Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FUNDATEC 2026
Medicina›Medicina Intensiva
Código
qg691902
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Gravataí - RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico de Urgência e Emergência (SAMU)
Mulher, 42 anos, vítima de colisão automobilística, chega com choque hemorrágico grave. Já recebeu 6 unidades de concentrado de hemácias nas primeiras 2 horas. Mantém instabilidade hemodinâmica e sangramento ativo. Segundo as melhores evidências atuais, qual estratégia transfusional reduz a mortalidade nesse cenário?
ATransfusão guiada exclusivamente por exames laboratoriais convencionais.
BUso prioritário de concentrado de hemácias antes de outros hemoderivados.
CRestrição de plasma para evitar sobrecarga volêmica.
DReposição tardia de plasma após estabilização hemodinâmica.
EProtocolo de transfusão maciça com relação aproximada 1:1:1 (CH:PFC:Plaquetas).
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — Protocolo de transfusão maciça com relação aproximada 1:1:1 (CH:PFC:Plaquetas).
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Transfusão maciça no trauma: a estratégia 1:1:1
Gabarito: letra E. Em choque hemorrágico grave com sangramento ativo e necessidade de transfusão maciça, a estratégia que reduz mortalidade é o protocolo de transfusão maciça com relação aproximada 1:1:1 entre concentrado de hemácias, plasma fresco congelado e plaquetas — conforme as melhores evidências atuais e as diretrizes de medicina intensiva e trauma. As demais alternativas descrevem condutas que atrasam ou restringem a reposição de hemoderivados, contrariando o princípio da ressuscitação balanceada.
O choque hemorrágico grave é uma emergência em que a perda sanguínea compromete a perfusão tecidual e desencadeia a chamada tríade letal: hipotermia, acidose e coagulopatia. A coagulopatia do trauma não é apenas consequência da diluição dos fatores de coagulação pela reposição volêmica com cristaloides — ela se instala precocemente, por ativação e consumo da coagulação, hiperfibrinólise e disfunção plaquetária. Por isso, a ressuscitação volêmica moderna abandonou a ideia de infundir grandes volumes de cristaloides primeiro e transfundir hemácias depois: isso agrava a coagulopatia dilucional e piora o prognóstico.
A estratégia atual é a ressuscitação balanceada, que combina, desde o início, hemocomponentes na proporção que mimetiza o sangue total. O protocolo de transfusão maciça (PTM) deve ser ativado precocemente — em antecipação à necessidade ou assim que se reconhece hemorragia grave — e prevê rodadas com 6 unidades de concentrado de hemácias, 6 unidades de plasma fresco congelado e 6 unidades de plaquetas (ou 1 aférese), ou seja, relação 1:1:1. Essa abordagem reduz a mortalidade ao tratar simultaneamente a hipovolemia, a anemia e a coagulopatia, evitando que o paciente chegue a um estado de exsanguinação irreversível.
A evidência que sustenta essa prática vem de estudos observacionais e do ensaio clínico PROPPR, que comparou a relação 1:1:1 com 1:1:2 e demonstrou menor mortalidade por exsanguinação no grupo 1:1:1, além de melhor controle do sangramento. Embora não tenha havido diferença estatisticamente significativa na mortalidade global em 24 horas ou 30 dias, a redução de mortes por hemorragia e a melhora na obtenção da hemostasia consolidaram a relação 1:1:1 como padrão nos protocolos de transfusão maciça. O ácido tranexâmico, administrado precocemente (até 3 horas do trauma), também faz parte do pacote de tratamento, conforme demonstrado pelo estudo CRASH-2.
A pegadinha central desta questão é a tentação de guiar a transfusão por exames laboratoriais convencionais ou de priorizar apenas hemácias. No sangramento exsanguinante, esperar o resultado de hemoglobina, plaquetas ou coagulograma para decidir a reposição atrasa o tratamento e piora o desfecho. A transfusão maciça é uma decisão clínica, baseada no mecanismo de trauma, nos sinais vitais e na resposta inicial à reposição — não na espera por laboratório. O alvo de fibrinogênio, por exemplo, é de 150 a 200 mg/dL, e a dose usual de crioprecipitado é de 10 unidades, mas isso é guiado por tromboelastograma após o início do protocolo, não antes.
