é a inversão do conceito de resistência: o candidato pode assumir que, por serem estreitas, as vias periféricas oferecem maior resistência, mas a fisiologia mostra o contrário devido à área de secção total. Guarde esse princípio: resistência em repouso é dominada pelas vias centrais; as vias periféricas são o "espaço silencioso" do pulmão, onde a doença obstrutiva precoce pode se instalar sem alterar a resistência total até estágios avançados.
Alternativa
Afirmação
Veredito
Erro conceitual
A
Maior resistência em repouso nas vias periféricas (<2 mm)
❌ Incorreta
A maior resistência está nas vias centrais; a elevada área de secção total das vias periféricas reduz a resistência
B
Cartilagem mantém patência até bronquíolos terminais
❌ Incorreta
A cartilagem desaparece nos bronquíolos; a patência distal depende da tração elástica do parênquima
C
Epitélio pseudoestratificado ciliado predomina até bronquíolos respiratórios
❌ Incorreta
Nos bronquíolos o epitélio é colunar/cúbico simples, com células de Clara e sem células caliciformes
D
Musculatura lisa tem maior impacto no tônus das vias de médio calibre
✅ Correta
Papel central na broncoconstrição e aumento da resistência em condições obstrutivas
E
Ventilação alveolar depende primariamente do espaço morto anatômico
❌ Incorreta
A VA depende do volume corrente e da frequência respiratória; o espaço morto é fator secundário
Vias aéreas: anatomia funcional: Resistência ao fluxo (Vias centrais (80% em repouso), Vias periféricas (20%, área total alta)); Cartilagem (Traqueia e brônquios, Ausente nos bronquíolos); Epitélio (Pseudoestratificado ciliado (traqueia/brônquios), Cúbico com células de Clara (bronquíolos)); Musculatura lisa (Maior impacto no médio calibre, Broncoconstrição em asma/DPOC); Ventilação alveolar (Depende de volume corrente e frequência, PaCO₂ inversamente proporcional à VA)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a maior parcela da resistência ao fluxo em repouso concentra-se nas vias aéreas periféricas (<2 mm), pela elevada área de secção total e baixo calibre individual. O erro está em atribuir a maior resistência às vias periféricas. Na verdade, a elevada área de secção total das vias periféricas é justamente o que torna sua resistência baixa: o fluxo de ar se distribui por milhares de vias em paralelo, reduzindo a resistência individual. Cerca de 80% da resistência em repouso está nas primeiras sete gerações de brônquios (vias centrais), e as vias periféricas contribuem com apenas 20%. A alternativa inverte a relação entre área de secção e resistência.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que a cartilagem traqueobrônquica mantém patência até bronquíolos terminais, reduzindo colapso dinâmico durante expiração forçada. O erro está na extensão da cartilagem: ela está presente na traqueia e nos brônquios, mas desaparece ao nível dos bronquíolos (a partir dos bronquíolos, não há cartilagem). Nos bronquíolos terminais, a patência é mantida pela tração elástica do parênquima pulmonar, e não por cartilagem. Além disso, a ausência de cartilagem nos bronquíolos os torna mais suscetíveis ao colapso dinâmico durante a expiração forçada, não menos. A alternativa confunde a distribuição da cartilagem e seu papel.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que o epitélio pseudoestratificado ciliado com células caliciformes predomina até bronquíolos respiratórios, sustentando depuração mucociliar distal. O erro está na extensão do epitélio pseudoestratificado: ele reveste a traqueia e os brônquios, mas nos bronquíolos o epitélio se torna mais simples (colunar simples ou cúbico), com células de Clara e ausência de células caliciformes. Nos bronquíolos respiratórios, o epitélio é ainda mais fino. A depuração mucociliar é eficiente nas vias centrais, mas menos eficiente nas vias distais. A alternativa superestima a extensão do epitélio pseudoestratificado ciliado.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que a musculatura lisa brônquica tem maior impacto sobre o tônus das vias de médio calibre, modulando resistência especialmente em condições obstrutivas. Esta afirmação está correta. A musculatura lisa está presente ao longo da árvore brônquica, mas é particularmente desenvolvida nos brônquios de médio calibre (segmentares e subsegmentares). Sua contração (broncoconstrição) reduz o diâmetro dessas vias e aumenta a resistência ao fluxo. Em condições obstrutivas, como asma e DPOC, a broncoconstrição é um mecanismo central de aumento da resistência, juntamente com edema e hipersecreção. A alternativa captura corretamente o papel da musculatura lisa na modulação do tônus e da resistência.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a ventilação alveolar depende primariamente de variações de volume no espaço morto anatômico, com efeito direto na PaCO₂. O erro está na relação causal: a ventilação alveolar (VA) é o volume de ar que chega aos alvéolos por minuto, calculado como (volume corrente − espaço morto) × frequência respiratória. Ela depende primariamente do volume corrente e da frequência respiratória, não de variações no espaço morto. O espaço morto anatômico é um fator que reduz a eficiência da ventilação, mas não é o determinante primário. A PaCO₂ é inversamente proporcional à VA (PaCO₂ = (VCO₂/VA) × K), mas a VA não depende primariamente do espaço morto. A alternativa inverte a relação entre ventilação alveolar e espaço morto.