Questão de Medicina — Dermatologia — FUNDATEC 2026
Medicina›Dermatologia
Código
qg688076
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Bento Gonçalves - RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico Dermatologista
Paciente de 42 anos apresenta múltiplas lesões cutâneas mal delimitadas, com perda de sensibilidade em extremidades e espessamento de nervos periféricos. A baciloscopia de esfregaço intradérmico (raspado dérmico) mostra bacilos álcool-ácido resistentes, com índice bacilar (IB) 4+. Considerando os aspectos diagnósticos, classificatórios e terapêuticos da hanseníase, assinale a alternativa correta.
AA confirmação diagnóstica exige obrigatoriamente o cultivo de Mycobacterium leprae em meios artificiais, sendo a baciloscopia apenas um método complementar sem valor diagnóstico definitivo.
BO paciente apresenta hanseníase paucibacilar, e o tratamento deve ser realizado com rifampicina isolada durante 6 meses.
CA baciloscopia positiva com índice bacilar elevado indica hanseníase multibacilar, e o tratamento padrão consiste em poliquimioterapia com rifampicina, dapsona e clofazimina por 12 meses.
DA presença de neuropatia periférica exclui hanseníase e obriga investigação de vasculite ANCA-associada como diagnóstico diferencial obrigatório.
EO diagnóstico de hanseníase é exclusivamente clínico, não sendo necessário qualquer confirmação laboratorial.
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GabaritoC — A baciloscopia positiva com índice bacilar elevado indica hanseníase multibacilar, e o tratamento padrão consiste em poliquimioterapia com rifampicina, dapsona e clofazimina por 12 meses.
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Hanseníase: diagnóstico, classificação e tratamento
Gabarito: letra C. A baciloscopia positiva com índice bacilar (IB) 4+ indica hanseníase multibacilar (MB), e o tratamento padrão é a poliquimioterapia (PQT) com rifampicina, dapsona e clofazimina por 12 meses. O diagnóstico é essencialmente clínico e epidemiológico, mas a baciloscopia positiva tem valor diagnóstico definitivo e classifica o paciente como MB, conforme o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase do Ministério da Saúde.
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae, um bacilo álcool-ácido resistente (BAAR), de multiplicação lenta e não cultivável in vitro. Essa impossibilidade de cultivo em meios artificiais é um ponto central: não existe padrão-ouro para o diagnóstico, que se baseia na anamnese, no exame dermatoneurológico e, quando disponível, na baciloscopia. Os três sinais cardinais da doença são: (1) lesão(ões) de pele com alteração de sensibilidade térmica, dolorosa e/ou tátil; (2) espessamento de nervo periférico associado a alterações sensitivas, motoras e/ou autonômicas; e (3) presença de bacilos M. leprae confirmada na baciloscopia de esfregaço intradérmico ou na biópsia de pele.
A baciloscopia é realizada pelo raspado intradérmico, corado pela técnica de Ziehl-Neelsen a frio, e o número de bacilos é calculado pela escala logarítmica de Ridley, que atribui índices baciloscópicos (IB) de 0 a 6+. O achado de BAAR no raspado dérmico não apenas define o diagnóstico, como classifica o paciente como multibacilar. A baciloscopia negativa, por outro lado, não afasta o diagnóstico, pois tem baixa sensibilidade, sendo negativa nos casos paucibacilares (PB).
A classificação operacional divide os pacientes em paucibacilares (PB) e multibacilares (MB). Desde 2018, a OMS recomenda um regime único de três medicamentos — rifampicina, clofazimina e dapsona — para todos os pacientes, com duração de 6 meses para PB e 12 meses para MB. O Ministério da Saúde adotou esse esquema único a partir de setembro de 2020, com o objetivo de simplificar o tratamento e prevenir a classificação errônea de casos MB. O IB 4+ do paciente (10 a 100 bacilos por campo) é inequivocamente indicativo de alta carga bacilar, portanto, MB.
