Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FUNDATEC 2026
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
qg684585
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico (Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista)
Mulher, 48 anos, previamente hígida, refere cansaço progressivo aos esforços há cerca de 1 ano, evoluindo recentemente com dispneia aos pequenos esforços, ortopneia e episódios ocasionais de palpitações. Nega dor torácica ou síncope e foi submetida a cateterismo cardíaco direito e esquerdo, cujas curvas de pressão estão demonstradas na Figura 8 a seguir:Com base nos achados clínicos e hemodinâmicos apresentados, assinale a alternativa que indica, respectivamente, o diagnóstico e o principal mecanismo fisiopatológico envolvido.
AEstenose mitral grave – presença de gradiente diastólico elevado entre átrio esquerdo e ventrículo esquerdo, com onda “a” proeminente no átrio esquerdo e pressão diastólica final do ventrículo esquerdo normal.
BInsuficiência mitral grave – equalização tardia das pressões diastólicas entre átrio esquerdo e ventrículo esquerdo, com onda “a” elevada.
CEstenose mitral grave – presença de gradiente sistólico elevado entre átrio esquerdo e ventrículo esquerdo.
DInsuficiência mitral grave – equalização das pressões sistólicas entre átrio esquerdo e ventrículo esquerdo, com onda “a” gigante no átrio esquerdo e ausência de gradiente diastólico.
EMiocardiopatia restritiva – elevação semelhante das pressões diastólicas em átrio esquerdo e ventrículo esquerdo, sem gradiente transmitral significativo e com padrão “dip-plateau” ventricular.
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GabaritoA — Estenose mitral grave – presença de gradiente diastólico elevado entre átrio esquerdo e ventrículo esquerdo, com onda “a” proeminente no átrio esquerdo e pressão diastólica final do ventrículo esquerdo normal.
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Estenose Mitral: Hemodinâmica e Fisiopatologia
Gabarito: letra A. O quadro clínico de dispneia progressiva, ortopneia e palpitações, associado a achados hemodinâmicos de gradiente diastólico elevado entre átrio esquerdo (AE) e ventrículo esquerdo (VE), com onda "a" proeminente no AE e pressão diastólica final do VE normal, é clássico de estenose mitral grave. O mecanismo fisiopatológico central é a obstrução ao fluxo sanguíneo do AE para o VE durante a diástole, criando um gradiente de pressão diastólico entre essas câmaras.
A estenose mitral é uma valvopatia que impede o adequado esvaziamento do átrio esquerdo durante a diástole. Imagine a válvula mitral como uma porta estreita: o sangue precisa passar por ela do átrio para o ventrículo, mas encontra resistência. Essa resistência gera um gradiente de pressão diastólico entre as duas câmaras — a pressão no átrio fica mais alta que no ventrículo durante todo o enchimento ventricular. Quanto mais grave a estenose, maior esse gradiente. Como o átrio esquerdo precisa se contrair com mais força para vencer a obstrução, observa-se uma onda "a" proeminente no traçado de pressão atrial. O ventrículo esquerdo, por sua vez, não é afetado diretamente pela valvopatia — ele recebe menos sangue, mas sua pressão diastólica final permanece normal, pois não há sobrecarga de volume ou pressão nessa câmara. É exatamente essa combinação — gradiente diastólico elevado, onda "a" proeminente e pressão diastólica final do VE normal — que define o diagnóstico hemodinâmico de estenose mitral grave.
A confusão clássica neste tema é com a insuficiência mitral. Na insuficiência, o problema é o oposto: a válvula não fecha completamente, permitindo refluxo de sangue do VE para o AE durante a sístole. Isso gera uma onda "v" gigante no átrio (não onda "a"), e o gradiente de pressão ocorre durante a sístole, não na diástole. Além disso, na insuficiência mitral crônica, o VE frequentemente dilata e sua pressão diastólica final pode estar elevada, diferente da estenose pura. Outra distinção importante é com a miocardiopatia restritiva, onde há elevação e equalização das pressões diastólicas de ambas as câmaras, sem gradiente transmitral significativo — o problema é a rigidez do miocárdio, não a válvula.
