Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FUNDATEC 2026
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
qg691122
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Gravataí - RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico
Homem de 64 anos, hipertenso e diabético, é admitido com infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento de ST em parede inferior, sendo submetido à angioplastia primária com sucesso. No 3º dia de internação, evolui subitamente com dispneia, hipotensão arterial, taquicardia e aparecimento de sopro holossistólico intenso, rude, audível em todo o precórdio. Ao exame físico, observa-se estertores pulmonares difusos e sinais de baixo débito. Qual é o diagnóstico mais provável?
AComunicação interventricular pós-infarto.
BRuptura de músculo papilar com insuficiência mitral aguda.
CTamponamento cardíaco por ruptura de parede livre.
DChoque cardiogênico por disfunção ventricular esquerda extensa.
ETromboembolismo pulmonar agudo.
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GabaritoB — Ruptura de músculo papilar com insuficiência mitral aguda.
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Complicações mecânicas do infarto agudo do miocárdio
Gabarito: letra B. O quadro descrito — IAM de parede inferior, deterioração súbita no 3º dia, sopro holossistólico rude em todo o precórdio, estertores e baixo débito — é a apresentação clássica da ruptura de músculo papilar com insuficiência mitral aguda, complicação que acomete preferencialmente infartos inferiores. O diagnóstico diferencial com a comunicação interventricular (CIV) é o ponto central da questão, e a localização do sopro e a topografia do infarto são os critérios que separam as duas entidades.
As complicações mecânicas do IAM são eventos catastróficos que ocorrem tipicamente entre o 2º e o 7º dia após o infarto, quando o miocárdio necrótico está mais frágil e suscetível à ruptura. São elas: a ruptura de parede livre, a comunicação interventricular (CIV) e a insuficiência mitral aguda por disfunção ou ruptura do músculo papilar. Cada uma tem uma apresentação clínica e um perfil de infarto associado, e é exatamente essa distinção que a banca explora.
A insuficiência mitral aguda por ruptura do músculo papilar é mais comum em infartos de parede inferior, pois o músculo papilar posteromedial é irrigado pela artéria descendente posterior (geralmente ramo da coronária direita), que também irriga a parede inferior. A ruptura leva a uma regurgitação mitral maciça, com onda "v" gigante no átrio esquerdo, congestão pulmonar aguda e choque cardiogênico. O sopro é holossistólico, rude, mais audível no ápice, com irradiação para a axila, e sua intensidade não se correlaciona com a gravidade do refluxo.
A comunicação interventricular (CIV) pós-infarto, por sua vez, é mais frequente em infartos de parede anterior, por obstrução da artéria descendente anterior que vasculariza o septo. O sopro também é holossistólico e rude, porém mais audível na borda esternal esquerda, com irradiação para a base, ápice e região paraesternal direita, e frequentemente acompanhado de frêmito. A diferenciação entre CIV e insuficiência mitral é feita pela localização do sopro e confirmada pelo ecocardiograma, que mostra o defeito septal ou a regurgitação mitral.
A ruptura de parede livre é a mais dramática, cursando com tamponamento cardíaco, instabilidade hemodinâmica rapidamente progressiva e morte súbita. Ocorre mais frequentemente em infartos anteriores extensos, e o exame físico pode mostrar abafamento de bulhas, turgência jugular e atividade elétrica sem pulso (AESP). Já o choque cardiogênico por disfunção ventricular extensa não cursa com sopro novo — é a falência de bomba propriamente dita, sem componente mecânico. O tromboembolismo pulmonar agudo pode causar dispneia e hipotensão, mas não explica o sopro holossistólico rude em todo o precórdio, e o contexto de IAM recente com angioplastia primária bem-sucedida aponta fortemente para complicação mecânica.
A pegadinha central desta questão é a topografia do infarto: a banca descreve um IAM de parede inferior, o que direciona para a insuficiência mitral (músculo papilar posteromedial), e não para a CIV, que é mais comum em infartos anteriores. O candidato que decora apenas "sopro novo pós-IAM = CIV" erra a questão. É preciso associar a localização do sopro (ápice vs. borda esternal) e a parede infartada ao diagnóstico correto. O ecocardiograma transtorácico é o exame de escolha para confirmar a suspeita, e o tratamento definitivo das complicações mecânicas é cirúrgico, com estabilização clínica (drogas vasoativas, balão intra-aórtico, ventilação mecânica) como ponte para a cirurgia.
