Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2026
Português›Interpretação de Textos
Código
qg655658
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Jeriquara - SP
Ano
2026
Nível
Médio
Férias em família
Crianças são seres engraçados e
peculiares. Eu adoro criança, acho engraçado
como cada uma tem seus medos bobos, sua forma
de chamar a atenção, suas birras, etc. Eu fui uma
criança chatinha. Não que eu me lembre da
minha infância toda, mas a minha família faz
questão de não me deixar esquecer.
Normalmente as famílias, quando se
reúnem, lembram nostalgicamente o quão lindos
eram os netos e filhos quando eram pequenos,
contam história engraçadas e se divertem. Se eu
disser que minha família não faz isso eu estaria
mentindo; ela até faz, mas só até chegar a hora de
lembrar a minha infância. Ninguém tem pudor,
eles não medem palavras pra dizer o tanto de
escândalo que eu fiz, o quanto eu nunca precisei
de motivos pra começar a chorar como se o
mundo estivesse acabando, o quanto eles tinham
certeza de que eu nunca na vida teria amigos, e
assim por diante.
Recentemente, em uma dessas reuniões,
eu fui apresentada a uma história nova da minha
infância. Enquanto lembrávamos saudosamente
o meu falecido avô, minha prima solta o nada
amigável comentário: "Não sei como sou sua
amiga até hoje, você é culpada pela única bronca
que eu levei do nosso avô!"
Esse tipo de comentário já nem me
surpreende mais, mas confesso que fiquei curiosa
pra saber o motivo da bronca. Em um estilo bem
dramático, típico de novelas mexicanas, ela me
contou que, em uma das férias que passávamos
juntos no Rio de Janeiro, ela estava conversando
com meu irmão sobre os ossos do corpo humano,
quando teve a infelicidade de dizer: "Por
exemplo, todo mundo tem fêmur, não é Clara?
Você tem um fêmur!"
Eu, que estava por perto sem a menor
pretensão de participar dessa conversa chata, que
nem entender eu conseguia, fui incluída no assunto da pior forma possível! O que diabos no
mundo é um fêmur? É o sucessor do bicho-papão
ou do boi da cara preta? Não tive dúvidas, fui
correndo e chorando (como em todas as histórias
da minha infância) contar pro meu avô que minha
prima estava me acusando de ter um fêmur sem
eu ter feito nada! Não deu outra, meu avô deu
uma bronca nela, afinal, ela é a mais velha, tinha
que tomar conta de mim e não ficar me
assuntando com essas palavras que parecem que
vão te engolir! (...)
Assinale a alternativa em que a palavra destacada está sendo empregada em sentido figurado.
A“Eu adoro criança, acho engraçado como cada uma tem seus medos bobos”.
B“a minha família faz questão de não me deixar esquecer”.
C“eu nunca precisei de motivos pra começar a chorar”.
D“eles não medem palavras pra dizer o tanto de escândalo que eu fiz”.
E“eu fui apresentada a uma história nova da minha infância”.
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GabaritoD — “eles não medem palavras pra dizer o tanto de escândalo que eu fiz”.
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Sentido Figurado vs. Literal: a expressão "não medir palavras"
Gabarito: letra D. A única palavra/expressão empregada em sentido figurado é "não medem palavras" (alternativa D), pois "medir" aqui não significa literalmente calcular dimensões, mas sim conter-se, dosar, poupar — a família não poupa palavras ao narrar as travessuras da autora. Como se lê no texto: "Ninguém tem pudor, eles não medem palavras pra dizer o tanto de escândalo que eu fiz". As demais alternativas usam as palavras em seu sentido próprio, literal.
O comando
A questão pede que você identifique a alternativa em que a palavra destacada está em sentido figurado (conotativo). Isso é diferente de uma questão de compreensão literal: aqui, o foco é o uso expressivo da linguagem, em que a palavra foge do seu significado de dicionário e ganha um sentido novo, dependente do contexto. A banca quer que você perceba quando uma expressão é idiomática — ou seja, cristalizada na língua com sentido próprio, que não se deduz da soma das palavras.
