Questão de Medicina — Alergia e Imunologia — FUNDATEC 2026
Medicina›Alergia e Imunologia
Código
qg684378
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico (Alergia e Imunologia)
Uma mulher de 42 anos desenvolve exantema maculopapular generalizado, febre e eosinofilia periférica (1.200 células/µL) após 2 semanas de tratamento com carbamazepina para neuralgia trigeminal. Biópsia cutânea revela infiltração linfocítica perivascular com poucos eosinófilos, sem necrose epidérmica. Testes laboratoriais mostram IgE total normal, mas LTT positivo para carbamazepina. HLA tipagem revela B*15:02 positivo. Considerando os mecanismos de DHRs T-cell mediadas descritos em Pallardy et al. (2024), incluindo associações HLA restritas e o modelo p-i, qual é o mecanismo mais provável para essa reação, integrando evidências de predição genômica em populações asiáticas e baixa sensibilidade de testes in vitro como BAT para reações não IgE?
AHaptenização covalente da carbamazepina com proteínas endógenas, formando neoantígenos apresentados por HLA-A31:01, levando a expansão CD4+ Th2 com eosinofilia; recomendar screening HLA-A31:01 em todos os pacientes antes de iniciar.
BAtivação basófila não-IgE via MRGPRX2, mimetizando anafilaxia pseudoalérgica, com BAT como teste diagnóstico preferencial; evitar todos os antiepilépticos aromáticos sem testes adicionais.
CFormação de imunocomplexos IgG-carbamazepina, depositados em vasos cutâneos, causando vasculite com eosinofilia; usar ELISA para IgG específica como confirmação, e optar por dessensitização em reexposição.
DInteração farmacológica direta (p-i) da carbamazepina com TCR/HLA B15:02, ativando T-células CD8+ citotóxicas sem processamento do hapteno, com risco elevado em asiáticos; priorizar screening HLA B15:02 pré-tratamento para prevenção.
EReativação viral (HHV-6) induzindo deficiência Treg transitória, facilitando autoimunidade contra queratinócitos; monitorar FoxP3+ em biópsia para prever progressão a DRESS, evitando provocação oral.
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GabaritoD — Interação farmacológica direta (p-i) da carbamazepina com TCR/HLA B15:02, ativando T-células CD8+ citotóxicas sem processamento do hapteno, com risco elevado em asiáticos; priorizar screening HLA B15:02 pré-tratamento para prevenção.
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Reações de hipersensibilidade a drogas (DHRs) mediadas por células T: o modelo p-i e HLA-B*15:02
Gabarito: letra D. A carbamazepina, em paciente HLA-B15:02 positivo, desencadeia uma reação de hipersensibilidade do tipo IV mediada por células T CD8+ citotóxicas, ativadas por interação farmacológica direta (modelo p-i) entre a droga e o complexo TCR/HLA, sem necessidade de processamento antigênico (haptenização). O risco é particularmente elevado em populações asiáticas, e o screening pré-tratamento para HLA-B15:02 é a medida preventiva recomendada. Esta é a alternativa que integra corretamente os mecanismos descritos na literatura de imunologia de DHRs.
O caso clínico apresenta uma paciente com exantema maculopapular, febre e eosinofilia após uso de carbamazepina, com LTT positivo e HLA-B*15:02 positivo. Para entender o mecanismo, é preciso dominar a classificação das reações de hipersensibilidade a drogas (DHRs) mediadas por células T. Diferentemente das reações imediatas (tipo I, IgE-dependentes), as reações tardias (tipo IV) são mediadas por linfócitos T e podem ser subclassificadas em IVa (Th1, ativação de macrófagos), IVb (Th2, eosinofilia), IVc (CD8+ citotóxicos) e IVd (neutrófilos). A carbamazepina é um clássico indutor de reações cutâneas graves, como a síndrome de Stevens-Johnson (SJS) e a necrólise epidérmica tóxica (NET), que são mediadas predominantemente por células T CD8+ citotóxicas.
O modelo p-i (interação farmacológica direta) propõe que a droga, sem precisar ser metabolizada ou formar haptenos, liga-se diretamente ao complexo TCR-pMHC, ativando as células T de forma policlonal. No caso da carbamazepina, a associação com HLA-B*15:02 é fortíssima em populações asiáticas (especialmente Han chineses, tailandeses e malaios), com risco aumentado de SJS/NET. O LTT (teste de transformação linfocitária) positivo confirma a sensibilização de células T à droga, e a ausência de necrose epidérmica na biópsia, com infiltrado linfocítico perivascular, sugere uma reação mais branda (exantema maculopapular), mas o mecanismo subjacente é o mesmo: ativação de células T CD8+ via p-i.
A alternativa D é a única que captura todos os elementos: (1) interação farmacológica direta (p-i), (2) ativação de CD8+ citotóxicos, (3) associação com HLA-B*15:02, (4) risco elevado em asiáticos e (5) recomendação de screening pré-tratamento. As demais alternativas confundem mecanismos (haptenização, MRGPRX2, imunocomplexos, reativação viral) que não se aplicam a este caso, ou associam HLA incorreto (A31:01) ou testes inadequados (BAT, ELISA IgG).
