Questão de Medicina — Neurologia — FUNDATEC 2026
- Código
- qg684793
- Banca
- FUNDATEC
- Órgão
- GHC-RS
- Ano
- 2026
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico (Neurofisiologia Clínica)
- AApenas I.
- BApenas I e II.
- CApenas I e III.
- DApenas II e III.
- EI, II e III.
GabaritoB — Apenas I e II.
Gabarito: letra B — corretos os itens I e II. A epilepsia do lobo temporal (ELT) é a forma mais comum de epilepsia focal em adultos, frequentemente associada à esclerose mesial temporal, e suas crises típicas iniciam com aura epigástrica ascendente, seguida de comprometimento da consciência e automatismos. O item III está incorreto porque o EEG interictal não é sempre normal — embora possa ser normal em até metade dos casos, anormalidades epileptiformes são comuns e o exame é fundamental no diagnóstico.
A epilepsia do lobo temporal é a síndrome epiléptica mais frequente em adultos, representando pelo menos 40% dos casos de epilepsia. Ela se divide em dois grandes grupos: a ELT mesial (ou medial), que envolve o hipocampo e/ou a amígdala, e a ELT lateral (neocortical), que acomete o neocórtex temporal. A forma mesial é a mais comum e está fortemente associada à esclerose hipocampal (também chamada de esclerose mesial temporal), uma condição caracterizada por perda neuronal e gliose em subcampos do hipocampo. Essa associação é tão íntima que a esclerose hipocampal é considerada a patologia mais frequente encontrada em pacientes com ELT refratária a tratamento medicamentoso.
A semiologia das crises da ELT é bastante característica e reflete a propagação da descarga epileptiforme pelo sistema límbico. A aura epigástrica ascendente — uma sensação desagradável que sobe do epigástrio em direção à garganta — é a aura mais comumente relatada. Outras auras possíveis incluem sensação cefálica vaga, déjà vu, jamais vu, odores fétidos (crises uncinadas, por origem no uncus) e alterações autonômicas. À medida que a crise se propaga para envolver estruturas límbicas bilaterais, ocorre comprometimento da consciência, frequentemente descrito por testemunhas como "olhar vazio". Nessa fase, são comuns os automatismos, que podem ser orais (estalar de lábios, deglutição repetitiva, mastigação) ou manuais (movimentos repetitivos das mãos, como esfregar ou apanhar objetos). Essa sequência — aura → alteração da consciência → automatismos — é o padrão clássico da crise do lobo temporal mesial.
O eletroencefalograma (EEG) é o exame complementar de maior utilidade no diagnóstico das epilepsias. No entanto, é fundamental entender que o EEG interictal não é sempre normal na ELT. Estudos mostram que até 50% dos pacientes com epilepsia apresentam anormalidades epileptiformes no EEG inicial, e mesmo após cinco exames (incluindo registros durante o sono), cerca de 20% dos pacientes podem não apresentar alterações. Ou seja, um EEG normal não exclui o diagnóstico de epilepsia, mas isso é muito diferente de afirmar que o EEG interictal é "sempre normal". Na prática, o EEG ajuda a confirmar o diagnóstico, classificar as crises e orientar o tratamento, sendo que descargas epileptiformes focais (pontas ou ondas agudas) são compatíveis com epilepsia focal, como a ELT. A privação de sono na noite anterior ao exame e os EEGs seriados aumentam o rendimento diagnóstico.
A pegadinha desta questão está justamente no item III: a banca explora a confusão entre "o EEG pode ser normal" e "o EEG é sempre normal". O candidato que sabe que o EEG pode ser normal em alguns pacientes pode ser levado a marcar o item como correto, mas a palavra "sempre" torna a assertiva falsa. É uma armadilha clássica de generalização indevida — termos como "sempre", "nunca" e "todo" devem acender um alerta, pois raramente a medicina é absoluta. No caso da ELT, o EEG interictal é anormal na maioria dos pacientes, especialmente com técnicas de ativação como privação de sono e registro durante o sono.
Guarde a fronteira entre "pode ser normal" e "é sempre normal": é exatamente nela que os itens se dividem. O item I afirma a epidemiologia e a associação com esclerose mesial (correto), o item II descreve a semiologia típica (correto), e o item III generaliza indevidamente o EEG (incorreto).
Item | Afirmação | Veredito |
|---|---|---|
I | Forma mais comum de epilepsia focal em adultos; frequentemente associada à esclerose mesial temporal | ✅ Correto |
II | Crises típicas: aura epigástrica ascendente → alteração da consciência → automatismos orais/manuais | ✅ Correto |
III | EEG interictal é sempre normal | ❌ Incorreto (pode ser normal, mas não sempre; anormalidades epileptiformes são comuns) |
A epilepsia do lobo temporal é, de fato, a forma mais comum de epilepsia focal em adultos, representando pelo menos 40% dos casos de epilepsia. A associação com a esclerose mesial temporal (esclerose hipocampal) é clássica: trata-se da patologia mais comum encontrada em pacientes com ELT, caracterizada por perda neuronal e gliose hipocampal. O item está correto tanto na epidemiologia quanto na etiologia.
A descrição da crise é fiel à semiologia clássica da ELT mesial. A aura epigástrica ascendente é a aura mais comum, seguida de comprometimento da consciência (olhar vazio) e automatismos orais (estalar de lábios, deglutição) ou manuais (movimentos repetitivos das mãos). Essa sequência reflete a propagação da descarga pelo sistema límbico e é um dos pilares do diagnóstico clínico da ELT.
O EEG interictal não é sempre normal na epilepsia do lobo temporal. Embora possa ser normal em até 50% dos pacientes no primeiro exame, a maioria apresenta anormalidades epileptiformes focais, e técnicas como privação de sono e EEGs seriados aumentam o rendimento diagnóstico. A palavra "sempre" torna a assertiva falsa — um EEG normal não exclui epilepsia, mas isso não significa que o exame seja invariavelmente normal. A banca explora a generalização indevida: o candidato que sabe que o EEG pode ser normal pode marcar o item como correto, mas a afirmação absoluta é incorreta.
A banca troca "pode ser normal" por "é sempre normal". No item III, a palavra "sempre" é o gatilho: na medicina, afirmações absolutas raramente são verdadeiras. O EEG interictal é anormal na maioria dos pacientes com ELT, e mesmo quando normal, não exclui o diagnóstico. Fique atento a termos como "sempre", "nunca" e "todo" — eles costumam marcar a alternativa incorreta.
Gabarito: letra B — corretos apenas os itens I e II.
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