Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FUNDATEC 2026
Medicina›Medicina Intensiva
Código
qg691202
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Gravataí - RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico Cirurgião Geral
Paciente de 32 anos é vítima de trauma fechado de tórax com múltiplas fraturas costais e contusão pulmonar bilateral extensa. No 3º dia de UTI, evolui com piora da hipoxemia (PaO₂/FiO₂ de 150), aumento do trabalho respiratório e infiltrados alveolares bilaterais progressivos na radiografia. A gasometria arterial mostra PaCO₂ de 55 mmHg e pH de 7,28. Qual é a estratégia ventilatória mais apropriada para prevenir lesão pulmonar induzida por ventilador e melhorar oxigenação?
AElevar a fração inspirada de oxigênio ao máximo e utilizar níveis altos de PEEP (pressão positiva expiratória final), buscando recrutamento alveolar sustentado.
BManter volume corrente moderado associado à PEEP reduzida, como forma de minimizar risco de hiperinsuflação em pulmão contuso.
CExecutar manobra de recrutamento sustentado com pressões elevadas, seguida de manutenção com PEEP mais alta para otimizar abertura alveolar.
DOptar por ventilação oscilatória de alta frequência como abordagem inicial, com o objetivo de melhorar oxigenação global.
EAplicar ventilação protetora com baixo volume corrente, ajuste sistematizado de PEEP e aceitação de hipercapnia leve para limitar lesão induzida pelo ventilador.
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GabaritoE — Aplicar ventilação protetora com baixo volume corrente, ajuste sistematizado de PEEP e aceitação de hipercapnia leve para limitar lesão induzida pelo ventilador.
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Ventilação protetora na SDRA pós-trauma torácico
Gabarito: letra E. O paciente preenche critérios de SDRA moderada (PaO₂/FiO₂ = 150, infiltrados bilaterais, sem evidência de causa cardíaca) e a estratégia mais apropriada é a ventilação protetora com baixo volume corrente (4–6 mL/kg de peso ideal), pressão de platô ≤ 30 cmH₂O, ajuste sistematizado de PEEP e hipercapnia permissiva — exatamente o que a alternativa E descreve. Essa conduta é o padrão-ouro baseado nos estudos ARDSNet e Amato, que demonstraram redução de mortalidade ao priorizar a proteção pulmonar em detrimento da normalização gasométrica.
A lesão pulmonar induzida pela ventilação mecânica (VILI) é o grande risco no paciente com SDRA. Historicamente, usavam-se volumes correntes de 10–15 mL/kg, o que causava volutrauma (distensão alveolar excessiva) e barotrauma (pressões elevadas), perpetuando a lesão pulmonar. A ventilação protetora surgiu justamente para evitar esses danos: ao reduzir o volume corrente para 6 mL/kg de peso ideal e limitar a pressão de platô a 30 cmH₂O, minimiza-se a hiperdistensão dos alvéolos não dependentes (que estão abertos) enquanto se tenta recrutar e manter abertos os alvéolos colapsados com PEEP adequada.
A hipercapnia permissiva é consequência direta dessa estratégia: com volume corrente baixo, o volume-minuto diminui e a PaCO₂ tende a subir. Aceita-se essa hipercapnia desde que o pH se mantenha em níveis aceitáveis (geralmente > 7,20), pois a proteção pulmonar é mais importante que a "correção" do CO₂. No caso apresentado, o pH de 7,28 é tolerável e não contraindica a estratégia protetora — pelo contrário, é exatamente o cenário em que ela se aplica.
O ajuste de PEEP na SDRA é individualizado e visa recrutar alvéolos colapsados sem causar hiperdistensão. Estratégias como a tabela PEEP/FiO₂ do ARDSNet ou a titulação pela driving pressure (Pplatô − PEEP, alvo < 15 cmH₂O) são utilizadas. O objetivo é melhorar a oxigenação com o menor dano possível — e é aí que mora a diferença entre as alternativas: a letra E fala em "ajuste sistematizado de PEEP", enquanto as outras propõem abordagens extremas ou desatualizadas.
A pegadinha central desta questão é a tentação de "fazer de tudo" para melhorar a oxigenação (FiO₂ máxima, PEEP altíssima, manobras agressivas), quando a evidência mostra que a proteção pulmonar é o que salva vidas. O candidato que decora apenas "SDRA = PEEP alta" pode cair nas alternativas A ou C, mas a abordagem correta é sempre a ventilação protetora com titulação cuidadosa.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Elevar a FiO₂ ao máximo e usar PEEP alta de forma indiscriminada não é a estratégia ideal. Embora PEEP elevada seja útil na SDRA, ela deve ser titulada individualmente — PEEP excessiva pode hiperdistender alvéolos saudáveis, aumentar a driving pressure e piorar a lesão pulmonar. Além disso, FiO₂ a 100% por tempo prolongado causa toxicidade pulmonar por oxigênio. A alternativa ignora o princípio da ventilação protetora: não se busca oxigenação "a qualquer custo", mas sim com o menor dano possível.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Manter volume corrente moderado com PEEP reduzida é o oposto do que se faz na SDRA. O volume corrente deve ser BAIXO (4–6 mL/kg), não moderado, e a PEEP geralmente precisa ser ELEVADA para recrutar alvéolos colapsados — não reduzida. A alternativa inverte os dois pilares da ventilação protetora, provavelmente confundindo com a estratégia de pacientes obstrutivos (DPOC), onde se evita PEEP alta para não piorar a hiperinsuflação.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Manobras de recrutamento com pressões elevadas seguidas de PEEP alta são controversas e não são recomendadas como rotina. Estudos não demonstraram benefício consistente em mortalidade, e manobras agressivas podem causar barotrauma e instabilidade hemodinâmica, especialmente em paciente com contusão pulmonar (que já tem parênquima lesado e heterogêneo). A abordagem baseada em evidência é a ventilação protetora com titulação de PEEP, não manobras de recrutamento agressivas.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A ventilação oscilatória de alta frequência (HFO) não é recomendada como abordagem inicial na SDRA. Estudos (OSCILLATE) mostraram aumento de mortalidade com essa estratégia, e ela ficou reservada para casos de resgate em centros especializados. A alternativa propõe uma modalidade desatualizada e sem evidência de benefício, quando a ventilação protetora convencional é o padrão-ouro.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta alternativa resume exatamente a ventilação protetora baseada em evidências: baixo volume corrente (4–6 mL/kg de peso ideal), ajuste sistematizado de PEEP (titulado para recrutar sem hiperdistender) e hipercapnia permissiva (aceitar PaCO₂ elevada desde que o pH seja tolerável). Essa estratégia, validada pelos estudos ARDSNet e Amato, reduz a mortalidade na SDRA ao minimizar a lesão pulmonar induzida pela ventilação. No paciente do caso, com SDRA moderada pós-trauma, é a conduta mais apropriada.
PEGA ESSA DICA!
Na SDRA, memorize os três pilares da ventilação protetora: Vt 4–6 mL/kg, Pplatô ≤ 30 cmH₂O e driving pressure < 15 cmH₂O. Se a alternativa falar em "volume moderado", "PEEP reduzida", "manobra agressiva" ou "HFO", elimine — a banca testa exatamente se você sabe que a proteção pulmonar vem antes da normalização gasométrica.