Questão de Patologia — Hipóteses Diagnósticas — FUNDATEC 2026
Patologia›Hipóteses Diagnósticas
Código
qg684906
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico (Patologia)
Mulher, 57 anos, foi submetida à ooforectomia direita devido à lesão tumoral sólidocística medindo 16,0 cm no maior eixo. A investigação clínica pré-cirúrgica não identificou lesão tumoral em outros sítios anatômicos. À microscopia, identificou-se um carcinoma de alto grau, de padrões de crescimento túbulo-cístico, papilar e sólido, constituído predominantemente por células de citoplasma eosinofílico e poucas células de citoplasma claro, com áreas de estroma hialinizado ou mixoide. A neoplasia revelou imunoexpressão forte e difusa para CK7, PAX8, Napsin A, HNF1α e p53 (em padrão de tipo selvagem), e negatividade para CK20, p16, ARID1A, CA19.9, WT1, receptores de estrogênio, receptores de progesterona, CDX2, p63 e CA19.9. Em zonas da amostra, a neoplasia estava associada à endometriose. Qual é o provável diagnóstico histopatológico?
ATumor de Brenner maligno.
BCarcinoma mucinoso de ovário.
CCarcinoma de células claras de ovário.
DCarcinoma endometrioide de ovário.
ECarcinoma seroso de alto grau de ovário.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — Carcinoma de células claras de ovário.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Carcinoma de células claras de ovário: diagnóstico por imuno-histoquímica
Gabarito: letra C. O quadro é de carcinoma de células claras de ovário (CCCO): tumor sólido-cístico de grande volume, padrões túbulo-cístico/papilar/sólido, células com citoplasma eosinofílico e claro, associação com endometriose e perfil imuno-histoquímico característico — CK7+, PAX8+, Napsin A+, HNF1α+, p53 selvagem, WT1−, p16−, ARID1A−, receptores hormonais negativos. A combinação Napsin A positivo + WT1 negativo + p53 selvagem é o ponto-chave que separa o CCCO do carcinoma seroso de alto grau e do endometrioide.
O carcinoma de células claras de ovário é uma neoplasia epitelial maligna que representa cerca de 5–10% dos carcinomas ovarianos. Tem forte associação com endometriose — estima-se que 50–70% dos casos coexistam com focos de endometriose, como descrito no enunciado. É um tumor de alto grau por definição, mas com comportamento biológico distinto dos demais carcinomas ovarianos: tende a se apresentar em estádios iniciais (I–II), porém com pior prognóstico quando avançado, e é relativamente quimiorresistente à platina.
Morfologicamente, o CCCO exibe uma grande variedade de padrões de crescimento — túbulo-cístico, papilar, sólido e glandular — frequentemente coexistentes. As células tumorais têm citoplasma claro (rico em glicogênio) ou eosinofílico, com núcleos atípicos e nucléolos proeminentes. O estroma pode ser hialinizado ou mixoide. Um achado clássico é o "tachão" (tack) — célula com citoplasma claro projetando-se para dentro de luz tubular —, mas não é obrigatório. A presença de células "hobnail" (em prego) é característica, embora não exclusiva.
O diagnóstico definitivo depende da imuno-histoquímica, e é aí que mora a chave da questão. O perfil típico do CCCO é:
Marcador
CCCO
Seroso de alto grau
Endometrioide
Mucinoso
CK7
+
+
+
+
PAX8
+
+
+
+
Napsin A
+
−
−
−
HNF1α
+
−
+/−
−
WT1
−
+
−
−
p53
selvagem
mutado (superexpressão ou null)
selvagem/mutado
selvagem
p16
−/focal
difuso
−/focal
−
ARID1A
− (perda)
+
− (perda frequente)
+
RE/RP
−
−
+ (frequente)
−
p63
−
−
−
−
CDX2
−
−
−
+ (frequente)
O marcador mais específico é o Napsin A: uma protease aspártica que é positiva em aproximadamente 80–90% dos CCCO e negativa na grande maioria dos outros carcinomas ovarianos. O HNF1α (fator nuclear hepatocítico 1 alfa) também é um marcador sensível, mas menos específico, pois pode ser positivo em outros tumores. A negatividade para WT1 é crucial para excluir carcinoma seroso de alto grau, que é tipicamente WT1 positivo. A p53 selvagem (expressão heterogênea, sem superexpressão nem ausência total) afasta o carcinoma seroso de alto grau, que quase sempre mostra padrão mutado (superexpressão difusa ou ausência completa). A perda de ARID1A é frequente no CCCO e no endometrioide, refletindo a origem comum a partir da endometriose.
A associação com endometriose é um dado clínico-patológico importante: tanto o CCCO quanto o carcinoma endometrioide podem surgir de focos de endometriose. No entanto, o perfil imuno-histoquímico apresentado — Napsin A positivo, WT1 negativo, p53 selvagem, receptores hormonais negativos — é praticamente diagnóstico de CCCO. O carcinoma endometrioide costuma ser RE/RP positivo e Napsin A negativo. O carcinoma seroso de alto grau é WT1 positivo e p53 mutado. O mucinoso é CDX2 positivo e Napsin A negativo. O tumor de Brenner maligno é raro, tipicamente CK7+, com padrão transicional (semelhante ao urotélio), e não apresenta Napsin A nem HNF1α.
