Durante o atendimento a uma vítima de ferimento no tórax, o socorrista Lucas observa uma lesão aberta, com entrada e saída de ar a cada respiração, caracterizando uma ferida aspirativa.Ele reconhece que se trata de uma lesão com comunicação entre o espaço pleural e o meio externo, exigindo intervenção imediata.Diante dessa situação, qual conduta é a mais adequada?
ARealizar compressão direta com gaze seca até cessar a movimentação do ar.
BCobrir totalmente a ferida com compressa espessa, fixando em todas as bordas.
CInserir cânula traqueal ainda no local, sem proteção do ferimento.
DAdministrar oxigênio e aguardar evolução do quadro antes de intervir.
EAplicar um curativo de três pontas com plástico fino.
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GabaritoE — Aplicar um curativo de três pontas com plástico fino.
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Pneumotórax aberto: conduta no trauma torácico
Gabarito: letra E. No pneumotórax aberto (ferida aspirativa), a conduta imediata é aplicar um curativo oclusivo de três pontas, que permite a saída do ar na expiração e impede a entrada na inspiração, evitando a progressão para pneumotórax hipertensivo. Essa é a recomendação clássica do ATLS e de todos os manuais de trauma, e é exatamente o que a alternativa E descreve.
O pneumotórax aberto é uma emergência que ocorre quando uma lesão penetrante no tórax cria uma comunicação entre o espaço pleural e o meio externo. A cada inspiração, o ar é aspirado para dentro da cavidade pleural (por isso o nome "ferida aspirativa"), colapsando o pulmão e prejudicando a ventilação. Se essa comunicação não for selada, o ar continua entrando, e a pressão intrapleural pode se elevar a ponto de desviar o mediastino e comprometer o retorno venoso — evoluindo para um pneumotórax hipertensivo, que é fatal se não tratado.
O princípio do curativo de três pontas é engenhoso: ele é fixado em três lados, deixando uma borda livre. Na inspiração, a pressão negativa intrapleural "puxa" o curativo contra a ferida, vedando a entrada de ar. Na expiração, o ar acumulado empurra a borda livre, escapando para fora. Assim, o curativo funciona como uma válvula unidirecional: impede a entrada de ar, mas permite a saída, prevenindo o acúmulo progressivo e o pneumotórax hipertensivo. É por isso que a alternativa B (fixar em todas as bordas) é um erro grave: ela transforma o pneumotórax aberto em hipertensivo, pois o ar que entra não tem por onde sair.
O atendimento ao trauma torácico segue a lógica do ATLS: primeiro, garantir via aérea e oxigenação (máscara não reinalante com reservatório em todos os pacientes com suspeita de lesão torácica); depois, tratar as lesões que ameaçam a vida, como o pneumotórax aberto, com o curativo oclusivo de três pontas; e, em ambiente hospitalar, realizar a drenagem torácica definitiva. A conduta pré-hospitalar, portanto, é o curativo de três pontas — não a intubação imediata, não a simples observação, e não a compressão com gaze seca, que não sela a ferida.
A pegadinha desta questão está em distinguir o que é a conduta imediata no local do acidente (curativo de três pontas) do que é o tratamento definitivo hospitalar (drenagem torácica). A banca explora a confusão entre "cobrir a ferida" (que pode ser feito de forma errada, como na B) e "selar a ferida de forma valvulada" (que é o correto, como na E). Guarde a fronteira: no pneumotórax aberto, o curativo deve ser oclusivo e de três pontas — nunca totalmente vedado.
