Questão de Medicina — Epidemiologia — FUNDATEC 2026
Medicina›Epidemiologia
Código
qg684517
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico (Clínica Médica)
Um teste diagnóstico para determinada doença apresenta sensibilidade de 90% e especificidade de 80%. Esse teste é aplicado em uma população assintomática, com baixa prevalência da doença, como estratégia de rastreamento. Nessa situação, qual é a principal consequência esperada da utilização do teste?
AAumento da proporção de resultados falso-positivos.
BElevada probabilidade pós-teste após resultado positivo.
CElevado valor preditivo positivo.
DAlta capacidade de confirmação diagnóstica.
ERedução do impacto da prevalência sobre os resultados.
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GabaritoA — Aumento da proporção de resultados falso-positivos.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Rastreamento e valores preditivos: o impacto da baixa prevalência
Gabarito: letra A. Em uma população assintomática com baixa prevalência da doença, mesmo um teste com sensibilidade de 90% e especificidade de 80% produzirá um grande número de resultados falso-positivos, superando em muito os verdadeiros positivos. Isso ocorre porque o valor preditivo positivo (VPP) depende diretamente da prevalência: quanto menor a prevalência, menor o VPP e maior a proporção de falso-positivos entre os resultados positivos.
O valor preditivo positivo é a probabilidade de um indivíduo com teste positivo realmente ter a doença. Ele é calculado como VP/(VP+FP). Diferentemente da sensibilidade e da especificidade, que são propriedades intrínsecas do teste, o VPP varia conforme a prevalência da doença na população testada. Em populações de baixa prevalência, a maioria dos resultados positivos será falso-positiva, mesmo que o teste tenha boa especificidade.
Vamos ilustrar com um exemplo numérico. Suponha uma população de 10.000 pessoas com prevalência de 1% (100 doentes e 9.900 não doentes). Com sensibilidade de 90%, o teste detectará 90 verdadeiros positivos (90% de 100). Com especificidade de 80%, o teste terá 20% de falso-positivos entre os não doentes, ou seja, 1.980 falso-positivos (20% de 9.900). Assim, teremos 90 verdadeiros positivos e 1.980 falso-positivos. O VPP seria 90/(90+1.980) = 4,3%. Ou seja, apenas 4,3% dos resultados positivos correspondem a pessoas realmente doentes; os outros 95,7% são falso-positivos.
Esse fenômeno é uma das principais limitações do rastreamento populacional. O rastreamento é uma estratégia que aplica um teste em uma população assintomática para detectar uma doença em estágio inicial. Quando a doença é rara, o número de falso-positivos tende a ser muito maior que o número de verdadeiros positivos, gerando ansiedade, exames complementares desnecessários e tratamentos indevidos — a chamada "cascata diagnóstica nociva".
A razão de verossimilhança positiva (LR+) também ajuda a entender esse fenômeno. Para o teste em questão, LR+ = sensibilidade/(1-especificidade) = 0,90/(1-0,80) = 4,5. Isso significa que um resultado positivo é 4,5 vezes mais provável em um doente do que em um não doente. No entanto, mesmo com essa LR+, a probabilidade pós-teste depende da probabilidade pré-teste. Se a prevalência é de 1%, a probabilidade pré-teste é 1%. Aplicando o nomograma de Fagan, uma LR+ de 4,5 eleva a probabilidade pós-teste para cerca de 4,3% — exatamente o VPP calculado. Ou seja, mesmo um teste positivo "bom" não consegue elevar a probabilidade o suficiente para confirmar o diagnóstico quando a prevalência é baixa.
A pegadinha desta questão está em confundir as propriedades intrínsecas do teste (sensibilidade e especificidade) com os valores preditivos, que dependem da prevalência. A banca explora exatamente essa confusão: o candidato pode pensar que um teste com alta sensibilidade e especificidade terá alto VPP, mas isso só é verdade em populações de alta prevalência. Em baixa prevalência, o VPP é baixo e a proporção de falso-positivos é alta.
Guarde a fronteira entre propriedades intrínsecas (sensibilidade/especificidade) e propriedades dependentes da prevalência (VPP/VPN): é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Doente
Não doente
Teste negativo
Verdadeiro positivo
Falso positivo
Teste positivo
Falso negativo
Verdadeiro negativo
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Em baixa prevalência, o número de falso-positivos supera em muito o número de verdadeiros positivos, aumentando a proporção de resultados falso-positivos entre todos os resultados positivos. No exemplo acima, com prevalência de 1%, apenas 4,3% dos positivos eram verdadeiros; os outros 95,7% eram falso-positivos. Essa é a principal consequência esperada do rastreamento em população de baixa prevalência.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A probabilidade pós-teste após um resultado positivo é BAIXA, não elevada, em populações de baixa prevalência. Como demonstrado, com prevalência de 1% e LR+ de 4,5, a probabilidade pós-teste é de apenas 4,3%. A alternativa inverte o efeito da baixa prevalência sobre a probabilidade pós-teste.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O valor preditivo positivo é BAIXO em populações de baixa prevalência, não elevado. O VPP é diretamente proporcional à prevalência: quanto menor a prevalência, menor o VPP. A alternativa confunde as propriedades intrínsecas do teste (sensibilidade/especificidade) com o VPP, que depende da prevalência.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O teste não tem alta capacidade de confirmação diagnóstica em baixa prevalência. A confirmação diagnóstica depende do VPP, que é baixo nesse cenário. Um resultado positivo não confirma a doença; ele apenas aumenta modestamente a probabilidade, que permanece baixa. A alternativa ignora o impacto da prevalência sobre o valor preditivo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A prevalência tem grande impacto sobre os resultados do teste, especialmente sobre os valores preditivos. O VPP e o VPN variam diretamente com a prevalência. A alternativa afirma o oposto, sugerindo que o teste reduziria o impacto da prevalência, o que é falso.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre propriedades intrínsecas do teste (sensibilidade e especificidade) e propriedades dependentes da prevalência (VPP e VPN). O candidato pode pensar que um teste com alta sensibilidade e especificidade terá alto VPP, mas isso só ocorre em populações de alta prevalência. Em baixa prevalência, o VPP é baixo e a proporção de falso-positivos é alta. Lembre-se: sensibilidade e especificidade são fixas para o teste, mas o VPP e o VPN mudam conforme a prevalência da população testada.
PEGA ESSA DICA!
Para resolver questões sobre valores preditivos, monte uma tabela 2x2 com uma população hipotética (ex.: 10.000 pessoas) e uma prevalência dada. Calcule VP, FP, FN e VN usando sensibilidade e especificidade. Depois, calcule VPP = VP/(VP+FP) e VPN = VN/(VN+FN). Esse método evita erros conceituais e mostra claramente o impacto da prevalência.