A pegadinha da questão está em dois pontos: (1) a presença de "células de citoplasma eosinofílico" e padrão papilar pode sugerir carcinoma seroso, mas a negatividade para WT1 e p53 selvagem excluem essa hipótese; (2) a associação com endometriose pode sugerir carcinoma endometrioide, mas a negatividade para receptores hormonais e a positividade para Napsin A/HNF1α apontam para CCCO. O candidato que decorou apenas "células claras = CCCO" pode errar, pois o CCCO nem sempre tem citoplasma claro predominante — aqui, as células eosinofílicas predominam, e o diagnóstico se firma pela imuno-histoquímica.
Guarde o tripé que decide a questão: Napsin A positivo + WT1 negativo + p53 selvagem = carcinoma de células claras. É exatamente esse trio que separa o CCCO de todos os outros carcinomas ovarianos listados nas alternativas.
O tumor de Brenner maligno é uma neoplasia rara, composta por células epiteliais transicionais (semelhantes ao urotélio), com corpos de Call-Exner e estroma fibroso. Não apresenta os padrões túbulo-cístico/papilar/sólido descritos, nem o perfil imuno-histoquímico com Napsin A e HNF1α positivos. Além disso, o tumor de Brenner maligno não tem associação típica com endometriose. O diagnóstico seria considerado apenas se houvesse componente transicional evidente, o que não é o caso.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O carcinoma mucinoso de ovário é caracterizado por células produtoras de mucina, com padrão glandular e estroma mixoide. Na imuno-histoquímica, é tipicamente CDX2 positivo (marcador de diferenciação intestinal) e CK7 positivo, mas Napsin A e HNF1α negativos. A negatividade para CDX2 e a positividade para Napsin A/HNF1α no enunciado excluem o diagnóstico de carcinoma mucinoso. Além disso, o carcinoma mucinoso raramente se associa a endometriose.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O carcinoma de células claras de ovário é o diagnóstico que reúne todos os achados: tumor sólido-cístico de grande volume (16 cm), padrões túbulo-cístico/papilar/sólido, células com citoplasma eosinofílico e claro, estroma hialinizado/mixoide, associação com endometriose e perfil imuno-histoquímico típico — CK7+, PAX8+, Napsin A+, HNF1α+, p53 selvagem, WT1−, p16−, ARID1A−, receptores hormonais negativos. A positividade para Napsin A e HNF1α, somada à negatividade para WT1 e à p53 selvagem, é praticamente diagnóstica de CCCO.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O carcinoma endometrioide de ovário pode se associar a endometriose e apresentar padrão glandular, mas difere do CCCO em pontos cruciais: é tipicamente RE/RP positivo (receptores hormonais), Napsin A negativo e HNF1α negativo ou fracamente positivo. No enunciado, a negatividade para receptores de estrogênio e progesterona, aliada à positividade para Napsin A e HNF1α, afasta o diagnóstico de carcinoma endometrioide. Além disso, o padrão túbulo-cístico e as células claras são mais característicos do CCCO.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O carcinoma seroso de alto grau é o tumor ovariano mais comum e agressivo, mas o perfil imuno-histoquímico apresentado o exclui: o seroso de alto grau é tipicamente WT1 positivo e p53 mutado (superexpressão difusa ou ausência completa), enquanto o caso mostra WT1 negativo e p53 selvagem. Além disso, o seroso de alto grau raramente se associa a endometriose e não apresenta positividade para Napsin A ou HNF1α. A presença de padrão papilar pode confundir, mas a imuno-histoquímica resolve a dúvida.
NÃO CAIA NESSA!
A banca monta o caso com células eosinofílicas predominantes e padrão papilar — dois achados que fazem o candidato pensar em carcinoma seroso de alto grau. Mas a negatividade para WT1 e a p53 selvagem derrubam essa hipótese. Da mesma forma, a associação com endometriose sugere carcinoma endometrioide, mas a negatividade para receptores hormonais e a positividade para Napsin A/HNF1α apontam para células claras. O segredo é nunca diagnosticar tumor ovariano só pela morfologia — a imuno-histoquímica é soberana.
PEGA ESSA DICA!
Para tumores ovarianos, monte um fluxograma mental com três marcadores: WT1 (positivo → seroso), p53 (mutado → seroso de alto grau), Napsin A/HNF1α (positivo → células claras), RE/RP (positivo → endometrioide), CDX2 (positivo → mucinoso). Decore o par "Napsin A + HNF1α = células claras" e "WT1 + p53 mutado = seroso de alto grau" — é o que mais cai em prova.
Gabarito: letra C — carcinoma de células claras de ovário.