O texto
A crônica "Férias em família", de Clara Braga, narra, com humor, as lembranças que a família insiste em contar sobre a infância da autora. No trecho decisivo, ela afirma que os parentes não têm pudor e "não medem palavras" para descrever seus escândalos e choros. A expressão "não medir palavras" é uma metáfora lexicalizada: o verbo "medir" (que literalmente significa avaliar dimensões) é usado para indicar a ausência de filtro, de moderação ao falar. É exatamente esse deslocamento de sentido que caracteriza a conotação.
A técnica: denotação × conotação
Denotação: sentido literal, de dicionário, que independe do contexto. Ex.: "medir" = calcular o tamanho de algo.
Conotação: sentido figurado, criado pelo contexto. Ex.: "medir palavras" = ser cauteloso ao falar; "não medir palavras" = falar sem rodeios, sem se preocupar com o impacto.
A pegadinha clássica é tratar uma expressão idiomática como se fosse literal. Veja o quadro comparativo:
Expressão
Sentido literal
Sentido no texto
"não medem palavras"
não calculam o tamanho das palavras
não se contêm ao falar, dizem tudo sem filtro
"medos bobos"
medos tolos
medos tolos (literal)
"faz questão"
faz pergunta
insiste, dá importância (literal, embora idiomática)
"precisei de motivos"
necessitei de razões
necessitei de razões (literal)
"apresentada a uma história"
apresentada a um relato
conheceu um relato (literal)
Perceba que "fazer questão" e "ser apresentado a" também são expressões idiomáticas, mas seu sentido figurado já está tão incorporado ao uso cotidiano que são consideradas denotativas no contexto — não há desvio metafórico perceptível. Já "não medir palavras" mantém viva a imagem de medir (como se palavras fossem objetos mensuráveis), o que a torna claramente conotativa.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Eu adoro criança, acho engraçado como cada uma tem seus medos bobos"
"Medos bobos" está em sentido literal: medos que são tolos, sem importância. Não há desvio de sentido. O adjetivo "bobos" qualifica diretamente o substantivo "medos", sem metáfora. Erro: não é figurado.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"a minha família faz questão de não me deixar esquecer"
"Fazer questão" é uma expressão cristalizada que significa "insistir, dar importância". Embora tenha origem figurada, no uso corrente é considerada denotativa — não há imagem nova sendo criada. O sentido é direto: a família insiste em lembrar. Erro: expressão lexicalizada, sem valor conotativo perceptível.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"eu nunca precisei de motivos pra começar a chorar"
"Precisar de motivos" está em sentido literal: a autora não necessitava de razões para chorar. Não há desvio de sentido. Erro: uso próprio da palavra.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Ninguém tem pudor, eles não medem palavras pra dizer o tanto de escândalo que eu fiz"
A expressão "não medir palavras" é figurada: o verbo "medir" é usado metaforicamente para indicar falta de moderação ao falar. A família não calcula o tamanho das palavras; ela fala tudo o que pensa, sem filtro. É uma metáfora lexicalizada, mas com clara carga conotativa. É a única alternativa em que a palavra destacada foge do sentido literal.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"eu fui apresentada a uma história nova da minha infância"
"Ser apresentado a" significa "tomar conhecimento de", em sentido literal (embora idiomático). Não há desvio metafórico perceptível. Erro: uso denotativo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca aposta que você vai achar que "fazer questão" ou "ser apresentado a" são figurados por serem expressões idiomáticas. Mas o que caracteriza o sentido figurado é a imagem viva — e "não medir palavras" mantém a imagem de medir, enquanto as outras já perderam essa força.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar sentido figurado, pergunte: "a palavra pode ser entendida literalmente aqui?" Se sim, é denotação. Se não, e há uma imagem/metáfora, é conotação. "Medir palavras" não pode ser entendido literalmente — ninguém mede palavras com régua.