Questão de Medicina — Ortopedia e Traumatologia — FUNDATEC 2026
Medicina›Ortopedia e Traumatologia
Código
qg684859
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico (Ortopedia e Traumatologia Oncológica)
Paciente do sexo feminino, 32 anos, apresenta dor progressiva no joelho direito há cerca de 6 meses, inicialmente relacionada ao esforço e, mais recentemente, também em repouso. Ao exame físico, observa-se discreto edema local e dor à palpação profunda. A radiografia evidencia lesão lítica excêntrica na epífise do fêmur distal, estendendo-se até o osso subcondral, sem produção evidente de matriz. A ressonância magnética demonstra lesão hipointensa em T1 e hiperintensa em T2, com ruptura cortical e discreta extensão para partes moles. Biópsia confirma tumor de célula gigante. Com base nesse cenário, analise as assertivas abaixo:I. O tumor de célula gigante é tipicamente uma lesão benigna, porém localmente agressiva, com potencial de recorrência local e risco não desprezível de metástases pulmonares.II. A curetagem simples está associada a altas taxas de recorrência, motivo pelo qual a abordagem atual prioriza curetagem estendida associada a métodos adjuvantes locais.III. A presença de metástases pulmonares caracteriza obrigatoriamente transformação maligna do tumor e indica quimioterapia sistêmica como tratamento padrão.IV. A ressecção ampla primária é o tratamento de escolha para a maioria dos tumores de célula gigante, independentemente do estágio da lesão ou localização anatômica.Quais estão corretas?
AApenas I e II.
BApenas I e III.
CApenas II e IV.
DApenas III e IV.
EApenas I, II e IV.
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GabaritoA — Apenas I e II.
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Tumor de Célula Gigante Ósseo: análise de assertivas
Gabarito: letra A (apenas I e II). O tumor de célula gigante (TCG) é uma neoplasia benigna, porém localmente agressiva, com potencial de recorrência e risco de metástases pulmonares (assertiva I correta); a curetagem simples tem altas taxas de recorrência, sendo a curetagem estendida com adjuvantes locais a abordagem atual (assertiva II correta). As assertivas III e IV estão incorretas: metástase pulmonar não caracteriza obrigatoriamente transformação maligna, e a ressecção ampla primária não é o tratamento de escolha para a maioria dos casos. O diagnóstico é confirmado por biópsia, e o tratamento baseia-se no estágio e na localização da lesão.
O tumor de célula gigante ósseo é uma neoplasia que, apesar de classificada como benigna, apresenta comportamento localmente agressivo. Isso significa que, embora não seja um câncer no sentido clássico (não tem potencial metastático significativo para linfonodos, por exemplo), pode destruir o osso, causar dor, fraturas patológicas e deformidades. A agressividade local é uma característica marcante, e a taxa de recorrência após tratamento é considerável, especialmente se a abordagem for inadequada. O risco de metástases pulmonares, embora baixo (em torno de 1-9% dos casos), é real e não deve ser ignorado. Essas metástases, quando ocorrem, geralmente têm comportamento indolente e não significam, por si só, transformação maligna — o que é um ponto crucial para a assertiva III.
O tratamento do TCG evoluiu significativamente. Historicamente, a curetagem simples (remoção do tumor com cureta, sem outros recursos) era o padrão, mas as taxas de recorrência eram altas, chegando a 40-60%. A abordagem moderna prioriza a curetagem estendida, que consiste em remover o tumor de forma mais ampla, seguida da aplicação de adjuvantes locais, como fenol, crioterapia (nitrogênio líquido) ou cimento ósseo (polimetilmetacrilato). Esses adjuvantes têm o objetivo de destruir células tumorais residuais nas margens da cavidade, reduzindo a recorrência para taxas de 10-20%. A ressecção ampla (remoção de todo o osso afetado com margens de segurança) é reservada para casos específicos: lesões muito extensas, com destruição articular significativa, fraturas patológicas complexas, ou recorrências múltiplas. Não é o tratamento de primeira linha para a maioria dos pacientes, pois é uma cirurgia mutilante, com maior morbidade e impacto funcional.
