Questão de Medicina — Alergia e Imunologia — FUNDATEC 2026
Medicina›Alergia e Imunologia
Código
qg684381
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico (Alergia e Imunologia)
Uma mulher de 45 anos, com histórico remoto (>15 anos) de rash cutâneo maculopapular não pruriginoso após uso de amoxicilina para infecção dentária, sem anafilaxia, urticária, angioedema ou sintomas sistêmicos, consulta em atenção primária para avaliação de alergia à penicilina antes de cirurgia eletiva. Ela nega uso recente de antibióticos, tem comorbidades controladas (hipertensão) e exame físico normal. Testes laboratoriais mostram IgE total normal, sem eosinofilia. Considerando o protocolo de teste de provocação oral direto, integrando critérios de baixo risco (reação remota não grave, ausência de fatores de alto risco como Stevens-Johnson ou anafilaxia), evidências de segurança em atenção primária (taxa de reação grave <1% em 90% dos casos) e implicações para remoção da alergia no registro eletrônico de saúde para otimizar antibioticoterapia futura, qual é a abordagem inicial mais apropriada, priorizando minimização de riscos e acesso em populações com limitado encaminhamento a especialistas?
ARealizar teste cutâneo com penicilina seguido de TPO com dose graduada em ambiente hospitalar, pois estudos mostram superioridade diagnóstica em relação ao TPO isolado em pacientes com histórico remoto.
BRecomendar evitação perpétua de penicilinas e uso de cefalosporinas de terceira geração como alternativa, sem teste, devido ao risco residual de reação cruzada (5–10%) em alergias verdadeiras.
CPrescrever epinefrina autoinjetável profilática e realizar TPO domiciliar com amoxicilina 500 mg, com instruções para automonitoramento, para aumentar adesão em áreas rurais.
DEncaminhar imediatamente para alergista para teste cutâneo e TPO em série, pois atenção primária não tem evidências suficientes de segurança para TPO isolado em adultos com comorbidades.
EIniciar TPO com dose terapêutica única de amoxicilina 250 mg ambulatorial, com observação de 1 hora pós-TPO e follow-up telefônico em 1 semana e 6 meses, removendo a alergia do prontuário se negativo, alinhado ao protocolo para baixo risco.
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GabaritoE — Iniciar TPO com dose terapêutica única de amoxicilina 250 mg ambulatorial, com observação de 1 hora pós-TPO e follow-up telefônico em 1 semana e 6 meses, removendo a alergia do prontuário se negativo, alinhado ao protocolo para baixo risco.
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Alergia à penicilina: teste de provocação oral direto em baixo risco
Gabarito: letra E. Para paciente com histórico remoto (>15 anos) de rash maculopapular não pruriginoso, sem anafilaxia, urticária, angioedema ou sintomas sistêmicos, a abordagem mais apropriada é o teste de provocação oral (TPO) direto com dose terapêutica única de amoxicilina 250 mg em ambiente ambulatorial, com observação de 1 hora e follow-up telefônico, removendo a alergia do prontuário se negativo — alinhado aos protocolos de baixo risco e às evidências de segurança na atenção primária.
A alergia à penicilina é um dos diagnósticos mais superestimados na prática clínica. Estima-se que mais de 90% dos pacientes rotulados como alérgicos não tenham alergia verdadeira, e a maioria das reações relatadas são eventos benignos, como rash maculopapular tardio, que não configuram hipersensibilidade imediata mediada por IgE. O rótulo de alergia, no entanto, persiste no prontuário e leva ao uso de antibióticos alternativos, muitas vezes mais caros, menos eficazes e com maior espectro de resistência bacteriana. Por isso, a avaliação criteriosa e a remoção do rótulo quando apropriado são medidas de segurança do paciente e de saúde pública.
A chave para a decisão está na estratificação de risco. Pacientes com reação remota (>10 anos), não grave (sem anafilaxia, angioedema, urticária, síndrome de Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica, DRESS ou outras reações graves), sem uso recente de antibióticos e com exame físico normal são considerados de baixo risco. Para esses pacientes, os protocolos atuais — incluindo as diretrizes da Academia Americana de Alergia, Asma e Imunologia (AAAAI) e da Academia Europeia de Alergia e Imunologia Clínica (EAACI) — recomendam o TPO direto, sem necessidade de teste cutâneo prévio, como estratégia segura e eficiente. O teste cutâneo adiciona complexidade, custo e tempo, sem aumentar significativamente a segurança em pacientes de baixo risco, e pode ser reservado para casos de risco intermediário ou alto.
