Questão de Medicina — Cirurgia Geral — FUNDATEC 2026
- Código
- qg688259
- Banca
- FUNDATEC
- Órgão
- Prefeitura de Bento Gonçalves - RS
- Ano
- 2026
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Cirurgia Geral
- AStoppa-Rives.
- BBassini.
- CShouldice.
- DLichtenstein.
- EMcVay.
GabaritoC — Shouldice.
Gabarito: letra C. A técnica descrita — imbricação de múltiplas camadas da parede posterior do canal inguinal com sutura contínua, seguida da sutura dos músculos oblíquo interno e transverso do abdome e suas aponeuroses ao ligamento inguinal — é a reparação de Shouldice. O elemento-chave que a distingue das demais é a imbricação em múltiplas camadas com sutura contínua, característica exclusiva dessa técnica entre as opções apresentadas.
A correção cirúrgica das hérnias inguinais pode ser feita por diversas técnicas, que se dividem em dois grandes grupos: os reparos com tensão (primários, sem tela) e os reparos sem tensão (com prótese). As técnicas de Bassini, Shouldice e McVay são exemplos clássicos de reparos com tensão, enquanto Lichtenstein é o protótipo do reparo sem tensão com tela. A técnica de Stoppa-Rives, por sua vez, é um reparo pré-peritoneal com tela, utilizado principalmente em hérnias complexas ou recidivadas.
A técnica de Shouldice, descrita pelo cirurgião canadense Edward Shouldice, baseia-se no princípio de reforçar a parede posterior do canal inguinal por meio da imbricação de suas camadas. O procedimento envolve a abertura da fáscia transversalis, seguida da sutura contínua em múltiplas camadas (geralmente quatro), aproximando o músculo transverso do abdome e o oblíquo interno ao ligamento inguinal. Essa abordagem distribui a tensão ao longo de várias linhas de sutura, o que teoricamente reduz o risco de recorrência em comparação com técnicas que concentram a tensão em uma única linha.
Na prática, o cirurgião que realiza a técnica de Shouldice inicia pela incisão da fáscia transversalis, desde o anel inguinal profundo até o tubérculo púbico. Em seguida, sutura a borda inferior da fáscia transversalis à face posterior do ligamento inguinal, criando a primeira camada. A segunda camada aproxima o músculo transverso do abdome ao ligamento inguinal. A terceira camada sutura o músculo oblíquo interno ao ligamento inguinal, e a quarta camada imbrica o oblíquo interno sobre si mesmo. Todo o reparo é feito com fio contínuo, geralmente monofilamentar não absorvível, como o polipropileno.
A distinção entre as técnicas é fundamental para a prova. A técnica de Bassini, embora também seja um reparo com tensão, utiliza pontos separados (interrompidos) e não imbrica múltiplas camadas — ela aproxima o tendão conjunto e o músculo oblíquo interno ao ligamento inguinal em uma única linha de sutura. A técnica de McVay (ou Cooper) difere por suturar o tendão conjunto ao ligamento de Cooper (pectíneo), e não ao ligamento inguinal, sendo particularmente útil em hérnias femorais. A técnica de Lichtenstein é um reparo sem tensão, no qual uma tela de polipropileno é fixada sobre a parede posterior, sem imbricação de camadas. A técnica de Stoppa-Rives é um reparo pré-peritoneal com tela, acessado por via mediana ou transversa, sem manipulação direta do canal inguinal.
A pegadinha que a banca explora nesta questão é a semelhança entre Bassini e Shouldice, ambas reparos com tensão que envolvem a sutura dos músculos oblíquo interno e transverso ao ligamento inguinal. O candidato que memoriza apenas essa característica comum pode confundir as duas técnicas. No entanto, a descrição do enunciado é precisa ao mencionar a imbricação de múltiplas camadas com sutura contínua, que é o traço distintivo da técnica de Shouldice. A técnica de Bassini, por sua vez, utiliza sutura interrompida e não imbrica camadas.
Guarde a fronteira entre as técnicas: a palavra "imbricação" e a "sutura contínua" apontam diretamente para Shouldice; a "sutura interrompida" aponta para Bassini; o "ligamento de Cooper" aponta para McVay; a "tela" aponta para Lichtenstein; e o "acesso pré-peritoneal" aponta para Stoppa-Rives. É exatamente nesses detalhes que as alternativas se dividem.
