Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Gastroenterologia — FUNDATEC 2026

MedicinaGastroenterologia
Código
qg688287
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Bento Gonçalves - RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico Gastroenterologista
Uma paciente de 64 anos de idade chega na emergência do hospital com exames hepáticos anormais e ultrassom que mostra hepatomegalia e pouca ascite com vasos patentes. Na revisão da história médica, descobre-se que a paciente tem uma história de doença arterial coronariana e foi admitida por dispneia e edema de membros inferiores. Os exames laboratoriais revelam: bilirrubina total: 2,8 mg/dL (direta: 0,6 mg/dL); AST: 42 U/L; ALT: 38 U/L; fosfatase alcalina: 210 U/L e RNI: 1,3. A paracentese diagnóstica demonstra: citometria com 110 células/mm³ (predomínio de mononucleares); albumina do líquido: 1,2 g/dL; proteína total do líquido: 3,5 g/dL. Albumina sérica simultânea: 3,5 g/dL. Qual é o diagnóstico mais provável?
  1. AHepatomegalia congestiva.
  2. BColedocolitíase.
  3. CCirrose alcoólica.
  4. DSíndrome de Budd-Chiari.
  5. ECirrose biliar primária.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Hepatomegalia congestiva.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Hepatomegalia congestiva: o fígado da insuficiência cardíaca

Gabarito: letra A. A paciente tem insuficiência cardíaca (dispneia, edema de MMII, doença arterial coronariana) e apresenta hepatomegalia com ascite de gradiente de albumina soro-ascite (GASA) ≥ 1,1 g/dL e proteína total do líquido > 2,5 g/dL — o padrão clássico da congestão hepática passiva, que cursa com GASA alto e proteína alta, ao contrário da cirrose, que tem GASA alto e proteína baixa. O diagnóstico é hepatomegalia congestiva.

A congestão hepática passiva (fígado de estase) é a consequência hepática da insuficiência cardíaca direita ou da insuficiência cardíaca congestiva biventricular. O aumento da pressão venosa central é transmitido retrogradamente pelas veias hepáticas até os sinusoides, causando congestão centrolobular, hepatomegalia e, com o tempo, fibrose. Clinicamente, o paciente apresenta dor ou desconforto no hipocôndrio direito, hepatomegalia lisa e dolorosa, e pode evoluir com ascite e icterícia leve. A função de síntese hepática costuma estar preservada ou apenas levemente alterada, com transaminases normais ou pouco elevadas, bilirrubina discretamente aumentada (predomínio da fração indireta) e RNI normal ou levemente prolongado.

O ponto-chave para diferenciar a ascite da congestão hepática da ascite cirrótica é a proteína total do líquido ascítico. Na cirrose, a ascite é um transudato com baixa concentração de proteínas (< 2,5 g/dL), pois o líquido se acumula por hipertensão portal e hipoalbuminemia. Na congestão hepática, o líquido também é um transudato (GASA ≥ 1,1), mas a proteína total costuma ser > 2,5 g/dL, porque o mecanismo predominante é o aumento da pressão hidrostática nos sinusoides, que "empurra" um líquido mais rico em proteínas para a cavidade peritoneal. Essa distinção é fundamental e é exatamente o que a questão explora.

O gradiente de albumina soro-ascite (GASA) é o teste de escolha para diferenciar ascites por hipertensão portal (GASA ≥ 1,1 g/dL) das não relacionadas à hipertensão portal (GASA < 1,1 g/dL). No caso, GASA = 3,5 − 1,2 = 2,3 g/dL, portanto alto, indicando hipertensão portal. As causas mais comuns de GASA alto são cirrose e insuficiência cardíaca; causas menos comuns incluem trombose das veias supra-hepáticas (síndrome de Budd-Chiari), hepatite alcoólica, neoplasias hepáticas extensas e pericardite constritiva. A dosagem de BNP (peptídeo natriurético cerebral) sérico ou no líquido ascítico costuma estar aumentada na ascite por insuficiência cardíaca, ajudando a confirmar a etiologia.

A pegadinha da questão está em associar a ascite com GASA alto e proteína alta a uma doença hepática primária, quando na verdade o padrão aponta para uma causa cardíaca. A paciente tem história de doença arterial coronariana e sintomas de insuficiência cardíaca (dispneia, edema de MMII), o que fecha o diagnóstico de hepatomegalia congestiva. A síndrome de Budd-Chiari também cursa com GASA alto e proteína alta, mas o ultrassom mostraria trombose ou ausência de fluxo nas veias hepáticas, e não "vasos patentes" como no enunciado. A cirrose alcoólica e a cirrose biliar primária cursam com GASA alto, mas com proteína total do líquido < 2,5 g/dL, e a coledocolitíase cursaria com colestase importante (fosfatase alcalina e bilirrubina direta muito elevadas), o que não é o caso.

Guarde o par GASA × proteína total do líquido ascítico: é exatamente nele que as alternativas se dividem. GASA alto + proteína baixa = cirrose; GASA alto + proteína alta = congestão hepática ou Budd-Chiari; GASA baixo = carcinomatose, tuberculose peritoneal, pancreatite, serosite ou síndrome nefrótica.