Guarde a fronteira que separa as alternativas: no choque hemorrágico grave com indicação de transfusão maciça, a conduta é repor hemocomponentes de forma balanceada e precoce (1:1:1), e não transfundir guiado por laboratório, priorizar hemácias isoladamente, restringir plasma ou adiar sua reposição. É exatamente nesse contraste que as alternativas se dividem.
1Ativação precoce do PTM
2Relação 1:1:1 (CH:PFC:Plaquetas)
3Ácido tranexâmico até 3h
4Guia por tromboelastograma
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
A transfusão guiada exclusivamente por exames laboratoriais convencionais é inadequada no sangramento ativo e instável. Os exames demoram a ficar prontos, não refletem em tempo real a coagulopatia em evolução e, no choque exsanguinante, a decisão de transfundir é clínica e imediata. Após o início do PTM, o ideal é guiar as transfusões seguintes por tromboelastograma, que avalia a coagulação de forma mais dinâmica — mas nunca esperar o laboratório para iniciar a reposição.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Priorizar concentrado de hemácias antes de outros hemoderivados reproduz a conduta antiga e superada, que dilui os fatores de coagulação e as plaquetas, agravando a coagulopatia. No PTM, hemácias, plasma e plaquetas são infundidos juntos, na relação 1:1:1, desde o início. A reposição isolada de hemácias não trata a coagulopatia do trauma e aumenta o risco de sangramento incoercível.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Restringir plasma para evitar sobrecarga volêmica é um erro conceitual duplo. Primeiro, no choque hemorrágico, o plasma é essencial para repor fatores de coagulação e tratar a coagulopatia — restringi-lo piora o sangramento. Segundo, a preocupação com sobrecarga volêmica é típica de outros choques (como o cardiogênico), não do choque hemorrágico, em que o problema é justamente a perda de volume intravascular. A ressuscitação balanceada busca repor o que foi perdido, sem excesso de cristaloides, mas sem privar o paciente de plasma.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Adiar a reposição de plasma até a estabilização hemodinâmica contraria a lógica do PTM. A coagulopatia se instala precocemente e o plasma deve ser infundido desde a primeira rodada, junto com hemácias e plaquetas. Esperar a estabilização para repor plasma significa deixar o paciente sangrando com coagulação deficiente por mais tempo, aumentando a mortalidade por exsanguinação.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O protocolo de transfusão maciça com relação aproximada 1:1:1 (CH:PFC:Plaquetas) é a estratégia que reduz mortalidade no choque hemorrágico grave. Essa relação mimetiza o sangue total, trata simultaneamente hipovolemia, anemia e coagulopatia, e é sustentada por evidências como o estudo PROPPR, que mostrou menor mortalidade por exsanguinação no grupo 1:1:1. O PTM deve ser ativado precocemente, com rodadas de 6 unidades de cada hemocomponente, e o ácido tranexâmico deve ser administrado até 3 horas do trauma.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tentação de guiar a transfusão por laboratório ou de priorizar apenas hemácias, como se a reposição fosse sequencial e dependente de exames. No choque hemorrágico grave, a decisão é clínica e imediata: ativar o PTM com relação 1:1:1 desde o início. Lembre-se: hemácias, plasma e plaquetas juntos, na mesma proporção, tratam a tríade letal — não espere o laboratório para começar.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de transfusão maciça, memorize o tripé: (1) ativação precoce do PTM por critérios clínicos (mecanismo penetrante, PAS ≤ 90, FC ≥ 120, FAST positivo — escore ABC ≥ 2); (2) relação 1:1:1 entre CH, PFC e plaquetas; (3) ácido tranexâmico 1 g em 10 minutos, seguido de 1 g em 8 horas, se dentro de 3 horas do trauma. Esse é o pacote que reduz mortalidade.