A banca explora exatamente essa fronteira: o candidato que confunde o momento do ciclo cardíaco em que ocorre o gradiente (diástole na estenose vs. sístole na insuficiência) ou que não reconhece a onda "a" proeminente como marcador de estenose mitral erra a questão. Guarde o par: estenose mitral = gradiente diastólico + onda "a" proeminente + pressão diastólica final do VE normal; insuficiência mitral = onda "v" gigante + gradiente sistólico + possível elevação da pressão diastólica final do VE.
Estenose mitral
1Mecanismo
Obstrução ao fluxo AE→VE
Gradiente diastólico elevado
2Sinais hemodinâmicos
Onda "a" proeminente
Pressão diastólica final do VE normal
3Insuficiência mitral
Mecanismo
Refluxo VE→AE na sístole
Gradiente sistólico
Sinais hemodinâmicos
Onda "v" gigante
Possível elevação da pressão diastólica final do VE
4Miocardiopatia restritiva
Mecanismo
Rigidez miocárdica
Sem gradiente transmitral significativo
Sinais hemodinâmicos
Equalização das pressões diastólicas
Padrão "dip-plateau"
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta alternativa descreve com precisão o perfil hemodinâmico da estenose mitral grave. O gradiente diastólico elevado entre AE e VE é a assinatura da obstrução valvar ao enchimento ventricular. A onda "a" proeminente reflete a contração atrial vigorosa necessária para vencer a resistência da válvula estenosada. E a pressão diastólica final do VE normal confirma que o ventrículo esquerdo não está comprometido — a doença é exclusivamente do lado esquerdo do coração, mas poupa o VE de sobrecarga de pressão.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A insuficiência mitral grave não cursa com "equalização tardia das pressões diastólicas" entre AE e VE. Na verdade, o refluxo sistólico de sangue para o átrio gera uma onda "v" gigante, não uma onda "a" proeminente. O gradiente na insuficiência mitral é sistólico (entre VE e AE durante a sístole), não diastólico. A descrição de "equalização tardia" é um termo que não se aplica à fisiopatologia da insuficiência mitral — ela lembra mais o padrão de miocardiopatia restritiva ou pericardite constritiva.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O erro está em afirmar que o gradiente é sistólico. Na estenose mitral, o gradiente ocorre durante a diástole, quando o sangue tenta passar do átrio para o ventrículo através da válvula estreitada. Durante a sístole, a válvula mitral está fechada e não há fluxo entre AE e VE. O gradiente sistólico entre essas câmaras é característico da insuficiência mitral, não da estenose.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Esta alternativa mistura conceitos de forma incorreta. Na insuficiência mitral, o gradiente é sistólico (não diastólico), e a onda proeminente no átrio esquerdo é a onda "v" (de enchimento atrial durante a sístole ventricular), não a onda "a". A onda "a" gigante é típica da estenose mitral ou de condições que aumentam a resistência ao enchimento ventricular, como a hipertrofia ventricular esquerda. Além disso, a insuficiência mitral não cursa com "ausência de gradiente diastólico" — pode haver um gradiente diastólico leve devido ao aumento do fluxo transmitral, mas não é o achado principal.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A miocardiopatia restritiva é um diagnóstico diferencial importante, mas a descrição não se aplica ao caso. Na restritiva, há elevação e equalização das pressões diastólicas de ambas as câmaras (AE e VE), com padrão "dip-plateau" ou "dip-and-plateau" no traçado de pressão ventricular. Não há gradiente transmitral significativo porque a válvula mitral é normal — o problema é a rigidez do miocárdio. A paciente da questão apresenta gradiente diastólico elevado, o que aponta para obstrução valvar (estenose mitral), não para doença miocárdica restritiva.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre estenose e insuficiência mitral. Na estenose, o gradiente é diastólico (obstrução ao enchimento) e a onda proeminente é a "a" (contração atrial forçada). Na insuficiência, o gradiente é sistólico (refluxo durante a contração) e a onda proeminente é a "v" (enchimento atrial durante a sístole). Memorize o momento do ciclo cardíaco e a onda característica — isso separa as duas valvopatias de forma infalível.