Questão de Medicina — Ortopedia e Traumatologia — FUNDATEC 2026
Medicina›Ortopedia e Traumatologia
Código
qg684867
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico (Ortopedia e Traumatologia Oncológica)
Em relação aos princípios cirúrgicos no tratamento dos sarcomas musculoesqueléticos, especialmente na decisão entre amputação versus salvamento do membro, assinale a alternativa correta.
AA amputação transfemoral demonstra vantagem comprovada de sobrevida quando comparada ao salvamento do membro em pacientes com osteossarcoma do fêmur distal, mesmo quando margens cirúrgicas amplas são obtidas.
BO salvamento do membro está associado a menor morbidade perioperatória e menor necessidade de cirurgias futuras quando comparado à amputação, independentemente do tipo de reconstrução realizada.
CA obtenção de margens cirúrgicas amplas é o fator técnico mais importante para a sobrevida global do paciente, independentemente de o procedimento ser amputação ou salvamento do membro, e nenhuma técnica demonstrou superioridade em termos de sobrevida quando margens adequadas são alcançadas.
DA recorrência local após desarticulação do quadril está associada a melhor sobrevida global, justificando sua indicação preferencial em tumores agressivos do fêmur proximal.
EA função após o salvamento do membro é invariavelmente superior à amputação em todas as localizações anatômicas, incluindo tornozelo e pé, independentemente da extensão tumoral.
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GabaritoC — A obtenção de margens cirúrgicas amplas é o fator técnico mais importante para a sobrevida global do paciente, independentemente de o procedimento ser amputação ou salvamento do membro, e nenhuma técnica demonstrou superioridade em termos de sobrevida quando margens adequadas são alcançadas.
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Princípios cirúrgicos no tratamento dos sarcomas musculoesqueléticos
Gabarito: letra C. A obtenção de margens cirúrgicas amplas é o fator técnico mais importante para a sobrevida global, e nenhuma técnica (amputação ou salvamento do membro) demonstrou superioridade em termos de sobrevida quando margens adequadas são alcançadas. Essa é a síntese do consenso atual em ortopedia oncológica, baseado em estudos que compararam as duas estratégias e não encontraram diferença significativa na sobrevida quando a ressecção é adequada.
O tratamento dos sarcomas musculoesqueléticos, especialmente o osteossarcoma, evoluiu drasticamente nas últimas décadas. Antes, a amputação era a regra; hoje, o salvamento do membro é possível na maioria dos casos, graças aos avanços na quimioterapia neoadjuvante, na imagem (RM, TC) e nas técnicas de reconstrução (endopróteses, enxertos ósseos, retalhos). A decisão entre amputar ou salvar o membro é complexa e envolve múltiplos fatores: extensão tumoral, envolvimento de estruturas neurovasculares, resposta à quimioterapia, idade do paciente, comorbidades e, crucialmente, a possibilidade de obter margens cirúrgicas adequadas.
O conceito de margem cirúrgica é central. Uma margem ampla significa que o tumor foi ressecado com um manto de tecido sadio ao redor, sem exposição do tumor. Margens positivas (tumor exposto) ou contaminadas estão associadas a altas taxas de recorrência local e pior prognóstico. A obtenção de margens amplas é o objetivo técnico primordial, independentemente da técnica cirúrgica escolhida. Se o cirurgião consegue margens amplas com o salvamento do membro, a sobrevida é equivalente à da amputação; se não consegue, a amputação pode ser necessária para garantir a margem.
Estudos clássicos e metanálises comparando amputação e salvamento de membro em sarcomas ósseos não demonstraram diferença estatisticamente significativa na sobrevida global entre os dois grupos, desde que as margens sejam adequadas. A recorrência local pode ser ligeiramente maior no salvamento, mas isso não se traduz em pior sobrevida, pois a recorrência local pode ser tratada com resgate cirúrgico. A função e a qualidade de vida, por outro lado, tendem a ser melhores com o salvamento, embora isso dependa da localização e da extensão da ressecção.
A pegadinha desta questão é a tentativa de atribuir superioridade de sobrevida a uma das técnicas (amputação ou salvamento) ou de generalizar a função como invariavelmente superior. A banca explora a confusão entre o que é tecnicamente necessário (margem ampla) e o que é mito (que amputar aumenta a sobrevida ou que salvar o membro é sempre melhor). A alternativa C é a única que reflete o conhecimento científico atual, sem exageros ou generalizações indevidas.
