Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FUNDATEC 2026
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
qg684499
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico (Clínica Médica)
Homem de 58 anos, etilista crônico, procura emergência por hematêmese volumosa e melena há 12 horas. Ao exame: PA 90/60 mmHg, FC 118 bpm, palidez e ascite moderada. Hemoglobina: 7,8 g/dL; INR: 1,8; plaquetas: 78.000/mm³. Após reposição volêmica inicial e início de vasoconstritor esplâncnico, é programada endoscopia digestiva alta. Sobre o manejo e a fisiopatologia da hemorragia digestiva alta em cirróticos, assinale a alternativa correta.
AA profilaxia antibiótica deve ser reservada apenas para pacientes com sinais clínicos de infecção ativa.
BA ligadura elástica de varizes esofágicas reduz a recorrência de sangramento, mas não influencia mortalidade.
CA transfusão de hemácias deve ter como meta hemoglobina acima de 10 g/dL, para evitar hipóxia tecidual.
DA hipertensão portal aumenta o gradiente de pressão portal-hepático, sendo valores acima de aproximadamente 12 mmHg associados ao risco de sangramento varicoso.
EA somatostatina e seus análogos atuam principalmente por aumento do fluxo portal e melhora da perfusão hepática.
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GabaritoD — A hipertensão portal aumenta o gradiente de pressão portal-hepático, sendo valores acima de aproximadamente 12 mmHg associados ao risco de sangramento varicoso.
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Hemorragia digestiva alta em cirróticos: fisiopatologia e manejo
Gabarito: letra D. A hipertensão portal eleva o gradiente de pressão entre a veia porta e as veias hepáticas (gradiente de pressão portal-hepático), e valores acima de aproximadamente 12 mmHg estão associados ao risco de sangramento varicoso — exatamente o que a alternativa D afirma. As demais alternativas distorcem conceitos centrais do manejo da hemorragia digestiva alta (HDA) em cirróticos, como profilaxia antibiótica, ligadura elástica, meta transfusional e mecanismo de ação dos vasoconstritores esplâncnicos.
A hemorragia digestiva alta varicosa é uma das emergências mais graves em pacientes com cirrose, com mortalidade superior a 30% em muitos estudos. O paciente do enunciado apresenta todos os sinais clássicos de hipertensão portal: ascite, trombocitopenia (78.000/mm³), coagulopatia (INR 1,8) e instabilidade hemodinâmica (PA 90/60 mmHg, FC 118 bpm). O entendimento da fisiopatologia é essencial: a cirrose aumenta a resistência ao fluxo sanguíneo no fígado, elevando a pressão na veia porta. Essa pressão elevada se transmite às veias colaterais, incluindo as varizes esofágicas, que se rompem quando o gradiente de pressão portal-hepático ultrapassa o limiar de aproximadamente 12 mmHg. Esse gradiente é a diferença entre a pressão da veia porta e a pressão das veias hepáticas (ou pressão venosa central, em algumas medições), e é o parâmetro fisiopatológico que melhor se correlaciona com o risco de sangramento varicoso.
O manejo da HDA varicosa segue uma sequência lógica: estabilização hemodinâmica, uso de vasoconstritores esplâncnicos (como terlipressina, somatostatina ou octreotida), profilaxia antibiótica, e endoscopia digestiva alta (EDA) para ligadura elástica das varizes. Cada uma dessas medidas tem um papel específico, e a banca explora justamente as confusões mais comuns: quando indicar antibiótico, qual a meta de hemoglobina, qual o efeito da ligadura na mortalidade, e como os vasoconstritores atuam.
Um ponto crucial é a meta transfusional. Estudos randomizados mostraram que uma estratégia transfusional restritiva (manter hemoglobina em torno de 7-8 g/dL) é superior à liberal (manter acima de 9-10 g/dL), reduzindo mortalidade e ressangramento, inclusive em cirróticos. Reposições volêmicas vigorosas podem aumentar a pressão portal e favorecer o ressangramento. Portanto, a alternativa C, que sugere meta acima de 10 g/dL, está incorreta.
Outro ponto é a profilaxia antibiótica. Em pacientes cirróticos com HDA, a profilaxia antibiótica é recomendada para todos, independentemente da presença de infecção ativa, pois reduz a incidência de infecções bacterianas (como peritonite bacteriana espontânea) e melhora a sobrevida. A alternativa A, que restringe a profilaxia apenas a pacientes com infecção ativa, está incorreta.
A ligadura elástica de varizes esofágicas é o tratamento endoscópico de escolha para a prevenção de ressangramento. Ela reduz a recorrência do sangramento e também melhora a mortalidade, contrariando a alternativa B, que afirma que não influencia a mortalidade.
Por fim, os vasoconstritores esplâncnicos, como a somatostatina e seus análogos, atuam reduzindo o fluxo sanguíneo portal e, consequentemente, a pressão portal. Eles não aumentam o fluxo portal, como afirma a alternativa E; pelo contrário, diminuem-no.
Guarde a fronteira entre o que aumenta e o que diminui a pressão portal, e entre meta restritiva e liberal: é exatamente nesses pares que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A profilaxia antibiótica na HDA em cirróticos é indicada para todos os pacientes, mesmo sem sinais de infecção ativa. O racional é que o sangramento digestivo alto favorece a translocação bacteriana e aumenta o risco de infecções graves, como peritonite bacteriana espontânea. Estudos mostram que a profilaxia reduz mortalidade e infecções. Portanto, restringir a profilaxia apenas a pacientes com infecção ativa é um erro.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A ligadura elástica de varizes esofágicas é o tratamento endoscópico de primeira linha para prevenção de ressangramento. Ela reduz a recorrência do sangramento e também melhora a mortalidade, pois diminui a mortalidade por sangramento varicoso. A alternativa afirma que não influencia a mortalidade, o que é falso.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A meta transfusional na HDA, inclusive em cirróticos, é restritiva: manter hemoglobina em torno de 7-8 g/dL. Estudos randomizados (como o estudo de Villanueva et al.) mostraram que meta liberal (acima de 9-10 g/dL) aumenta mortalidade e ressangramento. Portanto, a meta de hemoglobina acima de 10 g/dL está incorreta.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A hipertensão portal é definida pelo aumento do gradiente de pressão portal-hepático (diferença entre pressão da veia porta e pressão das veias hepáticas). Valores acima de aproximadamente 12 mmHg estão associados a risco aumentado de sangramento varicoso. Esse é um conceito fisiopatológico clássico e amplamente aceito. A alternativa D está correta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A somatostatina e seus análogos (como octreotida) atuam como vasoconstritores esplâncnicos, reduzindo o fluxo sanguíneo portal e, consequentemente, a pressão portal. Eles não aumentam o fluxo portal; pelo contrário, diminuem. A alternativa inverte o mecanismo de ação.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora inverter o mecanismo de ação dos vasoconstritores esplâncnicos (dizer que aumentam o fluxo portal) e trocar a meta transfusional (liberal em vez de restritiva). Fique atento: somatostatina diminui o fluxo portal; meta de hemoglobina é 7-8 g/dL, não >10.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de HDA em cirróticos, memorize o mnemônico CAMPER: Coagulopatia, Supressão do ácido, Terapia médica (vasoconstritores), Preparo pré-procedimento, Endoscopia e Técnica de resgate. E lembre: profilaxia antibiótica para todos, meta transfusional restritiva, ligadura elástica reduz mortalidade.