A segurança do TPO direto em atenção primária é respaldada por evidências robustas. Estudos demonstram que a taxa de reações graves durante o TPO em pacientes de baixo risco é inferior a 1%, e a maioria das reações é leve e autolimitada. A observação de 1 hora após a dose é suficiente para detectar reações imediatas, e o follow-up telefônico em 1 semana e 6 meses permite identificar reações tardias. Essa abordagem é particularmente valiosa em populações com acesso limitado a especialistas, pois evita encaminhamentos desnecessários e permite que a atenção primária resolva a questão de forma autônoma e segura.
A alternativa E espelha exatamente esse protocolo: TPO com dose terapêutica única de amoxicilina 250 mg, observação de 1 hora, follow-up telefônico e remoção da alergia do prontuário se negativo. É a conduta que minimiza riscos, otimiza o acesso e melhora a antibioticoterapia futura. As demais alternativas apresentam erros conceituais ou de conduta que as tornam inadequadas para este caso específico.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o paciente de baixo risco (que se beneficia do TPO direto) e o paciente de alto risco (que exige teste cutâneo e TPO em ambiente hospitalar). O enunciado descreve uma reação remota, não grave, sem fatores de alto risco — exatamente o perfil para TPO direto ambulatorial. Não se deixe levar pela alternativa A, que parece mais "completa" por incluir teste cutâneo, mas é desnecessária e até contraindicada nesse cenário.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que o teste cutâneo seguido de TPO em ambiente hospitalar é superior ao TPO isolado em pacientes com histórico remoto. Isso é falso: em pacientes de baixo risco, o TPO direto é tão seguro quanto o teste cutâneo seguido de TPO, e a realização de teste cutâneo adiciona custo, tempo e complexidade sem benefício clínico. O teste cutâneo é reservado para pacientes com risco intermediário ou alto, não para reações remotas e não graves. Além disso, o ambiente hospitalar é desnecessário para esse perfil, pois a taxa de reações graves é <1%.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Recomenda evitação perpétua de penicilinas e uso de cefalosporinas de terceira geração como alternativa, sem teste. Isso é uma conduta excessivamente conservadora e prejudicial: priva o paciente de um antibiótico de primeira linha, eficaz e barato, e aumenta o risco de resistência bacteriana. A reação descrita (rash maculopapular remoto, não pruriginoso) não contraindica o uso de penicilinas, e a evitação perpétua só se justifica em casos de reação grave confirmada. Além disso, a reação cruzada com cefalosporinas é baixa (<5%) e não justifica a troca sistemática.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Prescrever epinefrina autoinjetável profilática e realizar TPO domiciliar é uma conduta inadequada e perigosa. O TPO deve ser realizado em ambiente com supervisão médica e acesso a tratamento de emergência, não em domicílio. A epinefrina profilática não é indicada antes de TPO, pois pode mascarar reações e não previne anafilaxia. Além disso, a dose de 500 mg de amoxicilina é maior que a dose terapêutica única recomendada (250 mg) para TPO em baixo risco, e a observação de 1 hora pós-TPO é essencial, o que não é possível em domicílio.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Encaminhar imediatamente para alergista para teste cutâneo e TPO em série é desnecessário para este paciente de baixo risco. A atenção primária tem evidências suficientes de segurança para realizar TPO direto em adultos com comorbidades controladas, como hipertensão. O encaminhamento imediato a especialista é reservado para pacientes com risco intermediário ou alto, ou quando há dúvida diagnóstica. Neste caso, a reação remota e não grave permite a abordagem na atenção primária, otimizando o acesso e reduzindo custos.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Iniciar TPO com dose terapêutica única de amoxicilina 250 mg ambulatorial, com observação de 1 hora pós-TPO e follow-up telefônico em 1 semana e 6 meses, removendo a alergia do prontuário se negativo, é a conduta alinhada ao protocolo para baixo risco. Essa abordagem é segura (taxa de reação grave <1%), eficiente (resolve a questão na atenção primária) e otimiza a antibioticoterapia futura ao remover o rótulo de alergia. A dose de 250 mg é a dose terapêutica única recomendada para TPO direto, e o follow-up permite detectar reações tardias.