A distinção entre "benigno" e "maligno" no contexto do TCG é fundamental. A presença de metástases pulmonares, embora seja um evento grave, não reclassifica automaticamente o tumor como maligno. A transformação maligna do TCG é um evento raro, que pode ocorrer de forma espontânea ou após radioterapia, e é caracterizada por alterações histológicas específicas (como a presença de sarcoma de alto grau). O tratamento das metástases pulmonares de TCG geralmente envolve ressecção cirúrgica das lesões, e não quimioterapia sistêmica como padrão. A quimioterapia pode ser considerada em casos de doença metastática irressecável ou progressiva, mas não é a primeira linha. O denosumabe, um anticorpo monoclonal anti-RANKL, tem sido usado no tratamento de TCG localmente avançado ou metastático, mas a ressecção cirúrgica continua sendo o pilar do tratamento.
A pegadinha da banca nesta questão está na assertiva III, que tenta associar metástase pulmonar a transformação maligna e quimioterapia como tratamento padrão. O candidato que não conhece a história natural do TCG pode cair nessa armadilha, pois a metástase é um evento que sugere malignidade em outros tumores. No entanto, no TCG, a metástase pulmonar é uma complicação conhecida, mas não define malignidade. A assertiva IV também é uma pegadinha, pois sugere que a ressecção ampla é o tratamento de escolha para a maioria, quando na verdade a curetagem estendida com adjuvantes é o padrão para a maioria dos casos, reservando a ressecção ampla para situações específicas.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre "benigno" e "maligno" no TCG. A assertiva III afirma que metástase pulmonar = transformação maligna, o que é falso: o TCG pode metastatizar sem se tornar maligno. A assertiva IV inverte o tratamento: a curetagem estendida com adjuvantes é o padrão, não a ressecção ampla. Fique atento a essas trocas conceituais.
O tumor de célula gigante é, de fato, uma lesão benigna, porém localmente agressiva. A literatura médica é consistente em descrever o TCG como uma neoplasia benigna com potencial de recorrência local e risco de metástases pulmonares, que ocorre em uma pequena porcentagem dos casos. Essa característica é o que o diferencia de outros tumores ósseos benignos, como o osteocondroma, que não metastatiza. A assertiva está correta ao destacar a agressividade local e o risco metastático.
Item II — ✅ Correto
A curetagem simples, sem adjuvantes, está associada a altas taxas de recorrência, historicamente em torno de 40-60%. A abordagem atual, baseada em evidências, prioriza a curetagem estendida, que envolve a remoção mais ampla do tumor, seguida da aplicação de adjuvantes locais (fenol, crioterapia, cimento ósseo) para destruir células tumorais residuais. Essa técnica reduz a recorrência para taxas de 10-20%, sendo o padrão de tratamento para a maioria dos casos. A assertiva está correta.
Item III — ❌ Incorreto
A presença de metástases pulmonares no TCG não caracteriza obrigatoriamente transformação maligna. O TCG pode metastatizar para os pulmões em cerca de 1-9% dos casos, e essas metástases geralmente têm comportamento indolente, podendo até regredir espontaneamente. A transformação maligna é um evento raro e distinto, caracterizado por alterações histológicas de sarcoma. Além disso, o tratamento padrão para metástases pulmonares de TCG é a ressecção cirúrgica, não a quimioterapia sistêmica. A quimioterapia pode ser considerada em casos selecionados, mas não é o padrão. A assertiva está incorreta.
Item IV — ❌ Incorreto
A ressecção ampla primária não é o tratamento de escolha para a maioria dos tumores de célula gigante. O tratamento padrão para a maioria dos casos é a curetagem estendida com adjuvantes locais, que preserva o osso e a função articular. A ressecção ampla é reservada para casos específicos, como lesões muito extensas, com destruição articular significativa, fraturas patológicas complexas, ou recorrências múltiplas. A escolha do tratamento depende do estágio da lesão, da localização anatômica e das características individuais do paciente. A assertiva está incorreta ao generalizar a ressecção ampla como tratamento de escolha para a maioria.
Conclusão: Corretos: I e II → portanto a alternativa é a letra A.