Critério

Hepatomegalia congestiva (gabarito)

Cirrose alcoólica

Síndrome de Budd-Chiari

Coledocolitíase

Cirrose biliar primária

Mecanismo

Congestão passiva por IC direita

Hipertensão portal + hipoalbuminemia

Trombose das veias supra-hepáticas

Obstrução biliar

Colestase crônica autoimune

GASA (soro − ascite)

Alto (≥ 1,1)

Alto (≥ 1,1)

Alto (≥ 1,1)

Baixo (< 1,1)

Alto (≥ 1,1)

Proteína total do líquido ascítico

Alta (> 2,5 g/dL)

Baixa (< 2,5 g/dL)

Alta (> 2,5 g/dL)

Variável

Baixa (< 2,5 g/dL)

Ultrassom com Doppler

Vasos hepáticos patentes

Cirrose (nódulos, fígado heterogêneo)

Trombose/ausência de fluxo nas veias hepáticas

Dilatação de vias biliares

Cirrose (fases avançadas)

Clínica predominante

Dispneia, edema de MMII, DAC

Etilismo, sinais de hepatopatia crônica

Dor abdominal, ascite de início agudo, trombofilia

Dor biliar, icterícia flutuante

Prurido, fadiga, colestase

Padrão de bilirrubinas

Indireta discretamente elevada

Mista/indireta

Mista

Direta muito elevada

Direta elevada

Fosfatase alcalina

Normal/discreta

Normal/discreta

Normal/discreta

Muito elevada

Muito elevada

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A paciente tem insuficiência cardíaca (dispneia, edema de MMII, doença arterial coronariana) e apresenta hepatomegalia com ascite de GASA alto (2,3 g/dL) e proteína total do líquido > 2,5 g/dL (3,5 g/dL). Esse é o padrão clássico da congestão hepática passiva, em que o aumento da pressão venosa central é transmitido aos sinusoides hepáticos, causando hepatomegalia e ascite com alto teor proteico. A função de síntese hepática está apenas levemente alterada (RNI 1,3, bilirrubina 2,8 com predomínio da indireta), o que é compatível com congestão, não com cirrose descompensada.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A coledocolitíase cursaria com colestase obstrutiva: bilirrubina direta elevada (predomínio da direta, não da indireta), fosfatase alcalina e GGT muito aumentadas, e frequentemente dor biliar e icterícia flutuante. Na paciente, a bilirrubina direta é apenas 0,6 mg/dL (predomínio da indireta), a fosfatase alcalina é 210 U/L (discretamente elevada) e não há dor abdominal. Além disso, a coledocolitíase não explica a ascite com GASA alto nem a hepatomegalia congestiva.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A cirrose alcoólica cursa com GASA alto, mas com proteína total do líquido ascítico < 2,5 g/dL (transudato por hipertensão portal e hipoalbuminemia). Na paciente, a proteína total é 3,5 g/dL, o que fala contra cirrose. Além disso, não há história de etilismo, e o quadro clínico é dominado por sintomas de insuficiência cardíaca. A relação AST:ALT é 42/38 ≈ 1,1, não > 2, como seria esperado na doença hepática alcoólica.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A síndrome de Budd-Chiari (trombose das veias supra-hepáticas) também cursa com GASA alto e proteína total > 2,5 g/dL, mas o ultrassom com Doppler mostraria trombose, ausência ou redução de fluxo nas veias hepáticas, e não "vasos patentes" como no enunciado. Além disso, a paciente tem fatores de risco para insuficiência cardíaca (doença arterial coronariana, dispneia, edema de MMII), não para trombofilia. A ausência de trombose à imagem exclui o diagnóstico.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A cirrose biliar primária é uma doença colestática crônica que cursa com fosfatase alcalina e GGT muito elevadas, anticorpo antimitocôndria positivo e, nas fases avançadas, cirrose com ascite de GASA alto e proteína baixa (< 2,5 g/dL). Na paciente, a fosfatase alcalina é apenas discretamente elevada (210 U/L), a proteína total do líquido é alta (3,5 g/dL) e o quadro clínico é de insuficiência cardíaca, não de colestase crônica.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a associação automática entre ascite com GASA alto e doença hepática primária (cirrose). O candidato que não lembra que a congestão hepática também cursa com GASA alto — mas com proteína total do líquido > 2,5 g/dL — acaba escolhendo cirrose ou Budd-Chiari. A chave é o par GASA alto + proteína alta: isso aponta para congestão hepática ou Budd-Chiari, e a história de insuficiência cardíaca fecha o diagnóstico de hepatomegalia congestiva.

PEGA ESSA DICA!

Na hora da prova, monte uma tabela mental rápida: GASA ≥ 1,1 + proteína < 2,5 = cirrose; GASA ≥ 1,1 + proteína > 2,5 = congestão hepática ou Budd-Chiari; GASA < 1,1 = carcinomatose, tuberculose peritoneal, pancreatite, serosite ou síndrome nefrótica. Essa distinção resolve a maioria das questões de ascite.

Gabarito: letra A

Link permanente: /questoes/qg688287