Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — FUNDATEC 2026
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
qg686860
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Agudo - RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico Ginecologista Obstetra
Em relação à avaliação do bem-estar fetal, analise as assertivas abaixo:I. A cardiotocografia anteparto tem alta taxa de falso-positivo.II. Os parâmetros do Perfil Biofísico Fetal (PBF) devem ser interpretados no contexto dos fatores maternos e fetais associados. Nesse sentido, hipoglicemia materna ou o uso de corticoide antenatal levam à diminuição dos movimentos fetais, podendo afetar o PBF.III. O doppler da artéria cerebral média pode ser preditor de desfechos adversos nos fetos com restrição de crescimento tardio, mesmo com o doppler de artéria umbilical normal.Quais estão corretas?
AApenas I.
BApenas II.
CApenas III.
DApenas I e II.
EI, II e III.
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GabaritoE — I, II e III.
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Avaliação do bem-estar fetal: cardiotocografia, PBF e doppler
Gabarito: letra E (I, II e III). As três assertivas estão corretas: a cardiotocografia anteparto é um método com alta taxa de falso-positivo; o Perfil Biofísico Fetal (PBF) deve ser interpretado no contexto clínico, e fatores como hipoglicemia materna e uso de corticoide antenatal podem reduzir os movimentos fetais; e o doppler da artéria cerebral média (ACM) é um preditor de desfechos adversos em fetos com restrição de crescimento tardio, mesmo com doppler de artéria umbilical normal. A questão cobra conhecimento consolidado de medicina fetal, sem dispositivo legal específico.
A avaliação do bem-estar fetal é um pilar do pré-natal de alto risco, e reúne métodos que avaliam diferentes aspectos da vitalidade fetal: a cardiotocografia (CTG) registra a frequência cardíaca fetal (FCF) e sua reatividade; o Perfil Biofísico Fetal (PBF) combina parâmetros agudos e crônicos; e a dopplervelocimetria avalia a hemodinâmica fetal e placentária. Cada método tem indicações, limitações e taxas próprias de falso-positivo e falso-negativo — e é exatamente esse equilíbrio que a banca explora.
A cardiotocografia anteparto, também chamada de teste sem estresse (NST), avalia a reatividade da FCF: a presença de acelerações transitórias em resposta aos movimentos fetais indica integridade do sistema nervoso autônomo fetal. O grande problema do método é a alta taxa de falso-positivo — ou seja, muitos traçados são classificados como não-reativos (suspeitos ou alterados) em fetos que, na verdade, estão hígidos. Isso ocorre porque o traçado pode ser influenciado pelo ciclo de sono fetal (que dura cerca de 20 a 40 minutos), pela idade gestacional (antes de 32 semanas, a reatividade é menor), por medicamentos maternos (como sedativos e betabloqueadores) e por condições maternas (como hipoglicemia). Por isso, um traçado não-reativo isolado não fecha diagnóstico de sofrimento fetal — exige repetição do exame ou complementação com métodos mais específicos, como o PBF. Essa característica é amplamente descrita na literatura de medicina fetal e é o que torna a assertiva I correta.
O Perfil Biofísico Fetal (PBF), proposto por Manning, combina cinco parâmetros observados por ultrassonografia: movimentos respiratórios fetais, movimentos corporais, tônus fetal, volume de líquido amniótico e, em algumas versões, a reatividade da cardiotocografia. Cada parâmetro recebe 0 ou 2 pontos, totalizando 10. A lógica do PBF é que os parâmetros agudos (movimentos respiratórios, movimentos corporais, tônus e reatividade) são modulados pelo sistema nervoso central fetal e refletem o estado de oxigenação no momento do exame; o líquido amniótico, por sua vez, é um parâmetro crônico, que reflete a perfusão renal fetal ao longo de dias. A interpretação do PBF nunca é mecânica: o resultado deve ser contextualizado com os fatores maternos e fetais associados. A assertiva II menciona dois exemplos clássicos: a hipoglicemia materna e o uso de corticoide antenatal (betametasona ou dexametasona, administrados para maturação pulmonar fetal em risco de parto prematuro). Ambos podem reduzir temporariamente os movimentos fetais — a hipoglicemia por reduzir a disponibilidade energética fetal, e o corticoide por induzir um estado de "repouso" fetal transitório, com diminuição da atividade motora e da reatividade da FCF. Isso pode levar a um PBF falso-alterado (pontuação baixa) em um feto que não está hipóxico. Por isso, o exame deve ser interpretado com cautela nesses contextos, e a assertiva está correta.