A neuropatia periférica com espessamento de nervos é um dos sinais cardinais da hanseníase e não a exclui. O diagnóstico diferencial inclui outras neuropatias, como a doença de Charcot-Marie-Tooth, a doença de Déjèrine-Sottas e a doença de Refsum, mas a presença de bacilos na baciloscopia confirma o diagnóstico de hanseníase, tornando desnecessária a investigação de vasculite ANCA-associada como diagnóstico diferencial obrigatório neste contexto.
A pegadinha central desta questão é a confusão entre o papel da baciloscopia e a classificação operacional. A banca explora a ideia de que o diagnóstico é "exclusivamente clínico" (o que é verdade em parte, mas a baciloscopia positiva tem valor diagnóstico definitivo) e a troca do esquema terapêutico entre PB e MB. Guarde a fronteira: baciloscopia positiva = MB = PQT com 3 drogas por 12 meses; baciloscopia negativa não exclui diagnóstico, mas não classifica como MB.
Critério
Hanseníase Paucibacilar (PB)
Hanseníase Multibacilar (MB)
Baciloscopia
Negativa (não exclui diagnóstico)
Positiva (valor diagnóstico definitivo)
Índice bacilar (IB)
0
1+ a 6+ (ex.: 4+ = alta carga)
Esquema terapêutico
Rifampicina + dapsona + clofazimina (esquema único OMS)
Rifampicina + dapsona + clofazimina
Duração do tratamento
6 meses
12 meses
Hanseníase
1Diagnóstico
Sinais cardinais
Lesão com alteração de sensibilidade
Espessamento de nervo
Baciloscopia positiva
Baciloscopia
Positiva = valor definitivo
Negativa não exclui
2Classificação operacional
Paucibacilar (PB)
Baciloscopia negativa
PQT 6 meses
Multibacilar (MB)
Baciloscopia positiva
PQT 12 meses
3Tratamento (PQT)
Rifampicina
Dapsona
Clofazimina
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a confirmação diagnóstica exige obrigatoriamente o cultivo de Mycobacterium leprae em meios artificiais. Isso é falso: o M. lepraenão é cultivável in vitro, sendo essa uma das razões pelas quais não existe padrão-ouro para o diagnóstico. A baciloscopia positiva tem valor diagnóstico definitivo, e não é apenas um método complementar. O erro está em exigir um exame que é impossível na prática clínica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Classifica o paciente como paucibacilar (PB) e propõe rifampicina isolada por 6 meses. O paciente tem IB 4+, o que indica alta carga bacilar e classificação multibacilar (MB). Além disso, o tratamento nunca é com rifampicina isolada: desde 2018, a OMS recomenda o regime único com rifampicina, clofazimina e dapsona para todos os pacientes, com duração de 12 meses para MB. A alternativa erra tanto na classificação quanto no esquema terapêutico.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A baciloscopia positiva com IB 4+ (10 a 100 bacilos por campo) indica hanseníase multibacilar. O tratamento padrão é a poliquimioterapia com rifampicina, dapsona e clofazimina por 12 meses, conforme recomendação da OMS e do Ministério da Saúde. A alternativa espelha exatamente a regra: baciloscopia positiva classifica como MB e define o esquema terapêutico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a neuropatia periférica exclui hanseníase e obriga investigação de vasculite ANCA-associada. A neuropatia periférica com espessamento de nervos é um dos sinais cardinais da hanseníase, portanto, não a exclui. Embora vasculites possam causar neuropatia, a presença de bacilos álcool-ácido resistentes na baciloscopia confirma o diagnóstico de hanseníase, tornando a investigação de vasculite desnecessária como "obrigatória" neste contexto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que o diagnóstico é exclusivamente clínico, sem necessidade de confirmação laboratorial. O diagnóstico é essencialmente clínico e epidemiológico, mas a baciloscopia positiva tem valor diagnóstico definitivo e é fundamental para a classificação operacional (PB vs MB) e definição do esquema terapêutico. A alternativa ignora o papel da baciloscopia, que, quando positiva, define o diagnóstico e classifica o paciente como MB.