Guarde o critério decisivo: margem cirúrgica ampla é o fator técnico mais importante para a sobrevida, e não a escolha entre amputação e salvamento. É exatamente nesse ponto que as alternativas se dividem.
Critério
Amputação
Salvamento do membro
Sobrevida global (com margens amplas)
Equivalente ao salvamento
Equivalente à amputação
Margem cirúrgica ampla
Fator técnico decisivo
Fator técnico decisivo
Morbidade perioperatória
Geralmente menor (pós-operatório mais simples)
Frequentemente maior (reconstruções complexas)
Necessidade de cirurgias futuras
Menor
Maior (reintervenções, complicações)
Função
Variável; pode ser superior em certas localizações (ex.: tornozelo/pé)
Variável; não é invariavelmente superior
Indicação
Quando margens amplas não são possíveis no salvamento
Quando margens amplas são alcançáveis
Sarcomas musculoesqueléticos: Margem cirúrgica ampla (Fator técnico mais importante, Determina sobrevida global); Amputação vs. salvamento (Sobrevida equivalente com margens amplas, Salvamento: maior morbidade e reintervenções, Amputação: pós-operatório mais simples); Recorrência local (Sempre evento adverso, Pior prognóstico)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a amputação transfemoral tem vantagem comprovada de sobrevida sobre o salvamento do membro no osteossarcoma do fêmur distal, mesmo com margens amplas. Isso é falso: quando margens amplas são obtidas, a sobrevida é equivalente entre as duas técnicas. A amputação não confere vantagem de sobrevida; ela é indicada quando o salvamento não é possível ou seguro (ex.: envolvimento neurovascular extenso). A banca tenta fazer o candidato acreditar que a amputação é superior, o que contraria a literatura.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que o salvamento do membro está associado a menor morbidade perioperatória e menor necessidade de cirurgias futuras, independentemente do tipo de reconstrução. Isso é incorreto por dois motivos: (1) o salvamento do membro, especialmente com reconstruções complexas (endopróteses, enxertos), frequentemente tem maior morbidade perioperatória e maior taxa de complicações e reintervenções do que a amputação; (2) a afirmação usa o termo "independentemente", o que é uma generalização indevida, pois a morbidade varia muito com o tipo de reconstrução e a localização. A amputação, embora mais mutilante, pode ter um pós-operatório mais simples em alguns casos.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a alternativa correta. Ela afirma que a obtenção de margens cirúrgicas amplas é o fator técnico mais importante para a sobrevida global, independentemente de ser amputação ou salvamento, e que nenhuma técnica demonstrou superioridade em sobrevida quando margens adequadas são alcançadas. Isso está alinhado com o consenso em ortopedia oncológica: a margem é o que determina o controle local e, consequentemente, a sobrevida. Estudos comparativos não mostram diferença de sobrevida entre as duas abordagens quando a ressecção é adequada.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a recorrência local após desarticulação do quadril está associada a melhor sobrevida global, justificando sua indicação preferencial em tumores agressivos do fêmur proximal. Isso é um absurdo: a recorrência local é sempre um evento adverso, associado a pior prognóstico, não a melhor sobrevida. A desarticulação do quadril (hemipelvectomia) é um procedimento radical, reservado para casos em que o salvamento é impossível, e não é indicada preferencialmente por melhorar a sobrevida. A banca inverte completamente a lógica oncológica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a função após o salvamento do membro é invariavelmente superior à amputação em todas as localizações anatômicas, incluindo tornozelo e pé, independentemente da extensão tumoral. Isso é falso por três motivos: (1) "invariavelmente" e "independentemente" são generalizações indevidas; (2) em algumas localizações, como tornozelo e pé, a amputação (ex.: amputação de Syme, transtibial) pode proporcionar função igual ou até superior ao salvamento com reconstrução complexa; (3) a função depende de muitos fatores, incluindo extensão tumoral, tipo de reconstrução, reabilitação e comorbidades. Não há superioridade funcional garantida do salvamento em todas as situações.
Gabarito: letra C — a única alternativa que reflete o princípio fundamental de que a margem cirúrgica ampla é o fator decisivo para a sobrevida, sem atribuir superioridade indevida a nenhuma técnica.