Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FUNDATEC 2026
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg687521
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Araquari - SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico Pediatra
Um adolescente de 14 anos, com histórico de doença inflamatória intestinal envolvendo o íleo terminal, apresenta diarreia crônica aquosa, sem sangue, persistente mesmo em jejum. Refere evacuações volumosas e frequentes, sem melhora com restrição alimentar. Com base no quadro clínico e na fisiopatologia das diarreias, assinale a alternativa correta.
ATrata-se de diarreia osmótica, causada pela presença de solutos não absorvíveis no lúmen intestinal.
BO quadro é decorrente da má absorção de sais biliares, levando a um mecanismo de diarreia secretora.
CA diarreia ocorre por inflamação do cólon, com exsudação de muco e sangue.
DO mecanismo principal envolve deficiência de enzimas digestivas, como a lactase.
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GabaritoB — O quadro é decorrente da má absorção de sais biliares, levando a um mecanismo de diarreia secretora.
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Diarreia crônica: mecanismos osmótico e secretor
Gabarito: letra B. O quadro descrito — diarreia aquosa crônica, volumosa, que persiste mesmo em jejum — é classicamente compatível com diarreia secretora, e a doença de Crohn com envolvimento do íleo terminal leva à má absorção de sais biliares, que estimulam a secreção de água e eletrólitos no cólon. A persistência da diarreia com o jejum é o dado fisiopatológico decisivo que separa o mecanismo secretor do osmótico.
A diarreia é definida como o aumento do volume, da fluidez ou da frequência das evacuações. Para entender o mecanismo, divide-se a diarreia aquosa crônica em dois grandes tipos: osmótica e secretora. A diferença fundamental está no comportamento diante do jejum e no cálculo do hiato osmótico das fezes.
A diarreia osmótica ocorre quando há solutos não absorvíveis no lúmen intestinal, que "puxam" água por osmose. Exemplos clássicos são a intolerância à lactose (deficiência de lactase), o uso de laxantes com magnésio e a ingestão de sorbitol. Como esses solutos vêm da dieta, a diarreia melhora ou desaparece com o jejum. O hiato osmótico fecal é elevado (> 100 mOsm/kg) e o pH fecal costuma ser ácido (< 5) pela fermentação bacteriana dos carboidratos.
A diarreia secretora, por outro lado, resulta de um comprometimento ou interrupção da absorção de sal e água, ou de uma secreção ativa de água e eletrólitos para o lúmen. As fezes são volumosas (> 1 L/dia), o hiato osmótico é baixo (< 50 mOsm/kg) e, crucialmente, a diarreia persiste com o jejum, pois o mecanismo não depende da ingestão alimentar. As causas incluem infecções por enterotoxinas (como Vibrio cholerae e Escherichia coli enterotoxigênica), tumores secretores (como VIPoma) e a má absorção de sais biliares.
No caso apresentado, o adolescente tem doença inflamatória intestinal (DII) com envolvimento do íleo terminal. O íleo terminal é o principal sítio de absorção ativa dos sais biliares. Quando há doença nessa região (como na doença de Crohn), ocorre má absorção de sais biliares. Esses sais, ao chegarem em excesso ao cólon, estimulam a secreção de água e eletrólitos, causando diarreia secretora aquosa. Esse mecanismo é conhecido como diarreia colerética ou diarreia por ácidos biliares.
A distinção entre os mecanismos é essencial para o raciocínio clínico e é exatamente o que a questão explora. O dado de a diarreia persistir em jejum é a chave: se fosse osmótica, o jejum melhoraria o quadro. Como persiste, o mecanismo é secretor.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato ao associar a doença inflamatória intestinal a um mecanismo inflamatório/exsudativo (alternativa C) ou a uma deficiência enzimática (alternativa D). No entanto, o envolvimento do íleo terminal e a característica aquosa, sem sangue, apontam especificamente para a má absorção de sais biliares como mecanismo secretor. A alternativa A descreve corretamente a diarreia osmótica, mas o quadro clínico não a sustenta, pois a diarreia persiste em jejum.
Diarreia aquosa crônica: Osmótica (Solutos não absorvíveis no lúmen, Melhora com jejum, Hiato osmótico alto, Ex.: intolerância à lactose); Secretora (Secreção ativa de água e eletrólitos, Persiste com jejum, Hiato osmótico baixo, Ex.: má absorção de sais biliares); Inflamatória/exsudativa (Muco, pus e sangue, Urgência retal e tenesmo)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa descreve corretamente o mecanismo da diarreia osmótica (solutos não absorvíveis no lúmen), mas não se aplica ao caso. A diarreia osmótica melhora com o jejum, pois depende da ingestão de solutos. No paciente, a diarreia persiste mesmo em jejum, o que afasta esse mecanismo. Além disso, a doença de Crohn ileal não causa diarreia osmótica primária.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A doença de Crohn com envolvimento do íleo terminal compromete a absorção de sais biliares, que são normalmente reabsorvidos nesse segmento. O excesso de sais biliares que chega ao cólon estimula a secreção de água e eletrólitos, resultando em diarreia secretora. As características clínicas — diarreia aquosa, volumosa, sem sangue e que persiste em jejum — são típicas desse mecanismo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa descreve a diarreia inflamatória/exsudativa, caracterizada por fezes com muco, pus e sangue, acompanhada de urgência retal e tenesmo. No caso, a diarreia é aquosa, sem sangue, o que não é compatível com um mecanismo predominantemente inflamatório do cólon. Embora a doença de Crohn possa causar inflamação, o quadro apresentado é de diarreia aquosa crônica, típica de má absorção de sais biliares.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A deficiência de enzimas digestivas, como a lactase, causa diarreia osmótica por má absorção de carboidratos. Essa diarreia melhora com o jejum e costuma ser acompanhada de distensão abdominal e flatulência. No caso, a diarreia persiste em jejum e não há menção a intolerância alimentar específica, afastando esse mecanismo. A doença de Crohn ileal não cursa com deficiência primária de lactase.