Guarde a tríade que decide a questão: parede inferior + sopro no ápice + deterioração súbita = insuficiência mitral aguda; parede anterior + sopro na borda esternal + frêmito = CIV; colapso súbito + abafamento de bulhas + AESP = ruptura de parede livre. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Complicação Mecânica
Topografia do IAM
Sopro
Localização do Sopro
Outros Achados
Ruptura de músculo papilar (insuficiência mitral aguda)
Parede inferior
Holossistólico, rude
Ápice (irradiação para axila)
Congestão pulmonar, baixo débito, onda "v" gigante
Comunicação interventricular (CIV)
Parede anterior
Holossistólico, rude
Borda esternal esquerda (irradiação para base/direita)
Frêmito, salto oximétrico no ventrículo direito
Ruptura de parede livre
Parede anterior extensa
Ausente (hipofonese de bulhas)
—
Tamponamento, AESP, morte súbita
Complicações mecânicas do IAM: Insuficiência mitral aguda (Ruptura do músculo papilar, Parede inferior, Sopro no ápice); Comunicação interventricular (Parede anterior, Sopro na borda esternal, Frêmito); Ruptura de parede livre (Tamponamento cardíaco, Abafamento de bulhas, AESP)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A comunicação interventricular pós-infarto também causa sopro holossistólico rude e intenso, mas é mais frequente em infartos de parede anterior, por obstrução da descendente anterior que vasculariza o septo. O sopro da CIV é mais audível na borda esternal esquerda, com irradiação para base, ápice e região paraesternal direita, e frequentemente acompanhado de frêmito. No caso descrito, o infarto é de parede inferior e o sopro é audível em todo o precórdio, o que favorece a insuficiência mitral. Além disso, a CIV cursa com salto oximétrico no cateter de artéria pulmonar, achado ausente na insuficiência mitral.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A ruptura de músculo papilar com insuficiência mitral aguda é a complicação mecânica mais associada a infartos de parede inferior, pois o músculo papilar posteromedial é irrigado pela artéria descendente posterior. A apresentação clássica inclui deterioração súbita (dispneia, hipotensão, taquicardia), sopro holossistólico rude em todo o precórdio (mais audível no ápice), estertores pulmonares por congestão e sinais de baixo débito. O ecocardiograma confirma o diagnóstico ao demonstrar regurgitação mitral grave, e a monitorização hemodinâmica revela ondas "v" em canhão no traçado da pressão capilar pulmonar. O tratamento definitivo é cirúrgico, com estabilização clínica como ponte.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O tamponamento cardíaco por ruptura de parede livre é uma complicação dramática, com instabilidade hemodinâmica de rápida instalação ou morte súbita, mais frequente em infartos anteriores extensos. O exame físico mostra abafamento de bulhas, turgência jugular e pode evoluir com atividade elétrica sem pulso (AESP). No caso descrito, o paciente apresenta sopro holossistólico rude, que não é característico do tamponamento — este cursa com hipofonese de bulhas, sem sopro novo. Além disso, o infarto é de parede inferior, e a ruptura de parede livre é mais comum na parede anterior.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O choque cardiogênico por disfunção ventricular esquerda extensa é a falência de bomba propriamente dita, sem componente mecânico. Cursa com hipotensão, baixo débito e congestão pulmonar, mas não cursa com sopro novo. A presença de sopro holossistólico rude em todo o precórdio é o achado que aponta para uma complicação mecânica (insuficiência mitral ou CIV), e não para disfunção ventricular isolada. Além disso, o paciente foi submetido a angioplastia primária com sucesso, o que reduz a probabilidade de disfunção extensa como causa do choque.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O tromboembolismo pulmonar agudo pode causar dispneia, hipotensão e taquicardia, mas não explica o sopro holossistólico rude em todo o precórdio. O contexto de IAM recente com angioplastia primária bem-sucedida e a deterioração súbita no 3º dia apontam fortemente para complicação mecânica do infarto, não para TEP. Além disso, o TEP cursaria com sinais de sobrecarga ventricular direita (turgência jugular, B2 hiperfonética), e não com sopro sistólico de regurgitação mitral.
Gabarito: letra B — ruptura de músculo papilar com insuficiência mitral aguda, complicação típica de infarto de parede inferior, confirmada pelo sopro holossistólico rude e pela deterioração hemodinâmica súbita.