Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FUNDATEC 2026
Medicina›Medicina Intensiva
Código
qg688299
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Bento Gonçalves - RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico Generalista
Homem de 34 anos, previamente hígido, é levado à unidade de saúde mais próxima após atropelamento por um carro em alta velocidade. Chega consciente, porém confuso, com queixa de dispneia e dor torácica. Ao exame físico, apresenta pressão arterial de 80 x 50 mmHg, frequência cardíaca de 128 bpm, extremidades frias, tempo de enchimento capilar prolongado, turgência jugular e hipofonese de bulhas cardíacas. A ausculta pulmonar revela murmúrio vesicular bilateralmente presente, sem assimetrias significativas, e a percussão torácica não evidencia macicez ou hipertimpanismo. Diante desse quadro clínico, qual é o diagnóstico mais provável?
AChoque hipovolêmico.
BTamponamento cardíaco.
CContusão miocárdica traumática com disfunção sistólica aguda.
DHemotórax.
ETromboembolismo pulmonar agudo.
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GabaritoB — Tamponamento cardíaco.
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Tamponamento cardíaco no trauma torácico
Gabarito: letra B. O quadro clínico descrito — hipotensão, taquicardia, extremidades frias, turgência jugular e hipofonese de bulhas — é a tríade clássica de Beck, que, somada ao contexto de trauma torácico contuso, aponta diretamente para o tamponamento cardíaco. A ausculta pulmonar limpa e a percussão sem macicez afastam hemotórax e pneumotórax hipertensivo, e a ausência de sinais de congestão pulmonar (estertores) e o mecanismo de trauma favorecem o tamponamento sobre a contusão miocárdica isolada.
O tamponamento cardíaco é uma emergência médica que ocorre quando há acúmulo de fluido, geralmente sangue, no espaço pericárdico — o espaço entre o coração e o saco pericárdico que o envolve. No contexto do trauma torácico, pode ser causado por ferimentos penetrantes (arma de fogo ou faca) ou por lesões contusas graves que resultam em ruptura de vasos sanguíneos e hemorragia no espaço pericárdico. A fisiopatologia é a compressão das cavidades cardíacas pelo líquido acumulado, limitando o enchimento diastólico e, consequentemente, reduzindo o débito cardíaco — o que leva à hipotensão, ao choque e ao comprometimento da função cardíaca.
O diagnóstico clínico se baseia na tríade de Beck: hipotensão arterial, turgência jugular (aumento da pressão venosa central) e hipofonese de bulhas cardíacas. No trauma, a ecocardiografia (ou o FAST — Focused Assessment with Sonography in Trauma) é a ferramenta de escolha para confirmar o acúmulo de líquido pericárdico. A conduta de emergência é a pericardiocentese (descompressão pericárdica) ou a janela pericárdica cirúrgica, seguida de monitorização intensiva.
A distinção crucial neste caso é entre o tamponamento cardíaco e o choque hipovolêmico hemorrágico. Ambos cursam com hipotensão, taquicardia e extremidades frias, mas o tamponamento se diferencia pela presença de turgência jugular (pressão venosa central elevada) e hipofonese de bulhas — sinais de congestão direita que não ocorrem no choque hipovolêmico puro, onde a pressão venosa central está baixa. O hemotórax maciço, por sua vez, cursaria com macicez à percussão e murmúrio vesicular abolido ou diminuído no lado afetado, o que não está presente no enunciado. A contusão miocárdica pode causar disfunção sistólica, mas tipicamente cursa com estertores pulmonares (congestão pulmonar) e não apresenta a tríade de Beck de forma tão clássica. O tromboembolismo pulmonar agudo é uma possibilidade, mas o mecanismo de trauma (atropelamento) e a ausência de fatores de risco tornam o tamponamento muito mais provável.
A pegadinha que a banca explora é a tentação de escolher o choque hipovolêmico, que é a causa mais comum de choque no trauma. No entanto, a presença de turgência jugular e hipofonese de bulhas — sinais de pressão venosa central elevada — é o diferencial que aponta para o tamponamento cardíaco, uma causa de choque obstrutivo. Guarde a fronteira: no trauma, choque + turgência jugular = pensar em tamponamento cardíaco ou pneumotórax hipertensivo; choque + colapso venoso (jugulares planas) = pensar em hipovolemia.
Choque no trauma
1Choque hipovolêmico
Jugulares colapsadas
Bulhas normais/hiperfonéticas
2Choque obstrutivo
Tamponamento cardíaco
Tríade de Beck
Hipotensão
Turgência jugular
Hipofonese de bulhas
Pneumotórax hipertensivo
3Choque cardiogênico
Contusão miocárdica
Estertores pulmonares
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O choque hipovolêmico é a principal hipótese em qualquer vítima de trauma, mas o quadro descrito apresenta turgência jugular e hipofonese de bulhas — sinais de pressão venosa central elevada, que são incompatíveis com a hipovolemia. No choque hipovolêmico, as jugulares estão colapsadas (planas) e as bulhas podem estar normais ou hiperfonéticas, não hipofonéticas. A tríade de Beck é o diferencial que afasta essa alternativa.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O paciente apresenta a tríade clássica de Beck: hipotensão (PA 80x50 mmHg), turgência jugular e hipofonese de bulhas cardíacas, em contexto de trauma torácico contuso (atropelamento). A taquicardia, a dispneia e os sinais de choque (extremidades frias, enchimento capilar prolongado) completam o quadro. A ausculta pulmonar limpa e a percussão sem macicez afastam hemotórax e pneumotórax hipertensivo, reforçando o diagnóstico de tamponamento cardíaco.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A contusão miocárdica traumática pode causar disfunção sistólica aguda e choque cardiogênico, mas tipicamente cursa com congestão pulmonar (estertores crepitantes) e não apresenta a tríade de Beck de forma tão clássica. A hipofonese de bulhas e a turgência jugular são mais específicas do tamponamento cardíaco, que é a causa de choque obstrutivo mais provável neste cenário de trauma contuso.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O hemotórax maciço cursaria com macicez à percussão e diminuição ou abolição do murmúrio vesicular no lado afetado, além de desvio do mediastino para o lado contralateral em casos graves. O enunciado afirma explicitamente que a percussão torácica não evidencia macicez e que o murmúrio vesicular está presente bilateralmente, o que afasta essa hipótese. Além disso, o hemotórax não explica a turgência jugular e a hipofonese de bulhas.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O tromboembolismo pulmonar agudo pode causar choque obstrutivo com turgência jugular, mas é uma hipótese pouco provável em um paciente jovem e previamente hígido, vítima de trauma contuso. O mecanismo de trauma (atropelamento) e a ausência de fatores de risco (imobilização, cirurgia recente, neoplasia, trombofilia) tornam o tamponamento cardíaco muito mais provável. Além disso, o TEP agudo tipicamente cursa com dispneia súbita e dor torácica pleurítica, mas a hipofonese de bulhas não é um achado clássico.
Gabarito: letra B — o diagnóstico mais provável é o tamponamento cardíaco, pela tríade de Beck em contexto de trauma torácico contuso.