A dopplervelocimetria é uma ferramenta essencial na avaliação da circulação fetal. O doppler da artéria umbilical avalia a resistência vascular placentária: o aumento do índice de resistência (IR) ou a ausência/fluxo diastólico reverso indicam insuficiência placentária e hipoxemia fetal. Já o doppler da artéria cerebral média (ACM) avalia a circulação cerebral fetal: em situações de hipoxemia, ocorre a centralização ou brain sparing effect — o feto redistribui o débito cardíaco para órgãos nobres (cérebro, coração e adrenais), com redução da resistência vascular cerebral, refletida na diminuição do IR da ACM. Na restrição de crescimento tardio (late-onset FGR), que ocorre após 32 semanas, a insuficiência placentária costuma ser menos grave, e o doppler de artéria umbilical pode estar normal. Nesses casos, o doppler da ACM pode ser o primeiro exame a se alterar, com redução do IR (IR < p5), indicando adaptação hemodinâmica fetal à hipoxemia. Estudos mostram que a razão cerebroplacentária (RCP = IR da ACM / IR da artéria umbilical) e o IR da ACM isolado são preditores de desfechos adversos perinatais (como cesariana de emergência por sofrimento fetal, acidemia e baixo peso ao nascer) em fetos com restrição de crescimento tardio, mesmo com doppler umbilical normal. Portanto, a assertiva III está correta.
A pegadinha desta questão é sutil: ela mistura três métodos de avaliação do bem-estar fetal e exige que o candidato conheça as limitações e indicações de cada um. O erro mais comum seria marcar "Apenas I" ou "Apenas II", por achar que a assertiva III está incorreta (por desconhecer a utilidade da ACM na restrição de crescimento tardio) ou que a II está incorreta (por não saber que hipoglicemia e corticoide afetam os movimentos fetais). A banca também poderia tentar confundir com a afirmação de que a cardiotocografia tem alta taxa de falso-negativo (o que é incorreto — o problema é o falso-positivo). Guarde o tripé: CTG (reatividade, alta taxa de falso-positivo), PBF (contextualização com fatores maternos/fetais) e doppler (ACM como preditor na restrição de crescimento tardio).
Assertiva
Conteúdo
Correção
I
Cardiotocografia anteparto tem alta taxa de falso-positivo.
✅ Correta
II
PBF deve ser interpretado no contexto clínico; hipoglicemia materna e corticoide antenatal diminuem movimentos fetais.
✅ Correta
III
Doppler da ACM é preditor de desfechos adversos na restrição de crescimento tardio, mesmo com doppler umbilical normal.
✅ Correta
Avaliação do bem-estar fetal
1Cardiotocografia anteparto
Avalia reatividade da FCF
Alta taxa de falso-positivo
2Perfil Biofísico Fetal (PBF)
Parâmetros agudos e crônicos
Hipoglicemia materna reduz movimentos
Corticoide antenatal reduz movimentos
3Dopplervelocimetria
Artéria umbilical (resistência placentária)
Artéria cerebral média (brain sparing)
Preditor na restrição de crescimento tardio
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Item I — ✅ Correto
A cardiotocografia anteparto (teste sem estresse) avalia a reatividade da frequência cardíaca fetal. Sua principal limitação é a alta taxa de falso-positivo: muitos traçados não-reativos ocorrem em fetos hígidos, por influência do ciclo de sono fetal, idade gestacional precoce, medicamentos maternos ou condições maternas como hipoglicemia. Um traçado não-reativo isolado não confirma sofrimento fetal — exige repetição ou complementação com PBF. A assertiva está correta.
Item II — ✅ Correto
O Perfil Biofísico Fetal (PBF) combina parâmetros agudos (movimentos respiratórios, movimentos corporais, tônus e reatividade da FCF) e crônicos (líquido amniótico). A interpretação deve ser contextualizada com fatores maternos e fetais. A hipoglicemia materna reduz a disponibilidade energética e pode diminuir os movimentos fetais; o corticoide antenatal (betametasona/dexametasona) induz um estado de repouso fetal transitório, com redução da atividade motora e da reatividade. Ambos podem gerar um PBF falso-alterado em feto não hipóxico. A assertiva está correta.
Item III — ✅ Correto
Na restrição de crescimento tardio (após 32 semanas), o doppler de artéria umbilical pode estar normal, pois a insuficiência placentária é menos grave. Nesses casos, o doppler da artéria cerebral média (ACM) pode ser o primeiro a se alterar, com redução do índice de resistência (IR < p5), indicando centralização do fluxo sanguíneo (brain sparing). A redução do IR da ACM e da razão cerebroplacentária (RCP) é preditora de desfechos adversos perinatais (cesariana de emergência, acidemia, baixo peso ao nascer), mesmo com doppler umbilical normal. A assertiva está correta.
Conclusão: As três assertivas estão corretas. Portanto, o gabarito é a letra E (I, II e III).