Técnica | Tipo de reparo | Característica distintiva | Estrutura de fixação |
|---|---|---|---|
Shouldice | Com tensão (sem tela) | Imbricação de múltiplas camadas com sutura contínua | Ligamento inguinal |
Bassini | Com tensão (sem tela) | Sutura interrompida, sem imbricação de camadas | Ligamento inguinal |
McVay | Com tensão (sem tela) | Sutura ao ligamento de Cooper | Ligamento de Cooper (pectíneo) |
Lichtenstein | Sem tensão (com tela) | Fixação de tela de polipropileno, sem imbricação | Ligamento inguinal |
Stoppa-Rives | Sem tensão (com tela) | Acesso pré-peritoneal, sem abertura do canal inguinal | Espaço pré-peritoneal |
A técnica de Stoppa-Rives é um reparo pré-peritoneal com tela, utilizado principalmente em hérnias complexas, recidivadas ou bilaterais. O acesso é feito por incisão mediana ou transversa, e a tela é colocada no espaço pré-peritoneal, sem abertura do canal inguinal. A descrição do enunciado, que menciona a imbricação de camadas da parede posterior do canal inguinal e a sutura dos músculos oblíquo interno e transverso ao ligamento inguinal, não corresponde a essa técnica, que não manipula diretamente o canal inguinal nem imbrica camadas musculares.
A técnica de Bassini é um reparo com tensão que aproxima o tendão conjunto e o músculo oblíquo interno ao ligamento inguinal, mas utiliza pontos separados (interrompidos), não uma sutura contínua, e não imbrica múltiplas camadas da parede posterior. A descrição do enunciado é específica ao mencionar a imbricação em múltiplas camadas com sutura contínua, o que exclui a técnica de Bassini. A confusão entre Bassini e Shouldice é comum, pois ambas envolvem a sutura dos músculos oblíquo interno e transverso ao ligamento inguinal, mas a técnica de sutura e o número de camadas as diferenciam.
A técnica de Shouldice é caracterizada pela imbricação de múltiplas camadas da parede posterior do canal inguinal com sutura contínua. O procedimento envolve a abertura da fáscia transversalis e a sutura em quatro camadas, aproximando o músculo transverso do abdome e o oblíquo interno ao ligamento inguinal. A descrição do enunciado — "imbricando múltiplas camadas da parede posterior do canal inguinal com uma técnica de sutura contínua" e "os músculos oblíquo interno e transverso do abdome e suas aponeuroses são suturados ao ligamento inguinal" — corresponde exatamente a essa técnica. A sutura contínua e a imbricação em múltiplas camadas são os elementos distintivos que identificam a técnica de Shouldice.
A técnica de Lichtenstein é um reparo sem tensão, no qual uma tela de polipropileno é fixada sobre a parede posterior do canal inguinal, sem imbricação de camadas musculares. A descrição do enunciado não menciona a colocação de tela, mas sim a imbricação de camadas com sutura contínua, o que exclui a técnica de Lichtenstein. Além disso, na técnica de Lichtenstein, a tela é fixada ao ligamento inguinal e ao tubérculo púbico, mas não há sutura dos músculos oblíquo interno e transverso ao ligamento inguinal como descrito.
A técnica de McVay (ou Cooper) difere das demais por suturar o tendão conjunto ao ligamento de Cooper (pectíneo), e não ao ligamento inguinal. Essa técnica é particularmente útil em hérnias femorais, pois o ligamento de Cooper é uma estrutura mais resistente e anatomicamente adequada para o reparo nessa região. A descrição do enunciado menciona explicitamente a sutura dos músculos oblíquo interno e transverso ao ligamento inguinal, o que não corresponde à técnica de McVay, que utiliza o ligamento de Cooper como ponto de fixação.
A regra de ouro para identificar a técnica de Shouldice é a presença simultânea de três elementos: imbricação de múltiplas camadas, sutura contínua e sutura ao ligamento inguinal. Qualquer técnica que não apresente esses três elementos em conjunto não é a de Shouldice.
Gabarito: letra C
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