A pegadinha central desta questão é a distinção entre os mecanismos de DHRs: a banca mistura conceitos de reações imediatas (IgE, basófilos, MRGPRX2) e tardias (células T), além de trocar os alelos HLA associados. O aluno precisa reconhecer que a carbamazepina, com HLA-B*15:02, ativa diretamente células T CD8+ via p-i, e não via haptenização (que seria mais relevante para outras drogas, como penicilinas) nem via mecanismos não-IgE (MRGPRX2).
Critério
Alternativa D (correta)
Alternativas A, B, C, E (incorretas)
Mecanismo imunológico
Interação farmacológica direta (p-i) entre carbamazepina e TCR/HLA-B*15:02
A: screening universal A31:01; B: evitar todos os antiepilépticos; C: dessensibilização; E: provocação oral (contraindicada)
DHRs mediadas por células T (tipo IV): Subclassificação (IVa (Th1 → macrófagos), IVb (Th2 → eosinofilia), IVc (CD8+ citotóxicos), IVd (neutrófilos)); Mecanismos de ativação (Haptenização (ligação covalente), Modelo p-i (interação direta TCR/HLA)); Carbamazepina + HLA-B*15:02 (Risco elevado em asiáticos, Ativa CD8+ via p-i, Screening pré-tratamento)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa A erra ao afirmar que o mecanismo é a haptenização covalente da carbamazepina com proteínas endógenas, formando neoantígenos apresentados por HLA-A31:01. Embora a carbamazepina possa, em alguns contextos, formar metabólitos reativos que se ligam covalentemente a proteínas (haptenização), o mecanismo predominante para a associação com HLA-B15:02 e reações graves é o modelo p-i, sem processamento do hapteno. Além disso, o alelo HLA associado à carbamazepina em populações asiáticas é o B15:02, não o A31:01 (que está mais associado a reações em populações europeias, mas com menor risco). A recomendação de screening para HLA-A31:01 em todos os pacientes também é incorreta: o screening é recomendado para HLA-B*15:02 em populações de risco (asiáticos), não para A31:01 de forma universal.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B confunde o mecanismo ao sugerir ativação basófila não-IgE via MRGPRX2, que é um receptor acoplado à proteína G expresso em mastócitos e basófilos, responsável por reações pseudoalérgicas imediatas (como as causadas por opioides ou contrastes). O caso descrito é uma reação tardia (exantema após 2 semanas), mediada por células T, não uma reação imediata. O BAT (teste de ativação de basófilos) é um teste diagnóstico para reações IgE-dependentes ou MRGPRX2-mediadas, não para reações tardias tipo IV. A recomendação de evitar todos os antiepilépticos aromáticos sem testes adicionais é excessiva e não reflete a prática clínica, que envolve screening HLA e avaliação individualizada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C propõe a formação de imunocomplexos IgG-carbamazepina, que causariam vasculite cutânea com eosinofilia. Este mecanismo corresponde a uma reação de hipersensibilidade tipo III (mediada por imunocomplexos), que se manifesta tipicamente como vasculite, glomerulonefrite ou doença do soro, e não como exantema maculopapular com eosinofilia e LTT positivo. O LTT positivo indica sensibilização de células T, característica de reação tipo IV, não de tipo III. Além disso, a biópsia cutânea mostrou infiltração linfocítica perivascular, sem evidência de vasculite (que exigiria necrose fibrinóide da parede vascular). O uso de ELISA para IgG específica não é um teste validado para DHRs tardias, e a dessensibilização não é indicada para reações graves como SJS/NET, sendo contraindicada.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa D está correta ao descrever o mecanismo p-i: a carbamazepina interage diretamente com o complexo TCR/HLA-B15:02, ativando células T CD8+ citotóxicas sem necessidade de processamento do hapteno. Este é o mecanismo mais aceito para a associação entre carbamazepina e SJS/NET em pacientes HLA-B15:02 positivos, especialmente em populações asiáticas. O risco elevado em asiáticos justifica a recomendação de screening pré-tratamento para HLA-B*15:02, que é uma medida preventiva estabelecida em diretrizes internacionais (como as da FDA e da CPIC). O LTT positivo confirma a sensibilização de células T, e a eosinofilia periférica pode ocorrer em reações tipo IV, embora o infiltrado predominante seja linfocítico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E sugere reativação viral (HHV-6) induzindo deficiência Treg transitória, facilitando autoimunidade contra queratinócitos. Embora a reativação do HHV-6 seja observada em alguns casos de DRESS (síndrome de hipersensibilidade a drogas com eosinofilia e sintomas sistêmicos), ela é uma consequência ou marcador da reação, não o mecanismo primário. O caso descrito não preenche critérios para DRESS (que exige envolvimento de múltiplos órgãos, linfadenopatia, etc.), e a biópsia não mostrou necrose epidérmica, o que afasta SJS/NET. A monitorização de FoxP3+ em biópsia não é um teste diagnóstico estabelecido para prever progressão a DRESS, e a provocação oral é contraindicada em reações graves. O mecanismo primário continua sendo a ativação de células T via p-i, não a reativação viral.