Questão de Medicina — Cirurgia Geral — FUNDATEC 2026
Medicina›Cirurgia Geral
Código
qg691205
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Gravataí - RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico Cirurgião Geral
Paciente de 42 anos com doença de Crohn apresenta fístula perianal complexa com múltiplos trajetos (fístula transesfincteriana com ramificações). Após 8 semanas de tratamento clínico com antibióticos e imunossupressores (infliximabe), a fístula persiste drenando. Qual é a estratégia cirúrgica mais apropriada, considerando o risco de incontinência fecal?
AFistulotomia convencional com divisão extensa do esfíncter externo como forma de abordagem direta do trajeto fistuloso.
BPosicionamento de Seton de drenagem para controle inicial, planejando abordagem definitiva com fistulotomia em etapas subsequentes.
CRessecção segmentar do intestino acometido, seguida de anastomose primária como estratégia para controle da doença fistulizante.
DFechamento do orifício interno por meio de retalho de avanço anorretal associado à manutenção de Seton para drenagem adequada da fístula.
EDesvio fecal temporário com colostomia, visando reduzir inflamação local e programar reparo definitivo após evolução clínica favorável.
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GabaritoD — Fechamento do orifício interno por meio de retalho de avanço anorretal associado à manutenção de Seton para drenagem adequada da fístula.
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Fístula perianal complexa na doença de Crohn: estratégia cirúrgica
Gabarito: letra D. Em fístula perianal complexa associada à doença de Crohn, a abordagem cirúrgica mais apropriada é o fechamento do orifício interno com retalho de avanço anorretal, mantendo um Seton de drenagem para controle da sepse e preservação da continência fecal. A fistulotomia convencional com divisão extensa do esfíncter é contraindicada nesse cenário pelo alto risco de incontinência, e a ressecção intestinal isolada não trata a fístula perianal.
A fístula perianal é uma comunicação anormal entre o canal anal ou reto e a pele perianal, frequentemente decorrente de infecção das glândulas anais. Na doença de Crohn, a inflamação transmural característica da doença (que atinge todas as camadas da parede intestinal) predispõe à formação de trajetos fistulosos complexos, com múltiplas ramificações e envolvimento variável do esfíncter anal. A classificação de Parks é a mais utilizada para descrever a relação do trajeto com o esfíncter: fístulas interesfincterianas, transesfincterianas, supraesfincterianas e extraesfincterianas. Fístulas complexas são aquelas que envolvem mais de um terço do esfíncter externo, apresentam múltiplos trajetos, ou estão associadas a doença de Crohn, radioterapia prévia ou incontinência fecal preexistente.
O princípio fundamental do tratamento cirúrgico é drenar a sepse e erradicar o trajeto fistuloso, mas SEM comprometer a continência fecal. A continência depende da integridade do esfíncter anal, e a divisão de uma porção significativa do esfíncter externo (como na fistulotomia convencional) pode levar a incontinência, especialmente em pacientes com doença de Crohn, que já têm função esfincteriana potencialmente comprometida pela inflamação crônica e pela diarreia. Por isso, em fístulas complexas, a fistulotomia é substituída por técnicas que preservam o esfíncter, como o uso de Seton de drenagem (um fio passado pelo trajeto que mantém a drenagem e permite a cicatrização gradual) e o retalho de avanço anorretal (que fecha o orifício interno com tecido saudável, sem dividir o esfíncter).
Na prática, o manejo da fístula perianal complexa na doença de Crohn é multimodal e sequencial. Inicialmente, o tratamento clínico com antibióticos (metronidazol e ciprofloxacino), imunossupressores (azatioprina) e agentes biológicos (infliximabe, adalimumabe) é essencial para controlar a inflamação sistêmica e reduzir a atividade da doença. O infliximabe, em particular, é eficaz na cicatrização de fístulas, mas a resposta pode levar semanas. Quando a fístula persiste drenando após 8 semanas de tratamento clínico otimizado, a intervenção cirúrgica é necessária. A estratégia mais aceita é a combinação de Seton de drenagem (para controle da sepse e prevenção de abscessos) com o fechamento do orifício interno por retalho de avanço, que oferece as maiores taxas de cicatrização com menor risco de incontinência. O retalho de avanço anorretal consiste em mobilizar um retalho de mucosa, submucosa e, às vezes, músculo circular do reto, avançá-lo distalmente e suturado sobre o orifício interno, após curetagem do trajeto. Essa técnica preserva o esfíncter e é particularmente indicada em fístulas altas ou complexas.