Pneumotórax aberto: Fisiopatologia (Comunicação pleura-meio externo, Ar entra na inspiração, Risco: hipertensivo); Conduta imediata (Curativo de três pontas, Vedagem total (todas as bordas)); Tratamento definitivo (Drenagem torácica)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A compressão direta com gaze seca não sela a ferida. A gaze é porosa e permite a passagem de ar, então a comunicação entre o espaço pleural e o meio externo continua, e o ar continua sendo aspirado a cada inspiração. Além disso, a compressão direta não é a técnica indicada para feridas torácicas aspirativas — ela é útil para controle de sangramentos externos, mas aqui o problema é a entrada de ar, não a hemorragia. O curativo deve ser oclusivo (impermeável ao ar), e a gaze seca não é.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Cobrir totalmente a ferida com compressa espessa e fixar em todas as bordas é o erro clássico e mais perigoso. Ao vedar completamente, o ar que entra na inspiração não tem por onde sair na expiração, acumulando-se progressivamente no espaço pleural. Isso converte o pneumotórax aberto em pneumotórax hipertensivo, uma condição muito mais grave, com desvio do mediastino, compressão do coração e do pulmão contralateral, e risco de parada cardiorrespiratória. A fixação deve ser em três pontas, deixando uma borda livre para funcionar como válvula de escape.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Inserir cânula traqueal (intubação) no local, sem proteger o ferimento, não trata a causa do problema. A intubação pode ser necessária em casos de insuficiência ventilatória grave, mas ela não sela a comunicação pleuro-cutânea — o ar continuará entrando pela ferida. Além disso, a intubação é um procedimento avançado, que exige material e treinamento específicos, e não é a primeira conduta no atendimento pré-hospitalar a uma ferida aspirativa. O passo imediato é o curativo oclusivo de três pontas; a intubação, se indicada, vem depois, e sempre associada à proteção do ferimento.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Administrar oxigênio e aguardar a evolução é conduta passiva e inadequada. O oxigênio é importante (todo paciente com suspeita de lesão torácica deve receber O2 por máscara não reinalante), mas ele não resolve a fisiopatologia do pneumotórax aberto: o ar continua entrando pela ferida a cada inspiração, colapsando o pulmão e podendo evoluir para hipertensivo. A conduta exige intervenção ativa imediata — o curativo de três pontas — e não apenas observação. Aguardar a evolução é perder tempo precioso em uma emergência que tem tratamento simples e eficaz.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O curativo de três pontas com plástico fino é exatamente a conduta preconizada. O plástico é oclusivo (impermeável ao ar), e a fixação em três lados cria uma válvula unidirecional: na inspiração, a pressão negativa puxa o curativo contra a ferida, vedando a entrada de ar; na expiração, o ar acumulado empurra a borda livre e escapa. Isso impede a progressão para pneumotórax hipertensivo e estabiliza o paciente até a drenagem torácica definitiva no hospital. É a aplicação direta do princípio fisiológico descrito no enunciado: a ferida tem entrada e saída de ar, e o curativo de três pontas regula exatamente esse fluxo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre "cobrir a ferida" e "selar a ferida de forma valvulada". A alternativa B parece razoável (cobrir totalmente), mas é justamente a mais perigosa: vedar todas as bordas transforma o pneumotórax aberto em hipertensivo. O candidato que não conhece o mecanismo da válvula de três pontas cai na B. Lembre-se: no pneumotórax aberto, o ar precisa de uma via de escape — por isso o curativo é de três pontas, nunca totalmente oclusivo.
PEGA ESSA DICA!
Para fixar, compare os três tipos de pneumotórax e suas condutas:
Tipo
Mecanismo
Conduta imediata
Aberto
Comunicação pleura-meio externo; ar entra e sai
Curativo oclusivo de três pontas
Hipertensivo
Ar entra, mas não sai; pressão aumenta
Descompressão por agulha (punção) no 2º EIC linha hemiclavicular
Simples
Ar no espaço pleural sem comunicação externa
Observação ou drenagem, conforme gravidade
O critério que separa o aberto do hipertensivo é a presença de comunicação com o meio externo e a capacidade de escape do ar. No aberto, o curativo de três pontas resolve; no hipertensivo, é preciso descomprimir com agulha. Grave essa diferença — é o que a banca cobra.