Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2026
Português›Interpretação de Textos
Código
qg655507
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Aparecida - SP
Ano
2026
Nível
Superior
Admirável mundo novo
Hoje é dia 29 de janeiro de 2059, data em
que completo meus 80 anos de vida. Acordo com
o barulho dos meus robôs de limpeza que,
devidamente programados, iniciam as tarefas 7h
da manhã.
Por algum motivo recordo da que
chamamos hoje de “a grande pandemia”,
ocorrida nos primeiros anos da década de 20...
talvez por lembrar que meus primeiros robôs de
limpeza – meros protótipos dos fantásticos
limpadores de hoje – foram adquiridos em 2020,
ano icônico em que tudo começou e que nem
imaginávamos o quanto mudaria a forma de
vermos o mundo dali para frente.
Na época eu era jovem – apesar de me
achar velha – e arrogante como a maioria dos
jovens, pensava que o mundo simplesmente não
poderia ser diferente do que já havia sido! Eu já
tinha vivido 41 anos nele daquele mesmo jeito,
como ele (o mundo) ousava ser diferente? Mas,
como diz aquele velho ditado, “O homem
planeja, Deus ri”..., e foi exatamente assim que
aconteceu: tudo que havíamos minuciosamente
planejado foi por água abaixo, tudo que
havíamos escolhido para nossas vidas teve que
ser reinventado e a adaptação ao admirável
mundo novo que surgia no horizonte foi condição
necessária para continuarmos vivendo. (...)
Mas, passou... Quase 30 anos depois
podemos olhar para trás e perceber que – apesar
de muitos continuarem vivendo sua vida do
mesmo jeito e terem passado
desapercebidamente por toda a grande pandemia
– a maioria de nós tem um olhar muito mais
sensível, apurado e crítico sobre a humanidade,
percebendo que todos somos um só e que – por
mais nojento que isso possa parecer – a barata
habita em mim e eu habito na barata (e em todos
os seres do universo).
Desculpem as divagações dessa senhora
de meia idade – sim, pois ainda tenho uns 50 anos
pela frente, a expectativa de vida aumentou
muito nos últimos tempos! Mas agora irei
levantar, fazer minha yoga, meditação e iniciar minhas atividades laborais – realizadas de dentro
da minha casa, desde aqueles longínquos anos
20...
“Desculpem as divagações dessa senhora de meia idade”
A palavra destacada no trecho acima faz referência a que tipo de pensamentos?
AConexos, organizados, que seguem um raciocínio lógico.
BBonitos, agradáveis, que apresentam beleza e perfeição.
CDesconexos, caóticos, que não seguem um raciocínio lógico.
DFeios, desagradáveis, que apresentam horror e nojo.
EInfantis, ingênuos, que ainda precisam amadurecer.
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GabaritoC — Desconexos, caóticos, que não seguem um raciocínio lógico.
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Significação Contextual de "Divagações"
Gabarito: letra C. A palavra "divagações" refere-se a pensamentos desconexos, caóticos, que não seguem um raciocínio lógico, pois o próprio texto, logo antes do trecho citado, apresenta uma sequência de lembranças e reflexões que saltam de um assunto a outro sem encadeamento linear — exatamente o que a autora reconhece ao pedir desculpas. A pista está na passagem em que ela se desculpa pelas "divagações" após narrar memórias da pandemia, reflexões sobre a humanidade e a metáfora da barata, sem uma linha argumentativa única.
O comando da questão é de compreensão de sentido contextual: pede-se o significado da palavra "divagações" no trecho, não o sentido de dicionário isolado. Isso muda tudo: a resposta não está na definição literal do vocábulo, mas no efeito de sentido que ele produz no texto. Para resolver, é preciso voltar ao parágrafo anterior e observar o que a autora acabou de escrever — e como ela mesma qualifica esse fluxo de pensamento.
No texto, a narradora, aos 80 anos, recorda a pandemia de 2020, fala da arrogância da juventude, cita o ditado "O homem planeja, Deus ri", reflete sobre a adaptação ao "admirável mundo novo", menciona a barata que habita em todos os seres e, só então, escreve: "Desculpem as divagações dessa senhora de meia idade". O trecho que antecede o pedido de desculpas é um emaranhado de memórias e reflexões que não seguem uma ordem cronológica ou lógica rígida — é isso que a autora chama de "divagações".
A técnica decisiva aqui é a coesão referencial e a progressão temática: a palavra "divagações" retoma, de forma resumida, todo o bloco anterior de pensamentos soltos. O leitor que percebe essa retomada entende que "divagações" = pensamentos que vagam, que divagam, sem rumo fixo. As alternativas que falam em "conexos", "bonitos", "feios" ou "infantis" atribuem ao termo qualidades que o texto não autoriza — são extrapolações que ignoram o contexto imediato.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora o sentido denotativo de "divagações" (vagar, desviar-se) e oferece distratores que apelam para juízos de valor (bonito/feio, infantil) que o texto não expressa. A correta é a única que capta o sentido conotativo e contextual: pensamentos sem encadeamento lógico.
Divagações (sentido contextual): O que o texto autoriza (Pensamentos soltos, Sem encadeamento lógico, Fluxo de memórias); O que o texto NÃO autoriza (Conexos/organizados, Bonitos/feios (juízo de valor), Infantis/ingênuos); Técnica de resolução (Coesão referencial (retoma o bloco anterior), Sentido conotativo, não denotativo)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que as divagações são "conexas, organizadas, que seguem um raciocínio lógico". Isso contradiz o texto: a autora pede desculpas justamente porque seus pensamentos não seguem uma linha lógica. O trecho anterior é um fluxo de memórias soltas (pandemia, juventude, ditado, barata), sem encadeamento racional. A alternativa inverte o sentido do termo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Dizer que são "bonitas, agradáveis, que apresentam beleza e perfeição" é acrescentar opinião que o texto não externa. A autora não qualifica suas divagações como belas ou perfeitas — ela apenas pede desculpas por elas. Não há nenhuma pista textual de valor estético positivo.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa correta capta o sentido contextual de "divagações": pensamentos desconexos, caóticos, que não seguem um raciocínio lógico. O texto confirma isso no trecho imediatamente anterior, em que a narradora salta de um assunto a outro (pandemia, juventude, ditado, barata) sem ordem lógica, e no próprio pedido de desculpas, que reconhece o caráter disperso do que foi escrito.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirmar que são "feias, desagradáveis, que apresentam horror e nojo" é extrapolar: o texto menciona a barata e o "nojento" em uma reflexão filosófica, mas isso não qualifica as divagações como feias ou desagradáveis. A autora não emite juízo de valor negativo sobre seus pensamentos — apenas reconhece que eles divagam.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Dizer que são "infantis, ingênuas, que ainda precisam amadurecer" é tangenciar o tema: o texto fala de uma senhora de 80 anos que reflete sobre a vida, não sobre pensamentos infantis. Não há nenhuma pista de imaturidade ou ingenuidade nas divagações — a alternativa foge ao que o texto aborda.
Conclusão: a questão se resolve pelo contexto imediato: "divagações" retoma o bloco anterior de pensamentos soltos e dispersos. A única alternativa que capta esse sentido é a C. Para questões de sentido contextual, sempre volte ao trecho anterior e posterior da palavra destacada — é lá que mora a resposta.