A distinção crucial que separa as alternativas é o risco de incontinência versus a eficácia na erradicação da fístula. A fistulotomia (divisão do esfíncter) é o tratamento de escolha para fístulas simples, baixas e interesfincterianas, onde o risco de incontinência é baixo. Em fístulas complexas, como a do caso, a fistulotomia é contraindicada. O Seton de drenagem isolado é uma medida temporária de controle, não uma abordagem definitiva. A ressecção intestinal trata a doença luminal, mas não a fístula perianal. A colostomia de desvio é uma opção em casos graves e refratários, mas não é a primeira escolha quando há alternativas preservadoras do esfíncter. O retalho de avanço, associado ao Seton, é a estratégia que equilibra melhor os dois objetivos: drenar a sepse e fechar o orifício interno, preservando a continência.
A pegadinha da banca está em oferecer alternativas que parecem razoáveis, mas que são inadequadas para o caso específico. A alternativa B (Seton de drenagem isolado) é uma medida inicial válida, mas não é a estratégia definitiva. A alternativa E (colostomia) é uma opção de resgate, não a primeira linha. A alternativa C (ressecção intestinal) trata a doença de base, mas não a fístula. A alternativa A (fistulotomia) é o erro mais grave, pois ignora o risco de incontinência. A alternativa D é a única que combina o controle da sepse (Seton) com a erradicação do trajeto (retalho de avanço), preservando o esfíncter.
Fístula perianal complexa (Crohn)
1Princípio: preservar esfíncter
Fistulotomia (risco de incontinência)
Retalho de avanço (fecha orifício interno)
Seton de drenagem (controle da sepse)
2Estratégia definitiva
Retalho de avanço + Seton
3Alternativas inadequadas
Seton isolado (temporário)
Ressecção intestinal (trata doença luminal)
Colostomia (resgate, não 1ª escolha)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A fistulotomia convencional com divisão extensa do esfíncter externo é contraindicada em fístulas complexas, especialmente na doença de Crohn. A divisão de uma porção significativa do esfíncter externo leva a alto risco de incontinência fecal, que é o principal temor no manejo dessas fístulas. Em fístulas simples e baixas, a fistulotomia é o tratamento de escolha, mas em fístulas transesfincterianas com ramificações, a extensão da divisão esfincteriana necessária para abrir todo o trajeto comprometeria a continência. A banca explora a confusão entre o tratamento de fístulas simples (fistulotomia) e complexas (técnicas preservadoras do esfíncter).
Alternativa B — ❌ Incorreta
O Seton de drenagem é uma medida inicial importante para controlar a sepse e prevenir abscessos, mas não é uma estratégia definitiva. Ele mantém o trajeto drenado e permite que a inflamação diminua, mas não erradica a fístula. A alternativa menciona "planejando abordagem definitiva com fistulotomia em etapas subsequentes", o que é problemático: a fistulotomia em etapas (Seton cortante) pode ser usada em fístulas altas, mas em fístulas complexas da doença de Crohn, a fistulotomia, mesmo em etapas, ainda carrega risco de incontinência. A abordagem definitiva preferida é o retalho de avanço, não a fistulotomia. O Seton de drenagem é um componente do tratamento, mas não a estratégia completa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A ressecção segmentar do intestino acometido trata a doença luminal de Crohn, mas não aborda diretamente a fístula perianal. A fístula perianal é uma complicação local que requer tratamento local. A ressecção intestinal pode ser indicada para doença ileal ou colônica sintomática, mas não tem efeito direto sobre o trajeto fistuloso perianal. A fístula perianal pode persistir mesmo após a ressecção do segmento intestinal doente, pois o trajeto fistuloso é uma estrutura independente que precisa ser tratada cirurgicamente. A alternativa confunde o tratamento da doença de base com o tratamento da complicação fistulizante.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a estratégia mais apropriada. O retalho de avanço anorretal fecha o orifício interno da fístula com tecido saudável, sem dividir o esfíncter, preservando a continência. A manutenção do Seton de drenagem garante que o trajeto externo continue drenando adequadamente, prevenindo a formação de abscessos e permitindo que a inflamação diminua. Essa combinação é o padrão-ouro para fístulas complexas na doença de Crohn, pois aborda tanto o controle da sepse (Seton) quanto a erradicação do trajeto (retalho), com risco mínimo de incontinência. A alternativa espelha exatamente o princípio de preservar o esfíncter enquanto trata a fístula.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O desvio fecal temporário com colostomia é uma opção de resgate em casos graves e refratários, mas não é a primeira escolha. A colostomia reduz a passagem de fezes pela área afetada, diminuindo a inflamação local, mas não trata diretamente a fístula. Ela pode ser considerada em pacientes com sepse grave, fístulas extensas ou falha de outras abordagens, mas a alternativa D oferece uma solução menos invasiva e mais eficaz. A colostomia também tem morbidade significativa e impacto na qualidade de vida, sendo reservada para situações em que as técnicas preservadoras do esfíncter não são possíveis ou falharam.
A regra de ouro para levar à prova: em fístula perianal complexa (incluindo doença de Crohn), a fistulotomia é contraindicada; a abordagem é preservar o esfíncter com Seton de drenagem e retalho de avanço. A fistulotomia fica reservada para fístulas simples e baixas.