Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FUNDATEC 2026
- Código
- qg684409
- Banca
- FUNDATEC
- Órgão
- GHC-RS
- Ano
- 2026
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico (Anestesiologia Cardiovascular)
- AApenas I.
- BApenas II.
- CApenas III.
- DApenas II e III.
- EI, II e III.
GabaritoD — Apenas II e III.
Gabarito: letra D — estão corretas apenas as assertivas II e III. A assertiva I é falsa porque as plaquetas contribuem ativamente para a resposta inflamatória do CPB, sendo ativadas pelo contato com as superfícies artificiais do circuito. A assertiva II está correta: a exposição do sangue ao circuito extracorpóreo ativa as cascatas de coagulação, calicreína e complemento. A assertiva III está correta: a lesão de reperfusão é exatamente o dano tecidual causado pelo retorno do sangue após um período de isquemia.
A circulação extracorpórea (CEC) ou bypass cardiopulmonar é um procedimento que desvia o sangue do coração e dos pulmões, permitindo que uma máquina realize a oxigenação e a perfusão durante cirurgias cardíacas. O sangue é drenado do átrio direito ou veia cava, passa por um reservatório, um oxigenador, uma bomba centrífuga e um filtro arterial, e retorna ao paciente pela aorta. Todo esse circuito é composto por tubos de polivinilcloreto, conectores de policarbonato e o oxigenador — superfícies sintéticas que não são biologicamente inertes.
O contato do sangue com essas superfícies artificiais desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica, que é um dos principais desafios do CPB. Essa resposta envolve a ativação de múltiplos sistemas: a cascata de coagulação, o sistema calicreína-cinina, o sistema complemento, além de células como neutrófilos, monócitos e plaquetas. A magnitude dessa resposta é proporcional ao tempo de circulação extracorpórea, ou seja, quanto mais longo o procedimento, maior a ativação inflamatória e o risco de disfunção orgânica (miocárdica, pulmonar, renal, endotelial e do sistema nervoso central).
As plaquetas são protagonistas nesse processo. Ao entrar em contato com as superfícies artificiais, elas são ativadas, aderem ao circuito, liberam mediadores pró-inflamatórios e pró-coagulantes, e podem formar agregados. Por isso, a assertiva I, que nega a contribuição plaquetária, é completamente equivocada. Para minimizar essa ativação, utilizam-se circuitos revestidos com heparina (heparin coated), que aumentam a biocompatibilidade e reduzem a ativação de plaquetas, leucócitos e complemento. Além disso, o paciente é mantido sob anticoagulação estrita com heparina não fracionada, guiada pelo tempo de coagulação ativado (TCA), justamente para evitar a formação de trombos no circuito.
A lesão de reperfusão é um conceito fundamental em medicina. Durante o CPB, pode haver períodos de isquemia — por exemplo, quando o coração é parado para a cirurgia (cardioplegia) ou em cirurgias com parada circulatória total. Quando o sangue retorna ao tecido após esse período de privação de oxigênio, ocorre uma cascata de eventos que causa dano adicional: geração de espécies reativas de oxigênio, influxo de cálcio, ativação de neutrófilos e liberação de citocinas. Esse dano é a lesão de reperfusão, que pode afetar o miocárdio, os pulmões, os rins e outros órgãos. A assertiva III descreve exatamente esse fenômeno.
A banca explora aqui uma pegadinha clássica: o candidato pode achar que as plaquetas são apenas células da coagulação e não da inflamação, mas no contexto do CPB elas são peças-chave da resposta inflamatória. A distinção que importa é: coagulação e inflamação não são processos separados no CPB — eles estão intrinsecamente ligados pela ativação das plaquetas e das cascatas proteolíticas. Guarde essa interconexão: é ela que separa a assertiva I (falsa) das assertivas II e III (verdadeiras).
A assertiva afirma que "as plaquetas não contribuem para a resposta inflamatória do CPB". Isso é falso. As plaquetas são ativadas pelo contato com as superfícies artificiais do circuito, liberam mediadores pró-inflamatórios (como o fator plaquetário 4, beta-tromboglobulina e tromboxano A2), aderem ao circuito e interagem com leucócitos, amplificando a resposta inflamatória sistêmica. O próprio texto de apoio menciona que o revestimento com heparina serve para reduzir a ativação de plaquetas, leucócitos e complemento — ou seja, as plaquetas são um alvo terapêutico justamente porque participam ativamente do processo. A banca inverteu o papel das plaquetas para confundir o candidato.
A assertiva está correta. A exposição dos componentes sanguíneos às superfícies artificiais do circuito de CPB leva à ativação das cascatas de coagulação. O contato do sangue com o polivinilcloreto e outros materiais sintéticos ativa o fator XII (via intrínseca), desencadeando a cascata de coagulação, além de ativar o sistema calicreína-cinina e o complemento. Por isso, é obrigatória a anticoagulação com heparina não fracionada durante todo o procedimento, monitorada pelo TCA, para evitar a formação de trombos no circuito. A assertiva descreve com precisão um dos mecanismos centrais da resposta inflamatória do CPB.
A assertiva está correta. A lesão de reperfusão é o dano tecidual causado pelo sangue que retorna ao tecido após um período de isquemia ou falta de oxigênio. Esse fenômeno ocorre porque a reperfusão, embora necessária, desencadeia uma cascata de eventos nocivos: produção de espécies reativas de oxigênio, sobrecarga de cálcio intracelular, ativação de neutrófilos e liberação de citocinas pró-inflamatórias. No contexto do CPB, a lesão de reperfusão pode afetar o miocárdio após a cardioplegia, os pulmões após o desmame da CEC, e outros órgãos. A definição apresentada está correta e é um conceito amplamente aceito em fisiopatologia.
Conclusão: corretos os itens II e III → portanto, a alternativa é a letra D.
Gabarito: letra D
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